Se
o Brasil não
fosse um arquipélago
cultural,
todos certamente
conheceriam
a poesia do
amazonense
Luis Bacellar..
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Na época do apogeu
da borracha, Manaus
ligara-se diretamente
à Europa, de
onde a elite econômica
tudo importava e para
onde enviava os filhos
a estudar em Coimbra
ou no Porto, em Oxford
ou Cambridge. Os numerosos
imigrantes judeus sefarditas
e sírio-libaneses,
por sua vez, mantinham
contatos com os continentes
de origem. Por
outro lado, finda a
prosperidade implantada
pelo ciclo extrativista,
os frágeis vínculos
do Amazonas com o restante
do país, especialmente
com o eixo Rio-São
Paulo, coração
político, econômico
e cultural, estavam
totalmente atrofiados
pela vastidão
geográfica e
a insuficiência
dos meios de transporte.
E não só
isso, antigas razões
de ordem histórica
agravavam a situação,
pois, durante o período
colonial, a região,
ao ser administrada
diretamente de Lisboa,
estava seccionada do
consenso colonial do
Brasil. Por ocasião
da 2ª Guerra mundial,
razoável aquecimento
do comércio na
demanda da borracha,
acendeu esperanças
de recuperação,
mas logo se mostrou
incapaz de reinstaurar
a riqueza perdida. O
Teatro Amazonas, símbolo
do extinto esplendor,
virara uma espécie
de relíquia histórica.
Quando abria as portas
era para espetáculos
de baixa categoria.
Nada de relevante parecia
acontecer na cidade
condenada à mesmice,
distante do progresso
industrial paulista
e do movimento artístico
que por aí
se instalara,
propagando-se
pelo Rio e outros pontos
do país,
a partir de 22.
Em 1952, organizou-se no Colégio Estadual do Amazonas, o
tradicional Pedro II, um debate comemorativo dos trinta anos
da Semana de Arte Moderna e foi imensa a dificuldade em
encontrar três estudantes que se encarregassem de apresentar
e defender o Modernismo. A fidelidade ao gosto parnasiano e
simbolista era um denominador comum esmagador na sociedade
local, até mesmo entre os jovens .
Nessas
circunstâncias, o conhecimento do que
ocorria na área da literatura brasileira foi se processando
não pelos habituais veículos de
comunicação. Manaus não
dispunha de livrarias, só de pequenas
papelarias onde os poucos livros, quase todos didáticos,
figuravam como intrusos entre resmas de papel, cadernos,
lápis, colas e tinteiros. Jornais e revistas de fora eram
raridades que circulavam entre amigos cuidadosos. Encomendas
e novidades demoravam a chegar.
Nascido
em 1928, Luiz Bacellar cresceu na Manaus da decadência, da
vida provinciana acanhada e retrógrada, da falta de
perspectivas para a juventude. A inexistência de
uma universidade ( contava-se apenas com faculdade de
agronomia e de direito) levava ao êxodo grande
número de jovens cujas vocações
não se coadunavam com a oferta restrita e que
muitas vezes acabavam se radicando em outras paragens ao concluir a
formação profissional. Por sorte, Luis
Bacellar, ainda adolescente (dos 11 aos 17 anos) cursou o
Colégio São Bento em São
Paulo, além de mais tarde permanecer
quatro anos no Rio de Janeiro como bolsista do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia. Tais temporadas
certamente contribuíram para suprir a falta de contato com a
literatura que se produzia nos grandes centros. Outro fator relevante
na promoção do necessário
intercâmbio com a vida cultural do resto da
nação, foram as duas caravanas de
jovens escritores amazonenses, viajando ao Sul do país em
1951 e ao Norte e Nordeste em 53.
Valendo-se de todos os tipos de transporte e abertos à
aventura e aos conhecimentos, o grupo travou contatos
fecundos e decisivos com a juventude de outros estados. As
conseqüências não tardaram.
