Lígia
Dabul
nasceu e vive
no Rio. Publicou
o livro de
poemas Som
(Editora Bem-Te-Vi,
2005). Tem
poemas em
revistas,
jornais, folhetos
e zines impressos
e virtuais.
É antropóloga
e faz pesquisas
em Antropologia
da Arte. Publicou
o livro Um
percurso da
pintura, etnografia
sobre a constituição
de carreiras
artísticas
em um ambiente
de arte contemporânea.
Trabalha na
Universidade
Federal Fluminense,
no Gragoatá,
em Niterói,
Rio de Janeiro.
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Entrevista
publicada na revista
http://algaravaria.blogspot.com/2006/08/algaravariaes-12-lgia-dabul.html
1.
Trajetória de
antes
Como construiu
a escritora que é
hoje? Qual sua trajetória
literária até
o primeiro livro?
Há
muito tempo escrevo
e leio sem inocência.
Mas nunca tive pressa
para publicar. Meu primeiro
livro de poemas, Som,
pronto há alguns
anos, só saiu
em 2005. Foi também
há relativamente
pouco tempo que comecei
a colaborar de maneira
mais sistemática
com revistas e jornais.
Essa comunicação
mais larga, com leitores
que ultrapassam um círculo
conhecido de poetas
e de outras pessoas
interessadas na minha
poesia, tem sido uma
medida interessante,
para além da
avaliação
crítica que eu,
como todo poeta, já
tenho até certo
ponto adquirida e ponho
em prática quando
escrevo. É importante
ter o poema domesticado
e servido. Faz parte
da natureza do poema
essa entrega, e do trabalho
do poeta providenciá-la
no momento e com a abrangência
que considerar conveniente.
Mas sou lenta nesses
assuntos.
Ser poeta é
mais talento ou esforço?
Descobriu-se ou inventou-se
poeta?
Um
poema, para mim, é
resultado de muito trabalho
e reflexão. Por
vezes meses, anos, muitas
minúcias - ainda
naqueles casos em que
não mudo nada
do que escrevi no primeiro
fluxo. Essa capacidade
de trabalho, de concentração,
quando acompanhada de
uma capacidade de fantasia
e de crítica,
talvez componha algo
que costumamos chamar
de talento. Norbert
Elias esmiúça
essa hipótese
no seu estudo sobre
Mozart, um caso limite.
Penso que a poesia é
um conjunto muito extenso
de atividades, de práticas
que nem sempre resultam
diretamente em poemas.
Envolve escrita e outras
coisas mais: adiamentos,
música, disposições
estranhíssimas,
interlocução,
leituras e muito lixo.
Dificuldades também.
Cada poeta tem seu rol
de eventos. No meu caso,
a poesia inclui inúmeros
procedimentos compulsivos.
Agora, poeta é
uma identidade, uma
invenção
coletiva. Nesse sentido,
tornei-me poeta como
alguém se torna
ladrão, pintor,
professor, bombeiro.
Jamais portei essência
alguma. Ninguém
carrega algo como ser
poeta ou músico,
alguma aptidão
inata - e isso pude
constatar também
em pesquisas - uma aptidão
generalizada acaba por
se concentrar em alguns
poucos, e isso depende
de fatores os mais diferentes
e boa parte deles completamente
fora do controle do
poeta. Mas escrever/ler
é algo que faço
por escolha e vontade
puras.
Quais
livros fizeram parte
de sua formação?
Tudo
o que li na adolescência
de Carlos Drummond de
Andrade, de Manuel Bandeira,
de Cecília Meireles
e Clarice Lispector
interferem com muita
força no que
penso e escrevo até
hoje. O livro 26 Poetas
Hoje, organizado por
Heloísa Buarque
de Hollanda, me causou
grande impacto, uma
surpresa que me permitiu
reler com outros desejos
o que já conhecia,
e procurar formas mais
inusitadas de fazer
poesia: nos poetas que
eu buscava, no que eu
mesma escrevia. Quando
li À mão
livre, de Armando
Freitas Filho, publicado
em 1979, e A teus
pés, de
Ana Cristina César,
publicado em 1982, já
me encontrava numa freqüência
criativa em poesia.
Sua leitura teve então
algo de formação,
se levo em conta repercussões
mais diretas no que
escrevo. Depois, em
1988, conheci Trevo,
de Orides Fontela. À
obra desta poeta volto
sempre. Eu me reformo
e oriento por ela, por
mais diferente que seja
a sua poesia da minha.
