Do espanto às indagações:
a zoopoética de Astrid Cabral
Igor Fagundes
*
Venha ser o que
tu és
Píndaro
Este é meu
reino
Astrid Cabral
Se há uma
chave para abrir Jaula, da poeta amazonense
Astrid Cabral, seu nome é espanto.
Vens e me lambes a fronte / e
com o olhar me tateias, diz-me
o livro a respeito de meu próprio
ímpeto de lê-lo e sê-lo
numa – animal – fraternidade.
E alegremente espanta-me saber que,
a despeito do título da coletânea,
não há nada que, de
fato, nela precise ser aberto: livres
pelas páginas, todos os bichos.
Libertas no verso, todas as feras.
A palavra poética inaugura
este espaço onde não
há grades nem cadeados: solto
meus cavalos / de sonho no hipódromo,
anuncio-me na fala da poeta.
E se há uma
chave para abrir o espanto, seu nome
é sensibilidade, disponibilidade
para um encontro no jardim, sem censuras,
cesuras, reservas. Coragem para abrir
as jaulas da arrogância, da
falsa superioridade humana e flagrar-me
aqui, neste arrepio de lembrar: eu
também bicho. Eu também
fera, onça, cobra. Súbito
/ a revelação / em luz
se acende: um segredo a nos unir /
(...) Eu também ser de veneno.
/ (...) Então eu toco sem nojo
/ o corpo da exótica irmã.
Daí resulta
uma leitura que não quer e
não precisa libertar do poema
seus significados ou significantes.
Não o adentro como se ele estivesse
em cativeiro, mas sim, fosse uma selva.
Destarte, os animais nada perguntam
ou respondem: exclamam. E exclamo
apenas, provando a poesia de Astrid
feito o cão que abana o rabo,
eriça o pêlo, suspende
as orelhas, ou o gato que caminha
sobre telhados, abelhas lambuzando-se
no mel. Re-animalizado, sou a medida
(ou a falta de medida) do que me afeta.
Lates, a boca arregaças, parece
dizer-me o livro, a completar(-me):
para que eu te reconheça.
Tento abrir a jaula
assim, como quem se libera numa leitura
de intensidades, à maneira
do que defenderia o filósofo
francês Gilles Deleuze e dentro
da qual não há nada
a explicar, nada a compreender, nada
a interpretar. É do
tipo ligação elétrica.¹
Porque é nessa voltagem,
na exclamação, no susto,
na perplexidade frente àquilo
que atravessa a vida, vivificando-a,
que nasce, em nós, a poesia.
Que nos vivificando, enfeitiça-nos
com essas magias de Laura, às
quais o livro se dedica e agora me
dedicam ao movimento infante –
porque de descoberta – rumo
a uma zona de indiscernibilidade,
na qual não saberei mais onde
me começo homem, criança
e bicho. A poesia de Astrid oferece
o desafio: esquecer-me de mim como
quem, na verdade, afirma-se nesse
durante. Admirar-me, a cada momento,
com isso que me é estranho
e nasce atravessado, atravessando-me,
de modo que também fosse, de
mim (de nós), o mais íntimo.
Tal qual observo(-me) nestes versos
de Cave Canem:
Dentro de mim
há cachorros
que uivam em horas de raiva
contra as jaulas da cortesia
e as coleiras do bom senso.
solto-os em nome da justiça
tomada de coragem homicida.
Mas sabendo que raiva mata
à míngua de tomar meus
cães
vacinei-os. Ladrem, mas não
mordam
e caso mordam, não matem.
Ao contrário
de outros poemas em que o eu lírico
se refere a um animal literal e supostamente
alheio, nos versos transcritos a animalidade
enunciada poderia, numa primeira leitura,
parecer somente metafórica.
O mesmo ocorreria em escritos como
A Fera, Cavalos de Sonho,
Bicho-de-sete-cabeças,
em que a poeta estaria a fazer uma
comparação/analogia
poética entre morte e animalidade,
ou entre o animal e o humano. Em Bicho-de-sete-cabeças,
por exemplo, a consciência da
mortalidade, que seria a princípio
assustadora, abranda-se com a velhice.
Perde-se o medo de morrer e a morte
deixa de ser um bicho feroz e inimigo:
À medida
que envelheço
as sete cabeças do bicho
corto. Enfim o reconheço
íntimo de mim, meu próximo.
