Qorpo-Santo:
um precursor do modernismo
(1829-1883)

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José Joaquim de Campos Leão, auto-apelidado Qorpo-Santo, nasceu em 19 de abril de 1829, na Vila do Triunfo, Rio Grande do Sul. Escolheu o pseudônimo aos 34 anos, quando acreditava estar imbuído de missão divina, passando a viver afastado das mulheres. Filho de Miguel José de Campos e Joaquina Maria do Nascimento. Com dez anos ficou órfão de pai, vítima de emboscada em razão de episódios que marcaram a Guerra dos Farrapos. A seguir, o jovem foi para Porto Alegre estudar e trabalhar no comércio.

Em 1850, habilitou-se pela primeira vez para o magistério público, passando a exercer o cargo de professor de primeiras letras. Logo adquiriu o grau de mestre. Fundou um grupo de teatro amador. Começou a escrever para jornais da província.

Casou-se, em 1855, com Inácia de Campos Leão, com quem teria quatro filhos. No ano seguinte, tomou posse na direção do Colégio São João, em Porto Alegre. Após um curto período, ameaçado por uma “moléstia do peito”, mudou-se para Alegrete, onde fundou o Colégio Alegretense. Nesta mesma cidade foi nomeado subdelegado de polícia e elegeu-se vereador.

Regressou a Porto Alegre, em 1861, onde assumiu, como professor público, uma cadeira na Freguesia de N. S. Madre de Deus. Um ano depois, vieram as primeiras manifestações da doença que levariam sua esposa a pedir a interdição judicial de seus bens. Na perícia, feita por dois médicos, houve divergência quanto ao diagnóstico final sobre sua insanidade mental. No entanto, foi nomeado um curador para receber os vencimentos a que fazia jus como professor licenciado, e o juiz de órfãos de Porto Alegre interditou os seus bens. Retornando a Triunfo, passou a escrever compulsivamente os textos que, mais tarde, fariam parte de sua obra Ensiqlopédia ou Seis Mezes de Huma Enfermidade, escrito desta forma em obediência à ortografia que o próprio autor inventara.

A luta contra o preconceito continuava. Em 1868, foi enviado ao Rio de Janeiro para realizar exames de sanidade mental. Internou-se no Hospital Pedro II. Após ter passado um mês no Hospício, Qorpo-Santo recebeu seu salvo-conduto das mãos do Dr. Torres Homem, então o maior especialista em clínica médica da Corte, que declarou gozar o paciente de boa saúde mental. Em junho, retornou a Porto Alegre, mas surgiram sérias complicações em seu processo judicial: seus bens foram novamente interditados. Fundou o jornal A Justiça, onde protestava veementemente contra a decisão da Justiça que o tornara inapto.

Em 1877, abriu sua própria tipografia e começou a preparar os nove volumes da Ensiqlopédia, contendo textos de poesia (537 poemas), teatro (17 comédias), prosa, relatos autobiográficos e artigos de jornal - todos marcados pelo registro satírico peculiar da literatura brasileira do século XIX, mas que nele adquiriu novos contornos em razão da subversão e do nonsense aplicados em seus textos. Os livros foram entregues a um amigo comerciante, permanecendo na biblioteca da família, até que foram vendidos para sebos e sumiram. Atualmente são conhecidos apenas seis dos nove volumes, impressos, talvez, em cópias únicas. A publicação de sua obra poética foi feita somente em 2000, pela Contra Capa Livraria, com o título Poemas, organização de Denise Espírito Santo.

Qorpo-Santo morreu de tuberculose no dia 2 de maio de 1883, em Porto Alegre.

Augusto Sérgio Bastos
23/04/2007

“Se nos fosse dado conhecer o sentido de algumas obras que nasceram do descompasso entre o autor e seu tempo, obras que, remando contra a maré, afastaram-se das diretrizes predominantes do ambiente literário a que pertenciam, provavelmente os textos do gaúcho Qorpo-Santo mereceriam destaque em uma vertente “fora do esquadro”, que desde a poesia picaresca de Gregório de Matos fornece dados para a formação de uma tradição caracterizada pelas vias da negatividade e da desconstrução, ganhando registro em alguns autores responsáveis pela renovação da escrita literária brasileira em momentos distintos da sua formação. Como fonte privilegiada para o estabelecimento de uma dicção poética na contramão dos cânones oficiais da literatura, os gêneros cômicos e, em especial, o nonsense forneceriam o suporte para uma composição de verso livre que, no fundo, procurava subverter as formas discursivas dominantes e numa etapa posterior, propiciariam o aparecimento de obras paradigmáticas do novo perfil de modernidade que o país necessitava conquistar. [...]
Alguns desses procedimentos antecipariam, de forma ainda embrionária, as experiências mais radicais dos poetas modernistas brasileiros como, por exemplo, a escrita automática, o verso livre, as revelações do inconsciente e as combinações e colagens de fragmentos textuais dissonantes, experiências essas que ficaram para sempre associadas aos artistas dos movimentos dadaísta e surrealista. No caso brasileiro, esses elementos constituiriam uma vertente do desvio, confirmando, dentre outras coisas, algumas das fontes de pesquisa e investigação poética presentes em autores como Oswald de Andrade.”

(Denise Espírito Santo. “A poesia nonsense de Qorpo-Santo”. In: Qorpo-Santo. Poemas. Organização de Denise Espírito Santo. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000)

 

 

Aranhas


Tão lindas as aranhas
Tão belas, tão ternas
Pois caem do teto
E não quebram as pernas!


C.Q

Se querem que viva o – C
Façam soar sempre – Cê:
Nunca dêem-lhe o de – Q;
Não roube o C ao Q.

Ou,

Querem que viva o – C?
Não soe jamais – Q!
Que ele soe sempre – C;
Não roube o C ao Q!



Cântico de um inocente

(fragmento)

Fora com os doutores
- Que só querem favores,
Para si e seus parentes,
Filhos e aderentes!

Fora com os doutores
Que não tratam de curar
(Que só tratam de ganhar!)
Geral necessidade!

Fora com os doutores
Que leis só buscam forjar,
Para se locupletar
Com os do povo suores!

Fora com os doutores – senhores,
Que embolsam dinheiros públicos,
Meras asneiras, entulhos,
Mais parecem – que doutores!


Relação natural


Derribada c´o vento – de pedras cerca,
De tantos humanos – semelhantemente,
Como delas, talvez fosse – igual perca!...
Saber tão grande – não me é dado à mente!
Relacionado tudo – como está,
Sem que saibamos – forma misteriosa,
A nós homens – só admirar compete:
À Natureza –só variar – agrada!


Rogativa

Os ventos levem
Ao mundo inteiro,
– Versos que saem
Do meu tinteiro!

As brisas tragam
Para o meu tinteiro,
– Versos que correm
No mundo inteiro!

 
 
 
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