Os poetas que li traduzidos,
só pude de fato
incorporá-los
depois, muitas vezes
muito depois, lendo-os
no seu idioma. Não
considero, portanto,
que tenham feito parte
de minha formação,
mesmo aqueles que são
hoje referências
para mim, como Sylvia
Plath.
Teve
algum incentivador?
Quem?
Os
poetas Ele Semog e Rita
Moutinho. O leitor Moacir
Palmeira.
2.
Psicologia da composição
Com
que se inspira para
escrever? O que é
matéria para
a poesia? Quando escreve,
qual o efeito estético
visado?
A poesia
parece ser um lapso,
um tropeço na
linguagem. Não
penso muito sobre isso,
mas no meu caso tenho
evidências do
papel dos estranhamentos,
de seus acasos, no desencadeamento
e no trabalho poéticos.
Busco, por vezes, esse
estranhamento. Brinco
chamando-o de choque
semântico. Eu
me vejo compelida a
prestar atenção
em conversas de homens
sobre partidas de futebol,
a ler artigos de divulgação
científica sobre
fenômenos hormonais
em elefantes jovens,
manuais de pesca, reportagens
sobre caça às
baleias, livros de cálculo,
folhinha, verbetes sobre
rituais celtas. É
diferente da pesquisa
que acompanha a elaboração
de alguns poemas. Trata-se
de envolvimento com
um universo de palavras
que causa uma reação
poética, que
me coloca numa prontidão
criativa. Por vezes
eu me induzo a este
"estado de criação",
como o cineasta Joaquim
Assis gosta de dizer.
São as palavras
a matéria para
a poesia. Ainda que
um poema deva boa parte
de sua força
a sensações
que provêm de
experiências pessoais
intensas, depois de
tanto trabalho e de
submetido a avaliações
minhas desde que começa
a ser feito, ele acaba
por se descolar completamente
de sua origem. Parece
ser então esse
o efeito que busco:
o poema que se depura
e cede à sua
vocação
de objeto simplesmente
literário, retirado,
por acasos e escolhas,
da linguagem com a qual
o poeta interage, na
qual o poeta vive, na
qual eu vivo, com todas
as suas correlações
com sensibilidades,
visões de mundo,
cotidianos.
Costuma
começar pelo
primeiro ou pelo último
verso? Qual deles é
o mais difícil?
Tem dificuldade para
nomear os poemas?
Costumo
começar pelo
primeiro verso, e o
mais difícil
é intervir em
versos que já
aparecem prontos, em
equilíbrio com
os demais. É
necessário muito
esforço e tempo
para desnaturalizá-los.
Sobretudo a música
costuma atrapalhar a
minha poesia.
Atribuir títulos
a poemas é uma
operação
fundamental mas como
qualquer outra de criação.
Pode ou não demorar,
apresentar dificuldades,
ser bem feita.
Há
idéias ou imagens
que lhe perseguem no
fio dos anos e das obras?
Sim.
Por exemplo, uma astronave
nos planos de Shiva.
Para
escrever, precisa conhecer
muitas cidades e ler
todos os livros?
Ler
todos os livros é
sempre bom.
O
poema deve intuir uma
intenção
plástica?
Ele
tem sempre uma realização
plástica, ainda
quando não tivemos
controle das intenções
estéticas.
Qual
a condição
sonora que visa atingir
com seus poemas? Como
a ressonância
funciona na sua obra?
Talvez
por formação,
a música está
arraigada no que escrevo.
Preciso interferir muito
em um poema para que
ele não seja
mais que tudo uma peça
musical. Retirar a musicalidade
excessiva faz parte
então do meu
trabalho, e prezo muito
efetuar as operações
necessárias para
chegar a outro tipo
de ritmo, de fluência,
andamento que não
os que me aparecem de
imediato. Venho já
há algum tempo
experimentando escrever
sonetos e em outras
formas fixas. São
novos problemas e muitas
possibilidades que essas
"caixas" que
delimitam o discurso
poético oferecem.
Já pelo fato
de apresentarem estruturas
rítmicas explícitas,
tenho mais sob controle
o campo sobre o qual
devo interferir. Algumas
tensões são
obtidas com mais potência
e facilidade. Mas enfrento
o óbvio limite
de criar sobre uma métrica
e uma rima, fatais.
É
possível perceber,
em muitos de seus poemas,
a opção
pelo não-dito,
pelo silêncio.
Como você, autora
das peças que
compõem o livro
Som, pensa
essa preferência?
Não
sei se se trata de uma
preferência, uma
referência tácita.
Penso que há
um silêncio primordial.
É sobre o silêncio
que escrevemos, o suporte
essencial da poesia.