(...)
À medida
que envelheço
aprendo a perder o medo.
Todo bicho fica meigo.
É só botar no colo.
No entanto, se a
poeta está a devolver o humano
a uma identidade com os bichos (e
se mesmo a morte é, ela mesma,
da natureza de todo ser vivo), refiro-me
a uma poética imageticamente
não-metafórica. O universo
de Astrid Cabral é sempre de
fusão e o que chamamos de metáfora
pertence ao domínio do transporte,
da substituição. A holística,
ou ainda, a zoologia de Astrid é
aditiva, copulativa, multiplicativa.
Nunca alternativa.
Logo, se o eu lírico
diz Dentro de mim há cachorros
é porque realmente convive
com a figura dos bichos, guarda-os
em si, ainda que inconscientemente
por meio de uma memória paleológica,
etobiológica e evolucionária.
Somos animais e vivemos em simbiose
com a natureza, num diálogo
perpétuo sem exclusões
com tudo o que nos cerca. E isso não
é metáfora. O poema
Onça sem pêlo é
paradigmático de uma poética
assim pensada: Não é
por conta do medo / que não
encaro de frente / essa onça
sem pêlo. / Amoitada em mim
/ não lhe vejo a cara. / Só
vislumbro no espelho / o rastro das
patas. Em mim, em todos também
este rastro, a herança dos
répteis, anfíbios, aves,
peixes e demais mamíferos.
Daí a sucessão
de espantos como chave para abrir
e adentrar este emblemático
Jaula. Espanto agora frente ao
desenjaular-se do próprio poético,
na medida em que seria sempre regido
pelo metafórico e Astrid constrói
sua fauna verbal para além
das figuras de linguagem, no fluxo
de um incessante devir: tudo para
que em terra firme pise / essa menina
irmã de tartarugas / tão
inquilina dos igarapés.
De acordo com Deleuze, literatura
é devir, na medida em que se
instala descobrindo sob as aparentes
pessoas a potência de um impessoal.
E devir nunca será uma imitação,
idealização, metáfora,
comparação, mas uma
dupla captura, nupcial:
A vespa e a orquídea
dão o exemplo. A orquídea
parece formar uma imagem da vespa,
mas de fato há um devir- vespa
da orquídea e um devir-orquídea
da vespa. A vespa torna-se parte do
aparelho reprodutor da orquídea
ao mesmo tempo que a orquídea
torna-se órgão sexual
da vespa. ²
A poesia de Astrid
é o real em seu excesso, manifestado
pelo amor natural, Eros ecológico
que modela o mundo, desmancha os limites
das coisas e toda a cadeia de entes:
dos infra-celulares, passando pelos
vegetais, minerais, até chegar
aos animais. Por isso, soaria ingênuo
falar também em figuras de
linguagem como a prosopopéia,
pois, como diria Clarice Lispector,
não humanizo bicho porque
é ofensa – há
que respeitar-lhe a natureza –
eu é que me animalizo. Não
é difícil e vem simplesmente.
É só não lutar
contra e é só entregar-se
.3
No conto À
sombra da papouleira, que encerra
o livro, a personificação
é legítima porque satírica.
Fabular, o texto imprime no corpo
da natureza a linguagem humana, incorporando
na fauna e na flora o peso de nosso
tempo e de nossa crueldade, futilidade,
vazio. Bichos fazem exercícios
de ginástica, aulas de canto,
ridicularizam uns aos outros e competem
na mesma ânsia capitalista.
Numa refinada ironia, a fábula
serve, nesse caso, de instrumento
tático para criticar o humano
e, logo, negar a si própria.
Simbolicamente, sinaliza o quanto
a natureza já se encontra contaminada
pela cultura: Deixe estar que um dia
voltaremos para a vingança,
promete-se uma das personagens personificadas
do conto, atestando o que Clarice
já salientara: esta ofensa
que é humanizar um bicho. De
novo o espanto. Desta vez, diante
do brilhantismo com que a autora domina
seus recursos estilísticos.
Na fábula, Astrid é
fabulosa. E se falo em não-metáforas
(ou num para além das metáforas),
celebro a fala silenciosa da metonímia:
em cada verso, em cada devir, o que
sobressai na parte é o todo.
Um panteísmo.
