Reynaldo Valinho Alvarez: o poeta do Lavradio


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Reynaldo Valinho Alvarez, autor dos mais premiados de nossa história literária, é um poeta essencialmente urbano. Filho de pai espanhol e mãe portuguesa, é carioca da gema, nascido, em 6 de janeiro de 1931, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, portanto brasileiro, e por sua origem e pela temática de sua poesia, universal.

Fez o Primário na Escola Municipal Celestino da Silva, na Rua do Lavradio; cursou o Ginasial e o Clássico no Colégio Pedro II; graduou-se em Letras Clássicas pela Faculdade Nacional de Filosofia. É formado também em Direito, Economia e Administração. Trabalhou durante quarenta anos em várias áreas ligadas à comunicação, educação e cultura. Foi advogado, professor, consultor industrial, publicitário, cronista de rádio, dirigiu e fez roteiro de documentários. Colaborou em numerosos suplementos, jornais e revistas.

Escrevia contos aos oito anos e poemas aos treze. Publicou dezessete livros de poesia, no Brasil e no exterior, além de ficção, ensaio e literatura infanto-juvenil, no total de trinta e seis volumes. Participou de mais de três dezenas de obras coletivas desses mesmos gêneros. Tem poemas traduzidos para o sueco, italiano, espanhol, francês, corso, galego, persa e macedônio. O primeiro livro de poesia, e também premiada estréia literária, foi Cidade em grito, em 1973, que recebeu o Prêmio Olavo Bilac do Departamento de Cultura do Estado da Guanabara. Seguiram-se Canto em si e outros cantos (1979), O sol nas entranhas (1982), O continente e a ilha (1995), Galope do tempo (1997), A faca pelo fio (1999) e Lavradio (2004), entre outros.

Recebeu diversos prêmios: o Borges & Irmão (ficção, Portugal), o Camaiore (poesia, Itália), o Jabuti (poesia, Brasil), o Golfinho de Ouro do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro pelo conjunto da obra, além dos que lhe foram concedidos por entidades como a Academia Brasileira de Letras, Instituto Nacional do Livro, Biblioteca Nacional, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e muitos mais. Representou a poesia brasileira em festivais e encontros na Suécia, Macedônia, Espanha, Itália e no Canadá.

Em sua fortuna crítica encontramos incontáveis e fundamentados elogios ao seu fazer poético e domínio técnico. Alexei Bueno o aproxima, em alguns momentos, ao mineiro Drummond e ao pernambucano Manuel Bandeira; Benedito Nunes o compara ao paraibano Augusto dos Anjos, Ivan Junqueira a passagens de Eliot. Mas Reynaldo Valinho Alvarez não se vinculou a movimentos ou escolas; trabalha a herança literária injetando-lhe sangue novo, sem pertencer a qualquer linhagem. É um poeta de sua cidade, diferenciado, com características próprias, artesão de rara competência e artista no pleno sentido da palavra.

Augusto Sérgio Bastos

 

“(...) Valinho é, porém, mais do que um verse-maker brilhante, familiarizado com o mostruário das formas tradicionais, capaz de apropriar-se da herança clássica, dos cambiantes retóricos e do alegorismo da poesia barroca que sobrelevam em Canto em si, construídos como uma série de conjuntos estróficos em ordem crescente, no mesmo metro decassilábico dos sonetos, formando cada conjunto uma unidade diferenciada de expressão lírica. [...]

Essa maneira de sentir e de pensar (...) estabelece um vínculo surpreendente dessa parcela da obra do poeta carioca com a voz solitária, até agora sem precedentes, da poesia do paraibano Augusto dos Anjos (...) A morte antecipada, o desgaste do tempo (...) e o Nada, com que as coisas corrompidas acenam para Valinho, são antes os fantasmas de um mundo espedaçado, de um quotidiano residual, em contraste com a forma íntegra, sem fissura, do discurso poético.

(...) Tomando como eixo a oscilação entre som e sentido, de que falou Paul Valéry, a poesia de Reynaldo Valinho Alvarez absorve a herança moderna e defronta-se, também, com a tradição do novo.”

