CORPO ESTRANHO

Rosane Carneiro

 

Neste seu pequeno livro-corpo “indevido”, Rosane Carneiro não presume a fatal destinação dos seres, desde o “ovo” condenados a uma vita breve. Evoé, ruge a poetisa, convidando homens e mulheres ao renascimento de Dionísio, seja nesta existência  bailarina, seja em outras de um aquém-túmulo. E se a vida pode ser “memória do corpo” ou “carne da história”,  por um lado indica aquilo que resiste, por outro o que sacia a fome de si e do alheio. Ou seja, a fronteira entre o corpo inibido e o corpo desejante: “Ao alcance dos olhos a cura /o que não se procura / não se prescreve /
receita em descoberta”.

                                               Leonardo Vieira de  Almeida

Editora da Palavra
90p. R$ 18,00

 

As modulações de Eros, tão presentes em Prova, livro anterior de Rosane Carneiro, ressurgem ainda mais intensas e bem trabalhadas neste Corpo estranho. Na busca de palavras que digam a força da matéria, Rosane defronta-se com a  “carne da aurora”, deseja a “embriaguez da luz”. Na sua poesia, transforma-se estranho em entranha, pois o outro já surge sob o signo da interioridade: “germine em mim /a pele do homem amado”. Sorver o corpo da paisagem (“os músculos do vento”) ou perder-se na paisagem do corpo são movimentos que apontam para a mesma direção: a da palavra poética entendida como a prática de uma erosgrafia.

                                                           Antonio Carlos Sechin

 

 

MÚSCULOS face a face
feixes de força iluminados
no eixo das fibras
fusão entre o que fende
e compacta

fissura
de ser fita
seda e cetim
do que foi carne
e hoje é fístula

de forma emoldurada

 

 

ENTRANHADOS NA CARNE da aurora
dialogam pássaros
entre vísceras de árvores
a argumentar aos músculos do vento
o encadeamento do tempo
articulações da existência

Bege, sanguínea e suspensa
a criatura da manhã
nutre a teia daqueles galos
e gera do púlpito de batimentos
reflexões nos homens,
insones rebentos

 

 

FOLHAS FRUTOS fontes figos
a fundo te imagino
figuras febril
cálido bendito
fugidio ao toque porém
flanas deveras no sonho
feliz e permitido

 

 

PROPUS AO MEU AMOR trezentas flores. No selo de cada uma espaço para o céu, volátil veículo para a evanescência, um suspiro cravino de todas as cores: girassóis crisântemos gérberas dálias e filhas do campo. O amor sutil é o mesmo de ontem, que é sempre e é neste instante, sem a condição do limite. Enquanto existe tal essência nada incorpora nada engendra,apenas compõe. Para dentro e fora do que se redemoinha no vão  das horas, na ponte absoluta que somente comporta. Um caminho.

 

 

SEGUE O DIÁLOGO com o tempo
erupção de tratados e pactos
de um longínquo estar
pelas entranhas do universo
antepassado presente
refletindo a abóbada dos séculos
e egrégoras de todas as eras

escoar épocas

prossegue o diálogo
vestir vocábulos
envergar a palavra
para traduzir
o mundo primevo
o mundo velho
o mundo eterno

 

DO CORPO fazer miséria
altitude para o tombo
vácuo para o limite
fundo para o trote

Do corpo miserê de ideias
perfumes, lâncomes, beauties e batons
ossos vestidos em luxo
apenas para nu ao final dormir

Trapiche o corpo
gosta de vadiagem
ou vadiação
?

Para sumir de si
basta que ele queira
estar contigo e ser outro
vagar indefenso sem juízo

Para ser de ti estranho
nada celeste
puro delito
inteiro presente

mas de todo santo

 

 

 

 
 
 
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