O
surgimento do Clube da Madrugada, em 1954, veio coroar as
aspirações de integração
nacional e consolidar as propostas de modernidade, sacudindo
de modo decisivo o marasmo crônico de Manaus. Luiz
Bacellar e o grupo de jovens. que se lançara na empresa de
descobrir o Brasil (Jorge Tufic, Alencar e Silva,
Antísthenes Pinto , Farias de Carvalho,
Guimarães de Paula, e outros que depois aderiram),
fundaram, com determinação e entusiasmo,
o movimento renovador, promovendo uma revolução
cultural na cidade até então
letárgica, e onde os raros esforços individuais
se perdiam sem repercussão. Nas palavras de Jorge
Tufic: a tarefa abraçaria algo mais que combater o pieguismo
da literatura decadente, o rompimento com o versejar
tradicional. Importava sobretudo a
desmistificação do homem da região, um
contato maior com a realidade da terra. Cabia sim, compensar
o atraso de meio século com urgente
atualização, estudar com afinco a Semana de 22 e
sua proposta de brasilidade.
A
designação Clube da Madrugada, sugerida por Luiz
Bacellar, foi extremamente provocativa e adequada. A idéia
de clube funcionava como alfinetada no formalismo passadista das
academias, sugeria descontração, prazer da
convivência informal , companheirismo sem hierarquias. Eram
jovens tirando, simbolicamente, as gravatas que os sufocavam.
Quanto à palavra Madrugada, ao mesmo tempo que remetia
às noites boêmias, em que a rapaziada se
arrastava dia afora no bate-papo dos bares, sugeria também o
raiar de algo novo, o alvorecer de uma postura mais
crítica, menos alienada diante da
realidade.
Examinando-se
a literatura amazonense que antecedeu à
geração Madrugada, encontramos nos
“Poemas Amazônicos”, de Pereira da Silva,
publicado em 1927, e nos “Ritmos de Inquieta
Alegria”, de Violeta Branca, de 1935, o rompimento
com as formas fixas parnaso/simbolistas .
São obras em verso livre e , portanto, modernistas enquanto
estrutura formal . Mas o mundo que revelam está carregado da
atmosfera pré-modernista. O idealismo
exacerbado, a dicção
retórica , e a rejeição ao cotidiano
são aí
características marcantes. Para ilustrar
a total distância, entre a linguagem e a atitude
poéticas desses antecessores com o que se instaurou a partir
do movimento Madrugada, comparemos dois textos onde o tema do
amanhecer é tratado por Pereira da Silva e
por Luiz Bacellar:
De
Pereira da Silva, leio as estrofes finais de “Na hora do
milagre do amanhecer:
“Vede,
mortais! O sol se desvencilha
Dos ebúrneos coxins do seu leito sidério
E enfim desponta.
Vem percorrer e governar seu grande império.
O suave milagre do amanhecer,
Faz a espécie vibrar. E o homem é o semideus
ousado
Que defronta o sol,
Vida-das-vidas, que rebrilha.
Nem um leve tremer
De pálpebras! O gênio está de
pé,
E o outro gênio fita!
O homem e o sol… A floresta e o céu…
Eis tudo!
Evoé! Evoé!
Esse entreolhar, grandiosamente mudo,
É uma saudação ciclópica de
titãs!
O homem e o sol. O gênio e a luz infinita.
- Duas almas irmãs!
Na imponência imortal de um bronze antigo,
O homem vê no sol desperto o fogo amigo,
Em lumaréus, chameando, na grinalda
Dos vastos, lindos e encantados céus.
E sente que é também um nobre
Grão-Senhor!
Ah! O milagre da madrugada
Trouxe-lhe a explicação da Beleza e do
Amor!” pag. 67
Vejamos a seguir a “Cantiga do Amanhecer”, de Luiz
Bacellar:
O ovo do sol
canta nas landes
uma cantiga de gemas
com as claras nuvens
batidas de ventos.
Ovo da nhambu
a casca azul do céu
se abre em passarinhos
que já chilreiam
no choco desse ovo louro.
Pelo pasto verde claro
vai aquele touro novo
em seu cortejo
de borboletas
retouçando o dia
que começou quando o vôo
do ovo se derramou.
