Armando Freitas Filho


Foto de Cristina Barros Barreto

Armando Martins de Freitas Filho, poeta, ensaísta e crítico literário, nasceu no dia 18 de fevereiro de 1940, no Rio de Janeiro (RJ). Filho único do advogado Armando Martins de Freitas e Maria do Carmo Accioly Rabello Martins de Freitas.

Iniciou os estudos no Externato Cristo Redentor em 1946, e concluiu o curso clássico no Colégio Andrews em 1958, ambos no Rio de Janeiro. Por desejo de sua mãe teria sido padre. Influenciado pelos pais e tios, amantes de música clássica, quis ser maestro. Por vontade própria tornou-se torcedor fanático do Fluminense. Por destino, poeta.

A produção poética desenvolveu-se em paralelo ao exercício de cargos públicos. Em 1966, começou a trabalhar no Ministério de Educação e Cultura. Inicialmente, como pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa; depois, em outros órgãos: como assessor do Departamento de Assuntos Culturais na área de Literatura, secretário da Câmara de Artes do Conselho Federal de Cultura, assessor do Instituto Nacional do Livro, pesquisador da Fundação Biblioteca Nacional. Em 1993, transferiu-se para a Funarte (Fundação Nacional de Arte), onde se aposentou como assessor do gabinete da presidência em 1996. Nessa época, também trabalhou como colaborador dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.

Publicou 24 livros de poesia. Em 1963, fez a estréia com Palavra, em edição particular. Nos anos seguintes esteve ligado ao movimento da Poesia-Práxis. Nesse período publicou Dual (1966) e Marca registrada (1970), e é neles que se pode ler a escrita “praxista” de Armando Freitas Filho. Em seguida vieram De corpo presente, Mademoiselle Furta-cor (com litografias de Rubens Gerchman), À mão livre, Longa vida, A meia voz a meia luz, 3x4, Paissandu Hotel, De cor, Cabeça de homem, Números anônimos, Dois dias de verão (com Carlito Azevedo, ilustrações de Artur Barrio), Cadernos de literatura 3 (com Adolfo Montejo Navas), Duplo cego, Erótica (com gravuras de Marcelo Frazão), Fio terra, 3 tigres (com Vladimir Freire), Sol e carroceria (com serigrafias de Anna Letycia). Em 2003, lançou Máquina de escrever (reunião de 13 livros, incluindo o inédito Numeral / Nominal). Raro mar foi publicado em 2006. No ano seguinte, saíram Para este papel e Tercetos na máquina.

Os livros Duplo cego, Numeral/Nominal e Raro mar foram traduzidos para o catalão e Cabeça de homem e Fio terra para o espanhol. Os cinco foram lançados na Espanha. Participou de diversas antologias estrangeiras com poemas traduzidos e publicados na França, na China, na Alemanha, na Áustria, na Inglaterra, na Itália, na Argentina e na Espanha. Em Portugal, Armando Freitas Filho lançou Uma antologia (seleção feita pelo autor) e tem participado de diversas publicações de poesia.

Em 2001, o Instituto Moreira Salles lançou o CD O escritor por ele mesmo, com uma antologia de poemas na voz do poeta. Em 2005, o compositor Moacyr Luz musicou um poema do livro 3x4 (“Ler na areia, na revista do domingo”) e incluiu no seu CD A sedução carioca do poeta brasileiro. No ano seguinte, o Instituto Moreira Salles/Vídeo Filmes lançou o DVD Fio terra, dirigido por João Moreira Salles.

Recebeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, pelo livro 3x4, em 1985, e o Alphonsus de Guimaraens, outorgado pela Fundação Biblioteca Nacional, por Fio terra, em 2000. No ano seguinte, ganhou a Bolsa Vitae de Artes, concedida pela Fundação Vitae, com o projeto de Máquina de escrever.

Em prosa publicou, em 1979, o volume de ensaios Anos 70 — Literatura (com Heloisa Buarque de Hollanda e Marcos Augusto Gonçalves); na década de 1980, dois livros de ficção infanto-juvenil: Apenas uma lata (Prêmio Fernando Chinaglia) e Breve memória de um cabide contrariado.

Armando Freitas Filho também organizou e escreveu a introdução de Inéditos e dispersos, volume de poemas e textos em prosa de Ana Cristina César. Fez o mesmo trabalho com outros livros da autora: Escritos da Inglaterra, Escritos no Rio e Correspondência Incompleta (com Heloisa Buarque de Hollanda).

Augusto Sérgio Bastos

 

“[...] As aliterações compulsivas, que permeiam todos os seus livros, marcam o zelo do encontro entre murmúrio e muro, a voracidade do amante que se dá sem limites, buscando em seu corpo e no da mulher a crença e descrença na poesia como possibilidade de confluência com a matéria do mundo — a montanha maciça sonhando com o céu.

Tornam, por toda sua poesia, imagens recorrentes: a solidão do corpo, o “dia invariável”, o sol causticante que apressa a morte, o mar imenso em contraposição à cidade, o trânsito nos túneis, a fala que quer rasgar (mas não pode) o vento que move os seres.