Mas deste encontro
com espantos e admirações
não nasce apenas o poético.
Já disse Aristóteles:
Através da admiração,
pois, tanto agora como desde a primeira
vez, os homens começaram a
filosofar. Assim, tó
thaumázein, o espanto,
o admiração, é
a palavra de origem para uma possível
confluência entre poesia e filosofia
desde seus primórdios no Ocidente.
Miscigenação que sempre
se fez existir na obra de Astrid Cabral,
marcada pela indagação
metafísica, entre outros motivos.
Mesmo aqui, neste
breve e temático livro, quando
se poderia suspeitar da ausência
do habitual vigor filosófico
da autora, mais uma vez é a
força cosmogônica de
seu pensamento o que se consolida.
O que consolida este espanto, mais
um, mais outro, no labirinto de tantos:
de um lado, uma poesia que leva o
leitor a uma fraternidade animal,
a uma comunhão afetiva, sensorial,
acima de qualquer compreensão
racionalista, cientificista e antropocêntrica
que o próprio livro critica;
de outro lado, a permanência
da inquietude existencial e, portanto,
reflexiva frente ao desastre ecológico
ao qual ruma a humanidade: que
fome tão feroz é essa
/ capaz de gerar o massacre de mansos
bois, tenras vitelas?
Se pensada dentro
de uma intertextualidade com outro
pensador, Félix Guattari, a
filosofia poética (ou a poesia
filosófica) de Astrid Cabral
consistiria numa espécie de
ecosofia. Guattari4 problematiza as
possibilidades de ação
humana em níveis individual
e planetário, conclamando a
reinvenção do ser e
do estar no mundo. Revela-nos a desconexão
que há em nossas relações
sociais ao contextualizar o homem
moderno em seu modus vivendi serial,
marcado pela velocidade tecno-científica
e a especialização.
Quando trata da relação
da subjetividade humana com sua exterioridade
(social, animal, vegetal, cósmica),
o autor sinaliza para uma nova compreensão
da vida, caracterizada por uma ecologia
mental, social e ambiental.
De modo poético,
mas igualmente contundente, Astrid
faz referência ao tecnocratismo
digital em poemas como Baleia albina
(Somos então outra casta
de peixes / pescados nas malhas /
da eletrônica rede), condena
a mercantilização animal
em Os búfalos (Nada porém
impede-lhes o servil destino / de
acabarem esquartejados em bifes /
couro reduzido a sandálias),
bem como a banalização
da morte em Tartarugada (E comíamos,
granfinos canibais / - de garfo e
faca - / em pratos de porcelana).
Conforme lembraria
Deleuze, um escritor não escreve
apenas para os leitores, mas também
pelos não-leitores, ou seja,
“no lugar de” e não
“para uso de”. Assim,
da mesma maneira que o poeta-pensador
Artaud havia dito que escreve pelos
analfabetos, pelos idiotas, pelos
selvagens (não para que o leiam,
mas no lugar deles), Astrid parece
escrever pelos bichos, convocando
em sua poesia toda a sensorialidade
e organicidade da voz animal ausente
de linguagem humana. Toda a dor, instinto
e mistério do que, na natureza,
não tem palavra, raciocínio.
Astrid busca essa conciliação.
Conforme o fragmento do texto “O
Fim do Pensamento”, do italiano
Giorgio Agamben, a potência
poética que perpassa Jaula
poderia ser, no discurso agambeniano,
assim instaurada:
Acontece como
quando caminhamos no bosque e, subitamente,
surpreende-nos a variedade inaudita
de vozes animais. Silvo, trilo, chilro,
lascar de lenha e metais estilhaçados,
assobios, cochichos, cicios: cada
animal tem seu som, nascido imediatamente
de si. Ao fim, a nota dúplice
do cuco ri de nosso silêncio,
divulgando nosso ser insustentável,
o único sem voz no coro infinito
das vozes animais. Então, provamos
do falar, do pensar .5
Do espanto às indagações:
Agamben dá eco ao dilema de
pensar se existe uma voz humana como,
por exemplo, o fretenir é a
voz da cigarra ou o zurro é
a voz do jumento. Os homens estão
suspensos na linguagem. Em seu
trilo, é claro: o grilo não
pensa7 , continua o italiano.