Amanhecia.
Pag.189
A contigüidade dos poemas serve para ilustrar a imensa
distância entre as duas dicções. A de
Pereira da Silva é altissonante, grandiloqüente,
laudatória . Dirige-se a uma platéia de
público afeito à retórica e amante do
espetáculo grandioso. Já a
dicção de Luiz Bacellar, extremamente concisa, de
grande condensação imagética e
comedimento emocional, foge à
ênfase, visando uma
comunicação efetiva, mas despojada de qualquer
pompa oratória. Eis a fundamental mudança a raiar
com o movimento Madrugada. Os “Poemas
Amazônicos”, contemporâneos da fase
primitivista do Modernismo, guardam pontos de contato com o Cobra
Norato, de Raul Bopp, no agenciamento das lendas
exóticas da região, mas se afastam pelo tom
solene e rebuscado, de um beletrismo que não
passou pela lição oswaldiana. É a
visão crítica e o contato profundo com a
realidade social imediata que vai marcar o novo grupo
Madrugada.
Não
entraremos aqui na discussão do que representa a
geração de 45 dentro do movimento
literário modernista brasileiro.. O que nos interessa, no
momento, é reconhecer na geração
amazonense do Clube da Madrugada, e especialmente em Luiz Bacellar,
vínculos diretos com a geração de
45. Percorrendo a obra dos seus poetas mais representativos,
torna-se evidente o extremo apuro formal que os notabilizou , a
assiduidade às formas fixas tradicionais, como o soneto,
(elaborado tanto em decassílabos como em
redondilhas), e o romance, a forma narrativa
ibérica, levada à perfeição
no Brasil por Cecília Meirelles no Romanceiro da
Inconfidência.
A
obra de Luiz Bacellar desenvolve-se, pois, a partir desse momento
literário. Não se trata de simples
acaso os tributos que presta, em seu livro de
estréia, a Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, Federico
Garcia Lorca, todos denominador comum das preferências dos
poetas brasileiros daquela
geração. No entanto, ressalte-se
também a presença indireta
dos autores fundamentais de 22 e 30. Se
Mário de Andrade eternizou em
“Paulicéia desvairada”, a exuberante
metrópole, tumultuada pelo progresso e pelo cosmopolitismo,
o amazonense deixou um pungente testemunho da pacata Manaus
dos meados do século XX. A série de
poemas do Romanceiro Suburbano flagra a decadência da cidade
condenada à demolição.
Leia-se o painel de abertura da longa Balada da Rua da
Conceição, onde se aliam a intensidade
dramática e a precisão visual
nos detalhes arquitetônicos:
“Vão
derrubar vinte casas
na rua da Conceição.
Vão derrubar as mangueiras
e as fachadas de azulejo
da rua da Conceição.
(Onde irão morar os ratos
de ventre gordo e pelado?
E a saparia canora
da rua da Conceição?
Onde irão os jornais velhos?
Onde? E as garrafas quebradas?
Pra onde os cacos de vidro?
Pra onde os cacos de telha?
Pra onde as latas de conserva
vazias e enferrujadas?)
Oh ! Vede as fisionomias
desgostosas e alquebradas
das velhas casas desertas…
Oh! Vede as rugas tristonhas
das janelas dolorosas,
dos batentes desbeiçados,
das velhas portas cambadas
de gonzos desengonçados!
Vede os beirais rebentados!
Vede as calhas entulhadas
pelas folhas fermentadas
e os buracos dos soalhos
e os alpendres corroídos
e as cumeeiras caídas
e as goteiras dos telhados!"
Num
dos variados trechos dessa balada, Bacellar nos
apresenta uma conversa entre árvores da rua e a
fala da “mangueira casimiriana”:
“Ai
que saudades que tenho
do tempo em que não sofria
reumatismo nas raízes
e não tinha cicatrizes
pelo meu tronco enrugado…
Nunca mais nos voltarão
caroços de nossos frutos
contra as nossas copas fartas.”