Tanto nos poemas eróticos quanto nos que tratam da morte, do círculo do tempo e da dificuldade exasperada da escrita, o leitor depara-se com a disposição vital de um poeta que não se poupa do risco, atirando-se com energia até pontos extremos, e que nos reapresenta, destemido, o paradoxo romântico proposto por Schiller em toda sua conseqüência de ruptura entre homem, linguagem e mundo: ‘Quando a alma fala, ah, já não é a alma que fala!’ [...]

A lírica de Armando existe sob o signo da tensão inconciliável, pois deseja fundir-se com o outro, reconhecendo, ao mesmo tempo, a impossibilidade — pedra inaferrável que impede o encontro —, e se debate, fazendo do poema o arabesco inquieto desse impulso. Todo o tempo, a noção de rascunho revelador é reiterada como um desafio para o qual a poesia funciona como relatos de aventuras necessariamente incompletas. Sob o signo da negatividade que não desiste nem se dobra, marca da melhor arte desde o romantismo, sua obra testemunha uma fissura irreparável e registra sujeito e vida contemporâneos, como veloz máquina de escrever, sem elidir a contradição do gesto, corajosa e lucidamente partido.”

(BOSI, Viviana. Objeto urgente. In: FREITAS FILHO, Armando. Máquina de escrever. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.)

 

CDA no coração

Drummond é Deus. Pai inalcançável.
Não reconhece os filhos. A mão ossuda
e dura, de unhas rachadas, não abençoa:
escreve, sem querer, contudo, a vida
de cada um, misturada com a sua.
Sangue da mesma família, carne
igual — de milagre e tigre — continua
a se emendar, ferida após ferida.
Mas não cessa. Não pára, ainda que a dor
ameace interromper a veia, do que só sob
pressão se articula inteligível, do que só
funciona sozinho, pessoal, mas transparente
contra a vontade do coração medido.

Óculos, binóculos, luneta metafísica
aproximam o que já é próximo:
o que respira colado à pele sem que
o pensamento passe a limpo o calor
do que quase inaudível é inaudito
e íntimo, do que é subterrâneo
mas não quer outra existência
ou apogeu: do que sem luz natural
ilumina para dentro, para baixo
e cresce — raiz sem flor no fim.
Sem o desperdício do suor da cor.
Sem ser surpreendida, sem flagrante
sequer de sua fragrância imaginada.

Boca de traço reto. Face litográfica
riscada em poucas linhas, a carvão.
O corpo está em jogo desentranhando-se
das paredes urbanas que atravessa
a passo automático, com sua fala seca
datilografada depressa, que transforma tudo
em linguagem; o sub-reptício, o explícito —
o vulto e o vulcão — acontecendo em dois tempos:
calculado e sem contagem, dentro da mesma voz
que imprime, minuciosa, no verso
o revérbero, e no rosto da folha
da natureza, as suas variações
sob o olhar azul-céu de longo alcance.

Móvel

Mesa seca, no osso, sem o viço de origem.
Com os quatro pés de esqueleto, já sem raízes
pisando na terra, prestes a se quebrarem.
A madeira é quase lenha que não lembra mais
quando ousou folha flor fruto, vergou sua copa
o tronco, com os ramos estalando sob o vento.
Quando deu sombra e intervalo ao sol.
Quando foi árvore de onde a ave deriva.

Caçar em vão

Às vezes escreve-se a cavalo.
Arremetendo, com toda a carga.
Saltando obstáculos ou não.
Atropelando tudo, passando
por cima sem puxar o freio —
a galope — no susto, disparado
sobre as pedras, fora da margem
feito só de patas, sem cabeça
nem tempo de ler no pensamento
o que corre ou o que empaca:
sem ter a calma e o cálculo
de quem colhe e cata feijão.

Escritório

Igual ao que as pedras pesam
os livros lidos, relidos e idos
me carregam, não sei se mais
ou menos, do que aqueles que não.
Do que aqueles tantos fechados
ou só folheados que curvam a tábua
da estante, que cavam um lugar
cerrados, cegos de mim, que vão fundo
mesmo ficando parados — à espera
e que apenas as traças atravessam.

Num pedaço de papel

Arrebatada.
Arrasou com tudo
a natureza toda.
Não deu nem para guardar
de cabeça.
Foi como se gritasse
uma música, um tom só
curto
de um nu espatifado
que passou a vida
dependurado nos telefones:
foi fulminante
foi uma roubada.
Agora é jogar um pano
(para não ouvir mais)
em cima desta voz caída
como se faz com um atropelado.

Zerando

Abrir as veias e as gavetas:
ávidas, vazias
viradas pelo avesso.
Me despeço de uma vez
longa vida abaixo
mas não avio
nenhuma viagem ou avião.
Não me visto sequer
nem esvaneço
apenas resto
apesar do vento
que me pega de frente
e me entorna todo
pelos olhos.
Defronte, dispara
o dia lá fora
enquanto eu fico aqui
tão fixo e travado
como no começo de tudo.

Numeral

22

A intenção é o horizonte
mas a linha que se alcança
é a do papel, por mais
que force a vista, a mão.
No meio, porém, o mar não pára
tendo como pé-direito, o céu.


 

 
 
 
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