O filósofo disserta sobre uma
relação de atrito entre
voz e linguagem, phoné
e logos, suscitada quando
entramos no bosque e percebemos distinções
entre o animal e o humano. À
medida que nos distanciamos da voz
– a voz animal – experimentamos
a linguagem como presentificação
do pensamento, impossibilitando-nos
de emitir um som imediato e exclusivamente
físico e biológico.
Quando Astrid Cabral
pensa sua ecosofia poética,
sabe que, a cada pensamento, sua voz
– a voz animal – está
sempre fugindo no caminho humano da
palavra. Esse estar atormentado pela
fuga irrevogável de nosso phoné
tão-somente corporal é
o que configura a geração
e expansão do pensamento. Ver-se
obrigada a pensar, no encontro consigo
mesma e com aquele em quem busca uma
re-identificação (o
bicho), faz da poesia de Astrid uma
tensão – ímpar
na literatura brasileira – entre
nossa irrecusável semelhança
com os animais e nossa irrecusável
diferença. Nessa encruzilhada,
diz a poeta diante de um pássaro:
conheço-lhe o passarês
/ sem jamais decifrar-lhe a voz.
A poeta, assim,
caprichosamente faz uso disso que
nos afasta dos seres não-humanos
justamente para nos aproximar deles.
E se a amazonense escreve pelos bichos,
também espera que eu a leia
em nome deles, que a leiamos em nome
de sua falta de linguagem (logos)
e constrangidos por nossa carência
de voz (phoné). O
estopim inicial do espanto, característico
do poético, cede naturalmente
ao influxo da pergunta, do questionamento,
da inquietação próprios
do homem, do poeta que sabe: é
preciso caminhar além do mero
susto. Eis a ética poética.
Vamos dar nome aos bois / e chamar
os dicionários / de burros
de tão mudos / pois as tresmalhadas
manadas / de bois que não são
bois / como vamos nomeá-las?
Eis a ética da inquietação
própria do homem, do poeta,
da poeta Astrid que sabe que, enfim,
nada é efetivamente sabido.
Por tudo o que foi
exposto, a escrita de Astrid Cabral
não constituiria uma zoopoética
apenas na medida em que o prefixo
zoo se remete freqüentemente
ao reino animal. Do grego zωή,
zoé, diz vida na condição
de vivificação que atravessa
todos os viventes. Já diferenciara
Carl Kerényi7 os gregos bios
e zoé. O primeiro
refere-se à vida específica,
individual, finita. O segundo, a vida
impessoal, indiferenciada, infinita.
Bios é o transitório
de zoé. Na zoé-poética
de Astrid Cabral, o que se sublinha
é a vivificação
trans-espacial e trans-temporal da
totalidade cuja morte é impossível.
Poesia e zoé como
transcorrer ilimitado de vida, curso
sem ênfase em biografias, em
histórias privadas e demais
particularizações.
Neste livro em que
as magias de Laura são
também a magia de Astrid e
de zoo/zoé, um boto prestes
ao bote habita / e investe para que
outros rios se gerem / e a vida não
se aborte e eterna jorre. Laura,
Astrid, boto, rios: outros nomes para
chamar o mesmo – a poesia.
* Poeta, jornalista, mestrando em
Poética na UFRJ e autor dos
livros Transversais (2000),
Sete mil tijolos e uma parede
inacabada (2004) e por uma
gênese do horizonte (2006).
Notas:
1DELEUZE,
Gilles. Conversações.
Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, p. 16.
2DELEUZE
E PARNET, Claire. Dialogues. Paris:
Flammarion, 1977, p. 8-9.
3LISPECTOR,
Clarice. Água Viva.
Rio de Janeiro: F. Alves, 1993, p.
54.
4GUATTARI,
Félix. As três ecologias.
Campinas: Papirus, 1990.
5AGAMBEN,
Giorgio. “O Fim do Pensamento”.
Em: Terceira Margem. Revista
do Programa de Pós-graduação
em Ciência da Literatura, ano
VIII, número 11, 2004. Tradução
de Alberto Pucheu, p. 157.
6Idem, ibidem.
7KERÉNYI,
Carl. Dionisio; imagem arquetípica
da vida indestrutível.
Tradução de Ordep Trindade
Serra. São Paulo: Odysseus
Editora, 2002, p. XVII-XXII.
|