O tom de humor brincalhão, além de lances de
ironia, vai despontar em muitas passagens, mostrando-nos que as
liberdades, conquistadas pelo modernismo da fase iconoclasta, foram
incorporados por nosso autor. Exemplos de sua veia
satírica podem ser detectados nos poemas narrativos em que
relata casos preservados na memória popular, tais como
Chiquinho das Alvarengas (rico e gordo/gordo e rico/Creso de muitas
arrobas/achatador de penicos), Beco do
“Pau-não-cessa” e no
“Romance do esquartejado” , onde Bacellar,
irreverente, nos apresenta um “alferes”
pelo avesso, tipo malandro que nada tem de mártir
/ herói da pátria, e não passa de um
aventureiro garanhão castigado por marido ciumento..
Também
na “Balada do Bairro do Céu”, percebe-se
a presença da lição Oswald de Andrade,
no uso estilístico de dicção
eminentemente popular.
(“Tá havendo porrada grossa/no crube
“Todos os Santo”:/Capuêra e
anavaiada/rabo de arraia, facada,/ bufete no pé
d’uvido./Tá um fuzuê danado,/o Pedo
tá de oio inchado/ e o Cristo já foi
firido.)
À
propósito do domínio expressivo de
Bacellar, a capacidade protéica de valer-se de
múltiplos registros lingüísticos, vale a
pena comentar aqui como o poeta ora elabora a linguagem coloquial,
direta, ora dá preferência à outra,
culta, cifrada e até hermética.
É o que ocorre na composição de cunho
erótico “Anacreôntica”, onde,
paralelamente ao vocabulário erudito, ele vai soldando
termos de diferentes categorias gramaticais, criando
insólitos neologismos de grande força expressiva.
Se tomarmos o poema “Torneio de papagaios”
verificaremos a extrema ousadia com que reúne não
apenas termos do mesmo registro, mas torna, democraticamente,
simultâneos os registros popular e culto. Ao descrever com
invulgar maestria a competição de pipas e
pandorgas, o poeta cria , graças a ritmo ágil e
tensões vocabulares, um equivalente torneio verbal:
Na
liça das nuvens
a justa do azul:
estrelas e arraias
sóis e paparolas
pipas e pandorgas
briais de papel
de seda, paquifes
de tiras de trapo
veros contraveros
palas xaquetados
cruzados em plena
cortados em barra
goles sobre ouro
prata sobre blau
fusetas lisonjas
bandas de asas no ar
dos paveses leves
de seda, de cola
e talo (evoluem
títeres volantes
roncadeiras vibram
trompas e atabales?)
as linhas comandam
ginetes de vento
bridões rabiolas
gualdrapas estolas
barrigueiras tensas
brigantinas brancas
celadas de vidro
lambrequins rabeiam
peitorais rebentam
nas tranças de lanças
e lâminas pandas
das adargas vítreas
de cerol burnido
flechadas colhidas
bruscas descaídas
brandas empinadas
quedas embiocadas
escudos rompidos
dos famões vencidos
desta imponderável
ágil, livre, frágil
heráldica aérea.
A
obra de Luiz Bacellar compõe-se dos seguintes
títulos:
Frauta de Barro (
1963)
Quatro
Movimentos (1963)
Sol
de Feira (1973) Editora Umberto Calderaro, Manaus
O
Crisântemo de Cem Pétalas (1985) em
co-autoria com Roberto Evangelista; editado pela Prefeitura Municipal
de Manaus; republicado só com os poemas de sua autoria, como
“As Pétalas do Crisântemo”,
integrando a reunião intitulada Quarteto (1998),
edição da Editora Valer de Manaus, com apoio da
Fundação Biblioteca Nacional.
Satori
(1999) Editora Travessia, Manaus
Os
dois primeiros livros, premiados pela Academia de Letras em 1959, e
publicados quatro anos depois, pela Livraria São
José , no Rio de Janeiro, já nos
apresentam uma obra madura, rica e diversificada.
Em Frauta de Barro e Quatro Movimentos,
o autor assume nominalmente a importância da
música na gestação de sua poesia.
