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Afonso
Felix de Sousa: um poeta aos
pés de Deus
(1925-2002)
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Afonso Felix de Sousa
nasceu em 5 de julho de
1925, em Jaraguá,
Goiás. Filho de
Raul Felix de Sousa, então
comerciante, depois funcionário
público estadual,
e de Francisca Amorim
Felix de Sousa.
Aos sete anos de idade
iniciou os estudos no
grupo escolar de sua cidade
natal. Aos nove se mudou
para Pires do Rio, Goiás,
onde seu pai foi exercer
o cargo de agente fiscal
de rendas estaduais. Em
1938, por motivo de doença,
interrompeu os estudos
por dois anos. Em 1942,
publicou os primeiros
poemas no jornal Voz
Juvenil do Ginásio
Anchieta, da cidade de
Silvânia, onde estudava.
No ano seguinte, mudou-se
para Goiânia, onde
iniciou sua atividade
literária colaborando
em jornais como O
Popular e a Folha
de Goiaz e na revista
Oeste. Em 1944,
matriculou-se no curso
de Comércio e Contabilidade
do Ateneu Dom Bosco e
ingressou, por concurso,
no quadro de funcionários
do Banco do Brasil.
Com outros escritores
goianos fundou, em 1946,
a Associação
Brasileira de Escritores
- Seção
de Goiás e a revista
literária Agora.
Um ano depois, transferido
para a Direção
Geral do Banco do Brasil,
mudou-se para o Rio de
Janeiro e se incorporou
ao grupo de novos escritores
surgidos após a
Segunda Guerra Mundial,
passando a colaborar nos
suplementos literários
de diversos jornais cariocas
como Correio da Manhã,
Diário de Notícias,
Diário Carioca
e revistas Leitura
e Orfeu.
Foi contemplado, em 1953,
com bolsa de estudos para
um curso de especialização
em Economia na École
Pratique des Hautes Études,
da Sorbonne, em Paris.
Dois anos depois, terminado
o curso, retornou ao Brasil.
Em 1959, casou-se com
a poeta Astrid Cabral,
com quem teria cinco filhos.
Mudou-se para Brasília
em 1962. Designado, em
1970, pelo Ministério
das Relações
Exteriores e pelo Banco
do Brasil, serviu como
assistente de promoção
comercial na Embaixada
Brasileira em Beirute
por dois anos e meio,
regressando ao fim da
missão para o Rio
de Janeiro.
Em 1975, aposentou-se
no Banco do Brasil, onde
trabalhou por muitos anos
nos setores de câmbio
e comércio exterior.
Passou a residir em Chicago
a partir de 1986. Lá,
sua mulher, funcionária
do Itamaraty, serviu no
Consulado do Brasil. Nos
Estados Unidos, o poeta
dedicou-se a traduções,
fez palestras e conferências
sobre literatura brasileira.
Em 1991, retornou em definitivo
ao Brasil.
A estréia em livro
foi com O túnel,
coletânea de poemas
editada pela revista Orfeu,
em 1948. A sua obra poética
prosseguiu com Do
sonho e da esfinge,
O amoroso e a terra,
Memorial do errante,
Íntima parábola,
Álbum do Rio, Antologia
poética (em
1966), Pretérito
imperfeito (reunião
dos livros anteriores),
Chão básico
& itinerário
leste, Antologia poética
(em 1979, comemorativa
dos 30 anos de poesia
do autor), As engrenagens
do belo, Qüinquagésima
hora & horas anteriores,
À beira do teu
corpo, Nova antologia
poética (em
1991, coletânea
temática), Sonetos
aos pés de Deus
e outros poemas e
a poesia reunida, editada
pela Record, em 2001,
Chamados e escolhidos.
Em paralelo, publicou
os poemas dramáticos:
Caminho de Belém
e Rio das almas.
Seus poemas figuram em
diversas antologias no
Brasil e em outros países.
Foi também excelente
tradutor, tendo vertido
para nossa língua
obras de Giacomo Leopardi,
Tirso de Molina, John
Donne, François
Villon, Federico García
Lorca, Michel Hoist e
Angela Carter. Em prosa
lançou Hugo
de Carvalho Ramos: trechos
escolhidos, Do ouro
ao urânio (crônicas)
e Máximas e
mínimas do Barão
de Itararé (organização).
Recebeu vários
prêmios literários,
entre eles o Olavo Bilac,
do Departamento de Cultura
do ex-Distrito Federal,
1957; o Álvares
de Azevedo, da Academia
Paulista de Letras, 1961;
o “Tiocô”,
da UBE-Goiás, 1979;
o Nacional de Poesia,
do Pen Club do Brasil,
1982; o Troféu
Jaburu, destinado às
personalidades culturais
do ano, do Conselho Estadual
de Cultura de Goiás,
1990; o Prêmio de
Literatura do Conselho
Municipal de Cultura de
Goiânia, 2000; o
Prêmio Nacional
de Poesia da Academia
Brasileira de Letras,
2002. Em 1991, foi agraciado
com o Diploma de Mérito
de Goianidade, da Associação
Goiana de Imprensa.
Afonso Felix de Sousa
morreu no dia 7 de setembro
de 2002, no Rio de Janeiro.
Augusto
Sérgio Bastos
“‘Aqui
estou, um pássaro
exilado’ é
o primeiro verso do primeiro
poema do primeiro livro
de Afonso Felix de Sousa
e já sinaliza,
de certa forma, as três
grandes direções
que sua poesia iria perseguir.
De um lado o ‘estar
aqui’ sublinha o
pertencimento a um espaço;
de outro o ‘pássaro’
é símbolo
e repositório imemorial
do lirismo; finalmente
o ‘exílio’
aponta a perda ou a fratura
de uma unidade primordial,
que apenas a fé
na transcendência
promete recompor. Telúrica,
lírica e mística
– assim é
a poesia de Afonso Felix
de Sousa. A terra, a mulher
e o divino formam o eixo
em torno do qual gira
a criação
de Afonso.”
(Antonio
Carlos Secchin.
“A poesia de Afonso
Felix de Sousa”.
In: Antonio Carlos Secchin.
Escritos sobre poesia
& alguma ficção.
Rio de Janeiro: EdUERJ,
2003)
“O poeta Afonso
Felix de Sousa concebeu
o seu mais belo e profundo
livro, ao escrever este
À beira do
teu corpo, conversa
humilde de um pai com
seu filho morto na plenitude
do destino. ‘E exultarão
os ossos humilhados’,
como diz o salmo cinqüenta.
‘Et exultabunt ossa
humilliata.’ Os
ossos exultarão.
‘Ó morte,
onde está a tua
vitória?’
A morte se transforma
em beleza.”
(Antonio
Carlos Villaça.
“A morte como plenitude”
[Orelha]. In: Afonso Felix
de Sousa. À
beira de teu corpo.
Rio de Janeiro: José
Olympio, 1990) |
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Soneto
aos pés de Deus e outros
poemas
III
Já tive as mãos
chagadas de descrença.
Prostrava-me ante Deus, mas
sem senti-lo.
Orava tendo em mente só
aquilo
a que aspirava como recompensa.
Orava, e tinha
a prece força imensa.
Orava, e aos pés de Deus
achava asilo.
Orava, ora em voz alta, ora
em sigilo,
e sem ver Deus sentia-lhe a
presença.
Orava, e mais
que a graça que eu pedia
outras graças a mais
que eu recebia,
por ter pedido a ti, por ter
orado.
Se tantas são
as graças que despejas,
por tudo o que me dás
louvado sejas,
por tudo o que não dás
sejas louvado.