(NUNES, Benedito. Contracapa. In: ALVAREZ, Reynaldo Valinho.
A faca pelo fio: poemas reunidos. Rio de Janeiro: Imago: Biblioteca Nacional, 1999)

 

Um tempo de t(r)emores

no tempo em que as ruas eram arborizadas
as pessoas temiam as sombras da noite
era um tempo sem assaltos em que se temiam assaltos

hoje não há árvores nem sombras
mas lâmpadas de vapor de mercúrio e vapor de sódio

hoje as pessoas querem dormir e não podem
porque as lâmpadas são fortes
a luz é muita
e é muito e forte o medo da mão armada

estamos num tempos de pessoas que t(r)emem




O canto em si

Não busco outro caminho, cedo a calma
à angústia de lavrar no mesmo chão.

A pétrea consistência deste solo
não dissolve meu ânimo, enlouquece
o que dentro de mim mais alto grita.

Nesta lavoura, a mão é o instrumento
com que se abrir a terra e penetrá-la
para entregar-lhe o amor de uma semente
exposta ao tempo, a fungos e carunchos.

No arado não se pense, o chão se fecha
ao fio agudo e firme, assim a enxada
também se parte contra o solo duro
e apenas resta a ponta de meus dedos
para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.

A pá arranca o som ao solo rijo
e a nada mais que à concha, em cada mão,
suada, escalavrada e enegrecida,
feita de pele, carne, nervo e sangue,
cabem o esforço e a glória de lavrá-lo,
porto em que a terra é nau posta em abrigo.

A estas leiras, labrego, me transporto
a cada madrugada e delas volto
para comer, se existe, a cada noite,
o pão que elas não deram por ser bruto
o chão e fraca a mão que dele trata,
mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
é causa, muito mais que conseqüência.



A mochila

Carrego na mochila, entre outros trastes,
três ou quatro verdades importantes.
O resto é de mentiras. São contrastes
que entrego às outras partes contrastantes.
A lira não me vale. São desastres
o que encontro nos outros caminhantes.
Na terra devastada, erguem-se se hastes
das lanças e dos canos fumegantes.
A mochila me pesa. As três verdades
ou quatro, já não sei, não pesam tanto,
mude-se o tempo e mudem-se as vontades.
O que me dói ou pesa, ou o que é um espanto,

é que um modesto grama de inverdades
valha um tonel de torpe desencanto.



Os contratos

aonde quer que vás eles te seguem
e de chinelos velhos te perseguem

asmáticos raquíticos dipsômanos
lá vão eles roendo unhas e vísceras

arrumá-los nos féretros foi pouco
andam atrás é de deixar-te louco

recusam-se a morar em suas covas
pois desejam saber de coisas novas

sentas à beira do caminho e pensas
de que valeram todas as doenças
se não querem ficar em suas tumbas
e espalham no ar o odor das catacumbas

já não cabem os mortos nos baús
depressa há que chamar os urubus

entre eles e ti já não há tratos
estão quebrados todos os contratos.




Janeiros como rios
36

Da razão, não ostenta o aspecto grave,
ainda que as mãos, novo Pilatos, lave,
o líder dessa massa, o comandante
que lê do inferno a descrição de Dante,
mas se recusa a vê-lo à sua frente.
É tudo, no concreto, diferente.
Esse rei e pastor, que tudo aceita,
só da vida o cruel rosto rejeita,
como a intempérie que lhe estraga a festa.
A razão enlouquece em plena sesta
de fevereiro, x quando o sol suspende
a paz e, em cada corpo, a guerra acende.
A guerra está bem dentro e está de fora
Num cerco que se aperta hora a hora.

Dançar, como os pardais, no azul do espaço,
Para escapar à fúria que há no aço.



A faca pelo fio

Estou longe de mim. Sinto-me ausente,
pluma solta no tempo, sem presente
nem passado ou futuro, imponderável,
flexível, transparente, miserável
não-ser plantado no quintal do nada,
todo feito de nãos, ferido a cada
segundo gotejante de uma noite
que percute na mente como o açoite
de um carrasco embuçado. Quanto riso
provoca este jogral, sem brio ou siso
que o acorde do pesado sono obscuro
em que se deita o seu desejo impuro
de ir na contracorrente, ao arrepio,
como quem pega a faca pelo fio.


 

 
 
 
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