Já no prólogo do primeiro livro, opta
pela simplicidade, quando alude ao fato de ter achado em menino
“um frio tubo de argila” e ao se por a
soprá-lo “rude e doce melodia”
“ jorrou límpida e tranqüila/ como
água por um gargalo.” Refere-se também
ao tom “faceto e gaiato” e
à saudade “dos longes da
infância”. A maior parte do livro abarca a Manaus
de seus primeiros anos. Comparecem aí também os
“Dez Sonetos de bolso”, onde o poeta, cheio de
argúcia, simplifica o soneto, reduzindo-o à
métrica da redondilha, redimensionando-o,
portanto, ao tema: miúdos objetos como lenço,
canivete, caixa de fósforo, lápis, chaveiro,
etc. Fora alguns poemas ( a exemplo,
“Torneio de Papagaios”,
“Anacreôntica”, “Estudo de
Marinha”, “Os 7 campos do Mito” e
“A escada”) Frauta de Barro se
mantém dentro da proposta inaugural de simplicidade, contato
com a realidade concreta ( o barro da terra), e linguagem
quotidiana.
Em
“Quatro Movimentos”, no entanto, o clima instaurado
é outro. A proposta musical é mais complexa.
Nesses 33 sonetos, Bacellar se propõe a realizar uma
sinfonia cósmica, destinando 4 sonetos em compasso
de allegro,
a compor uma carta sazonal , 13 sonetos em andante, a compor uma carta
pastoral, 4 sonetos em compasso de adágio
para uma carta lunar e finalmente 12 sonetos em largo, por conta de
uma carta náutica. Trata-se de
elaboração literária em que o autor
expõe seu conhecimento e intimidade com a
tradição poética de língua
portuguesa. Experiências estéticas, decorrentes de
leituras literárias e entretecidas com
experiências vitais, conduzem o autor
pelas veredas do clássico e pelos campos do
simbólico. A cosmovisão, que sustenta o conjunto,
revela intensa participação no acervo
dos mitos e da memória universal. O poeta como que se
desprende da paisagem local circundante e se entrega a um mundo
interior idealmente imaginado. O que surpreende nesse livro
é a originalidade com que Bacellar se move no labirinto das
convenções consagradas. Há sempre uma
nota pessoal na reelaboração de temas
tão comuns como terra, mar, lua e o giro das
estações. Se em certos momentos ele se avizinha
do território poético descortinado em alguns
sonetos de Jorge de Lima, deste se afasta por um grau de menor onirismo
e maior transparência. Além de grande apuro
formal, decassílabos heróicos estruturando
riquíssimas rimas e vocabulário erudito, os
sonetos se impõem pela grande força
imagética, como se vê, por exemplo, no
início da carta lunar: “A lua é um
touro oculto atrás das nuvens / deixando ver os
áureos cornos fora”
Nos
poemas relativos à carta náutica,
são magníficas as
descrições dos animais marinhos.
Aliás, um dos grandes dons de Luiz Bacellar
é a capacidade de desenhar, por meio de palavras,
seres e objetos. Desde os Sonetos de Bolso, fez-se notar pela intensa
visualidade, característica que se evidenciará de
maneira extraordinária no terceiro livro: Sol de feira.
Segundo depoimento do autor “foi escrito com a
intenção de servir de textos para uma
Suíte de danças brasileiras, com motivos tirados
do folclore alimentar da região
amazônica”, o que foi realizado pelo
maestro Coelho Maciel.