Contra e por conta do
vazio branco dele a
poesia existe. Não
me refiro agora aos
aspectos propriamente
rítmicos de um
poema, das pausas que
dão matéria
à energia criada
com a escrita. Calar
precede e se sobrepõe
à poesia, e ainda
assim escrevemos.
3. Prosa do
próprio mundo
Como define
a sua poesia? Como caracterizaria
suas ambições
estéticas principais?
Não
saberia caracterizar.
Mas quero registrar
uma maneira de ser.
Um ímpeto, que
seja. E gostaria que
o resultado fosse exato.
Não ser como
outros registros, mas
experimentar intensamente
outros registros é
parte desse plano.
Entre
seus próprios
poemas, quais os seus
preferidos? Eles coincidem
com os preferidos dos
leitores ou mais divulgados
em geral?
Não
percebo essa relação.
São lidos de
maneiras muito variadas,
avaliados com critérios
distintos por leitores
bem diferentes. Minhas
preferências não
coincidem sempre com
as dos leitores ou com
a divulgação.
Me agrada esse ou aquele
poema por razões
diferentes. Em um eu
resolvi uma questão
de ritmo difícil.
Noutro nomeei algo para
mim indizível.
Naquele é a síntese
bem-sucedida. Ou toquei
finalmente em determinado
tema. Ou consegui realizar
aquele poema contra
todas as expectativas.
Algumas vezes gosto
sem conhecer todas as
razões. E ocorre
de não apreciar
tanto poemas que leitores
que prezo, valorizam.
Às vezes é
o conjunto de poemas
que acho interessante.
Gosto por exemplo dos
sonetos que saíram
neste último
número da Etcetera.
Os poemas publicados
na última
Jandira também
me agradam como reunião.
Costumo preferir os
poemas que estou escrevendo
ou que acabei de terminar.
Estão ainda pulsando,
me envolvendo. Um tempo
depois já estou
ocupada com outros,
e aqueles então
já posso avaliar
com mais tranqüilidade,
sem as preferências
da paixão.
,
Qual a relação
entre seu trabalho e
sua escrita?
Não
é tanta. Mas
na pesquisa antropológica
costumamos nos lançar
em situações
de diferença
- com outros povos,
outras classes, outros
grupos - e nos apropriar
do que então
nos causou, em um primeiro
momento, estranheza.
A idéia é
ricochetear o que descobrimos
para o entendimento
de nosso próprio
mundo, que passa, então,
a possuir elementos
"estranhados".
Criamos essa distância
do que nos era familiar
porque pudemos nos familiarizar
com o que foi espanto.
Faço de fato
algo desse movimento
com a linguagem. Eu
me assusto, me afasto,
trabalho, controlo,
incorporo. Mas a poesia
é diferente:
o poema é "poemacêntrico",
medida de tudo, e é
inevitável substantivá-lo
ao ser composto, descoberto.
Em
que geração
literária você
se concebe? Ela tem
um projeto definido?
Pensar
em termos de geração
e de projeto levaria
a um tipo de análise
da produção
artística que
não é
a que busco fazer a
respeito dos poetas
que "freqüento",
e a meu próprio
respeito. Comecei tarde
a tornar mais público
meu trabalho, talvez
mais madura, e junto
a muitos poetas e leitores
bem jovens; interajo
com poetas cuja experiência
com a escrita é
extremamente diferente
da minha e que têm
expectativas em relação
a público que
não são
as que eu tenho.
Não possuo um
projeto, muito menos
um projeto definido.
Tenho desejos que vão
se conformando no momento
exato em que leio algo,
concretamente, em que
escrevo, em cada poema;
que publico, de cada
vez; ou que dou forma
a um conjunto - no primeiro
livro que organizei,
nos que tenho organizado.
Como
percebe suas principais
qualidades como escritor?
Há algum defeito
de que não abra
mão?
Essa
eu passo.
Recebeu
ou recebe conselhos
importantes de escritores
na sua trajetória?
Como foi e é
o diálogo com
outros escritores?
Mantive
sempre interlocução
com outros poetas e
de maneiras muito diferentes.
Valorizo esse diálogo,
gosto de estar acompanhada,
a poesia no plural.
Há poetas com
quem, mais que tudo,
aprendo. De Armando
Freitas Filho recebo
avaliações
cruciais e referências
de leituras, atenções,
atitudes em relação
à poesia. Com
Paulo Henriques Brito
tenho dialogado em torno
de sonetos que venho
escrevendo. Noutra freqüência,
já há
algum tempo uma comunicação
estreita me liga a diversos
poetas, especialmente
a Paula Padilha e a
Helena Ortiz. Muitas
vezes com tinta ainda
fresca, trocamos inéditos.