Nesta
obra, de caráter lírico-didático, o
autor retoma a tradição de
poetas brasileiros da fase colonial, que se compraziam em louvar os
frutos da terra, gabando-lhes a superioridade sobre os do
reino. Mas se o tema nos remete a Manuel Botelho de Oliveira
em À Ilha de
Maré, vemos que o tratamento dado por Bacellar
difere bastante. Os frutos passam a comparecer com destaque,
desmembrados em concisas unidades poéticas cheias de
autonomia. Em lugar da forma poética silva, ele utiliza
o rondel, personalizando-o, numa estrofe de oito versos em vez de duas
quadras, seguida por sextilha em vez de quintilha. Valendo-se
desta estrutura, faz o inventário poético de 50
frutos da flora amazônica. Em Sol de feira,
Bacellar, emancipado da preocupação ufanista dos
antecessores, realmente os ilumina com a
observação minuciosa de um botânico e a
percepção sensorial de poeta . Em
alguns rondéis o sabor regional é sublinhado pelo
uso de palavras indígenas. Veja-se o da mandioca, onde ele
flagra o processo de transformação da raiz nos
subprodutos do molho e da farinha:
“manimani
teu corpo branco
esfarelado
no caititu
chora espremido
no tipiti
lágrimas vivas
de tucupi
depois no tacho
dança lundus
cateretês
todo doirado
dança emboladas
de amido e luz.
À leitura desses poemas somos sempre agradavelmente
surpreendidos com a adequação das
metáforas que o poeta agencia para nos mostrar os frutos. O
rondel do abacaxi nos diz:
“com
teu cocar
de verdes plumas
feroz te aprumas
para lutar:
feres a mão
que corta as cruas
douradas puas do teu gibão;
No rondel da banana, lemos:
“onde a banana
doce crisálida
dorme? na verde
rede da casca:
no cacho oclusa
tão mansa e inerme
tão paquiderme
musa reclusa;
Note-se que aqui e ali, surge oblíqua a presença
do humano. Ao comparar vegetais com homens, Bacellar desieherarquiza a
ordem culturalmente instituída e nobilita a vida
natural. O rondel do jambo critica de modo irônico
o comportamento humano:
“Jambo tu és
tão rubicundo
qual se corasses
por todo mundo
tanta vergonha
tu tens na cara:
talvez por isso
és fruta rara”
Ao longo da obra, a visão transfiguradora do poeta vai
enaltecendo a realidade comezinha com associações
inusitadas. Em princípio, Bacellar se deixa levar pelo lado
visual, explorando as potencialidades estéticas do material
em foco. Já Manuel Bandeira, ao transformar em objetos
poéticos a maçã e o cacto, os emprenha
de significações que transcendem as
aparências, contaminando-os de
subjetividade. Convém deixar claro que a
atitude do criador de Sol
de feira é predominantemente objetiva e direta.
Ele não se aproveita das frutas como
pretexto para falar de si, nem de outra pessoa.
João Cabral, no seupoema “Jogos
Frutais”, serve-se das frutas pernambucanas como
metáforas e metonímias para, de maneira
oblíqua e sui-generis,
louvar certa mulher da terra. Bacellar quer apenas, e
consegue plenamente, captá-las na
específica integridade delas.
Por
controlar a subjetividade, fugindo ao confessional e
mantendo em regra um distanciamento
estratégico, e sobretudo pela onipresente
concretude de expressão, Luiz Bacellar tem sido
associado a João Cabral de Mello Neto. O
crítico amazonense Marcus Frederico Krugger já
desenvolveu análise aproximando os dois, apontando o rigor
construtivista que estrutura a obra de ambos, e mostrando como a par do
alto grau de universalidade que os distingue, permanecem
emblemáticos de suas regiões. Cabral,
caracterizado pelo elemento pedra, símbolo da secura
nordestina e Bacellar, pelo elemento água,
símbolo dos rios e da floresta equatorial. De
fato, ponderando sobre as considerações de
Krugger, verificamos que no poeta amazonense certas
características de fluidez sintática,
variedades métricas e intensa musicalidade dão
à sua expressão perfeita sintonia com a
maleável natureza fluvial, isso, é
claro, sem comprometer o rigor de sua
criação gerada sob signo de lucidez e
claridade.