Os livros Olhar
Descalço,
de Paula Padilha, Sol
sobre o dilúvio,
de Helena Ortiz, A
filha imperfeita,
de Daniel Santos, ainda
agora me surpreendem.
Nesse momento são
muitos os poetas que
me deixam surpresa.
Li recentemente o belo
Isto, uma plaquete
de André Luiz
Pinto. Estou lendo Miniaturas
kinéticas,
de Aníbal Cristobo.
Mas dialogo com a poesia
de muitos poetas com
quem não interajo
tão diretamente.
Acompanho com grande
atenção
o trabalho de diversos
que conheço por
meio das revistas que
hoje temos, também
as virtuais. Tento ler
sempre a poesia de Diego
Vinhas, de Donizete
Galvão, Paula
Glenadel, Mônica
de Aquino, de Adele
Weber, de Flavia Rocha,
Eduardo Jorge, Leonardo
Martinelli, de Bráulio
Tavares, da inédita
Fabiana de Farias. A
argentina Maria Eugenia
Lopez e a mexicana Fanny
Enriques escrevem uma
poesia que me diz respeito.
O chileno Héctor
Hernández Montecinos
igualmente. Eu me interesso
muito pelo trabalho
da também artista
visual Laura Erber.
Alguns poetas que admiro,
como Cláudio
Daniel, Ana Peluso,
Ademir Assunção,
leio também nos
seus blogs. São
diálogos para
dentro. Esses e outros,
como o que surge sempre
que leio a poesia de
Claudia Roquette-Pinto
e Manoel de Barros.
Quanto
tempo dedica à
leitura de crítica
literária? Concorda
com a idéia de
que ela, nos jornais
e revistas, está
mais digestivo-introdutória
do que analítico-crítica?
Dentro
do possível,
leio a crítica,
especialmente a feita
para poetas e outros
interessadíssimos.
Encontro essa crítica
em publicações
literárias, que
não são
voltadas para o grande
público.
A
crítica literária
de qualidade pode trazer,
de fato, algum benefício
para a produção
poética? De que
maneira(s)?
Penso
que alguém que
se dispõe a fazer
crítica tem que
saber a quem se dirige.
Se pretende atingir
o chamado grande público,
que não tem o
hábito de se
mobilizar para ler poesia,
que no máximo
aceita as indicações
da mídia, a inércia
dos nomes consagrados,
acredito ser uma perda
de tempo gastar a pena
com a desvalorização
do trabalho deste ou
daquele poeta. Melhor
seria oferecer, apresentando
as razões, a
poesia que acredita
valer a pena ser lida.
Perfeito seria sensibilizar
leitores para a poesia.
Noutro caso, se a crítica
está se dirigindo
ao restrito público
da poesia não
difundida, não
oferecida nunca nas
escolas, fora do alcance
dos olhos, não
creio que crie tanta
opinião, por
exemplo, por meio de
grandes jornais. Esses
são leitores
já equipados.
No máximo, vão
apurar a leitura se
acaso considerarem a
possibilidade de ler
a crítica. Na
verdade, é muito
pequeno o público
que lê crítica.
Menor ainda é
o que a lê e que
muda escolhas ou a própria
leitura da poesia por
conta dela.
E em poesia há
um enguiço especial
na crítica. Críticos
poetas com muita freqüência
não conseguem
deixar de falar de si
mesmos. Ocorre até
de explicitarem sua
pedra de toque. Devia
haver espaço
para poetas com essa
vocação
fazerem a crítica
de seus próprios
trabalhos.
4. A poesia
e suas questões
em questão
Muitos poetas
hoje apresentam uma
versatilidade acadêmica.
Eles falam várias
línguas, traduzem,
fazem ensaios, críticas,
resenhas, estudam várias
disciplinas. O poeta
precisa ser um erudito?
Poesia só se
faz com muito estudo?
São
tantas poesias. A que
me atrai costuma demandar
estudo, leitura, outras
línguas.
Qual
a função
social da poesia?
Francamente,
eu não sei. Intuo,
contudo, que criar a
identidade de poeta,
na verdade essa diferença,
seja uma função
socialmente importante.
Mas a prática
da poesia e a leitura
de poesia ultrapassam
muito o circuito dos
poetas mais intelectualizados
e dos próprios
poetas consagrados.