Os
dois últimos livros de Luiz Bacellar, O Crisântemo de Cem
Pétalas( de 85) e Satori (de
99), se inscrevem dentro da forma oriental dos
Haicais. Embora não se possa negar um certo modismo
na numerosa produção dessa forma
poética no Brasil, seja por conta da
globalização, que orientalizou o Ocidente e
ocidentalizou o Oriente, ou da contribuição
cultural interna dos imigrantes
nipônicos, o certo é que, em Luiz
Bacellar, ela surge como
decorrência natural de sua inclinação
para a síntese, espécie de clímax para
o persistente exercício de despojamento, e sobretudo,
exigência de sua profunda
vinculação com o
cósmico. Coincidentemente, nosso poeta sempre fugiu ao
confessional e o haicai, na teoria e na prática ortodoxa,
implica a visão pura do horizonte do mundo, aquela que
há quando o “eu” desaparece, totalmente
liberto de sofrimentos e dualidades. Além disso,
Bacellar iniciou-se na filosofia zen-budista e é poeta
comprometido com a essência das coisas.
A
prática do haicai em Bacellar tanto exibe o
cordão umbilical com Matsuo Bashô, de quem traduz
várias composições em gesto de
reverência, como se mostra autônoma e inventiva, de
olhos voltados para a sedução da natureza, seja
universal ou amazônica. No primeiro caso serve de
exemplo “A foice da lua/a messe das nuvens/ceifa
devagar”. Muitas e luminosas são as
captações da paisagem regional, celebrando o
tapete róseo do jambeiro, o relâmpago do calango,
a sensualidade do jambu, o mureru poranga, as palmeiras ao vento, o
mamoeiro, o ninho de japó, que compara a um
“Pé de meia só”. Nessa linha
de composição destaca-se o haicai nacionalista:
“Na laranja e na couve/picada - as cores brasileiras/da
feijoada”.
Note-se
que em sua produção, nem sempre a natureza
é apreendida em estado puro. Há momentos em que o
cósmico e o humano implícito se defrontam.
“Por-do-sol. / Em resposta o edifício / acende as
luzes”. Outro exemplo:“Súbita garoa:
floração de sombrinhas / nas alas do
parque”. A série “Volta ao
mundo em 10 flagrantes”, com alusões a Rossio,
Piazza Navona, Torre Eiffel etc, confirma a visceral conexão
do autor com o mundo da cultura e com o urbano, traço
fundamental desde o livro de estréia. Neste se encontra,
vizinho ao prólogo, o poema “O Poeta
veste-se”. Tem-se no texto um perfeito
equilíbrio entre elementos pertencentes
à esfera da natureza
e à esfera da cultura, no caso, a ocidental de que
também fazemos parte . É
admirável a articulação que
Bacellar promove entre os dois mundos, inserindo-se entre
eles, em plena harmonia. Leio parte da
composição:
“Com
seu paletó de brumas
e suas calças de pedra,
vai o poeta.
……………………………
a caminhar pelas serras.
(pelos montes friorentos
mal se espreguiça a manhã)
Com seu pull-over
cinzento
(feito com lã das colinas)
com seus sapatos de musgo
(camurça verde dos muros)
com seu chapéu de abas largas
(grande cumulus
escuro).
Mas algo ainda lhe falta
Para a elegância completa:
Súbito pára, se curva,
Num gesto sóbrio e perfeito,
Um breve floco de nuvens
Colhe e prende na lapela.
Se, no cômputo geral, a poesia de Bacellar trava um constante
diálogo com o mundo da realidade física
palpável, o poeta sempre seduzido pela
fruição dos sentidos, nem por isso exclui
momentos de grande inquietação espiritual:
“Anjo decaído, irresoluto, ansioso
oscilo entre o Criador e o Rebelado
tão fluido coração me deu o Fado
que nem n’água, ar ou fogo dou
repouso.”
Há também composições em
que o poeta envereda pelo território do sonho e pela
invenção do mito, liberto de qualquer
tradição, entregue de corpo e alma à
fantasia.
A poesia, todos sabemos, é fenômeno
irredutível a explicações de ordem
racional, a despeito das análises interpretativas e
iluminadoras dos grandes críticos.
Espero que os versos citados sirvam de isca à leitura
profunda e prazerosa dos leitores, dispostos a conhecê-lo
melhor.
Astrid Cabral
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