Escrever poesia é
prática popular,
disseminada embora pouco
conhecida. Publicar
poemas é corrente
em jornais, sobretudo
os pequenos, locais,
referidos a pessoas
que se conhecem. É
muito comum também
o gostar de ler poesia,
especialmente a que
tem rima e métrica,
e a que trata de realidades
consideradas belas,
moralmente valorizadas
ou que emocionam o leitor.
Gostar de ler não
significa comprar ou
buscar livros de poesia.
Gostar de escrever também
não resulta publicar
ou tornar-se poeta com
isso, embora muitos
poetas sem livros ou
com livros não
conhecidos pela crítica
ou pela academia sejam
reconhecidos como tais
por um público
não especializado.
A poesia submetida sistematicamente
à avaliação
do próprio poeta,
já desde o momento
em que é criada,
e confrontada por ele
com o que leu, pensou,
com as precipitações
que vão surgindo
enquanto escreve, essa
poesia deve ter alguma
função,
mas desconheço
qual seja.
A
poesia atual é
multiplicidade pura.
O que deve haver num
poema para lhe agradar?
Guardar-se
em algum limite, sugerir
alturas.
A
poesia se esgotou como
gênero literário?
Se não, que caminhos
podem evitar um futuro
esgotamento?
A poesia
não se esgota
como prática
literária. Havendo
condições
- trabalho, leituras,
leitores, interlocução
- não se esgota.
Políticas
literárias: faz
qualquer negócio
para sua obra ser editada?
Não
faço qualquer
negócio para
editar um livro. Tive
a sorte de ter completa
liberdade junto à
minha editora. Som
saiu como eu queria,
com um projeto gráfico
delicado, sem erros,
com o que desejava incluir.
Também não
faço qualquer
coisa para publicar
poemas. Envio para revistas
e jornais sempre poemas
prontos. Não
mexo, não aceito
sugestões, embora
aceite com tranqüilidade
que um editor não
publique um poema meu.
A figura do escritor
precisa ser mais mistificada
ou desmistificada? O
que isso envolveria?
O escritor
poderia passar despercebido
como figura. Não
há nada que justifique
mistificar ou desmistificar
o escritor. A poesia
prescinde desse foco.
Ela tem vida própria
e é isso que
interessa.
Como avalia
o movimento concretista
em relação
à produção
poética contemporânea?
Não
sei se tenho como responder.
Acho muito importante
o que foi feito pelos
concretistas. Gosto
do trabalho de alguns
poetas que produzem,
referidos ao que concretistas
pensaram e escreveram,
que refletem sobre isso,
como Arnaldo Antunes.
Reconheço o fundamental
de sublinharem, na sua
própria poesia,
o caráter de
objeto do poema e as
implicações
de tratá-lo assim.
Mas uma avaliação
mais completa foge ao
que conheço de
fato dessa relação.
5. Museu de agora
e depois
Já ministrou
ou pensa em ministrar
oficina de poesia? Como
ela foi/será?
Não
nos moldes da que eu
fiz na OLAC, com Rita
Moutinho, experiência
que me amadureceu muito
e que foi comum no Rio
de Janeiro na década
de 90. Com a participação
em oficinas algumas
pessoas praticavam e
se agregavam, e construíam
instrumentos e referenciais
para investirem na escrita
poética. Já
pensei, numa direção
completamente diferente,
em ministrar oficinas
de texto para alunos
de graduação,
para sensibilizá-los
na escrita, inclusive
de textos científicos.
Também imaginei
em algum momento como
ler e escrever poesia
poderia ser prática
interessante para psicóticos.
E como orientá-los
nisso poderia ser interessante
para mim.
Alguma
epígrafe que
a acompanha sempre?
Algum epitáfio
lhe contém?
Não,
nenhum.
"Escrever
sobre escrever é
o futuro do escrever"?
(Haroldo de Campos)
Há
outros temas igualmente
interessantes. De qualquer
modo, um poema sempre
fala de si.
Qual
é hoje a marginália
da poesia brasileira?
Ela ainda é possível
depois da internet?
Marginália?
Que
conselhos daria a quem
está começando?
Leia
como quem escreve. Busque
interlocução.
Espere.
Como
você se vê
frente ao recebimento
de originais? Comenta
tudo o que recebe?
Tenho
conseguido ler e quase
sempre comentar.
O
que pensa sobre a algaravária?
Gostei
das entrevistas que
li e de muitos poemas.
Conheci também
alguns poetas por meio
dela. Interessante que
entrevistados e colaboradores
são apresentados
por eles mesmos, nos
depoimentos e nos poemas
que enviam. Não
há explicitação
de critérios
de escolha que preceda
o que eles de fato escrevem,
ou têm a dizer.
Dissonância induzida.
Idéia para o
leitor.
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