À beira do teu
corpo
I
À beira
de teu corpo eu busco, e alcanço-a,
e agarrro-a,
a mão que, de onde estás,
já não me estendes,
a mão
que em criança, com toda
a confiança, me estendias.
E então,
de mãos dadas, saíamos
pelo mundo
com que te deslumbravas e eu
ia aos poucos
tentando explicar, a ti que
o contemplavas
com os olhos arregalados, e
o colorias
a teu modo, com tintas próprias,
e te soltavas
de mim, e nele mergulhavas,
e dele me estendias
de novo a mão como se
quisesses conduzir-me
para o avesso de mim, ou para
a fuga
de um mundo que nos deslumbra
e se desdobra
em paisagens de dor, quando
explicado.

40
Já vais!
Em pouco
o chão te cobrirá,
vais desgarrado.
De novo
eu busco
e agarro
a tua mão
– mas pedem-me
que a solte.
Já fecham
o teu esquife
e agora não vou te ver
mais nunca...
E agora
agarro
e domo
é essa noite
em que mergulhas
e em mim
te ressuscito
e estreito-te
nos braços
mesmo sabendo
que, ao estreitar-te
como se a ver-te
num sonho,
o que eu abraço
é o vazio,
o vazio.

Relógio da família
Ê-vem como quem diz –
E agora? E agora? –
desde as brumas do século
passado
até este momento –
agora, agora.
E ele enche o espaço,
e a casa e os seus espaços
com secos tiquetaques e indiscretas
batidas, que vai dando e repetindo
– E agora? Agora. E agora?
– Agoroutrora
ê-vem meu bisavô,
ele ê-vem vindo
de entre a poeira erguida de
uma tropa
no sertão de Goiás,
e ele é quem manda
que desçam três
caixotes: num o pêndulo,
noutro os dois pesos, noutro
o maquinismo
e esse pavão dourado,
que lá do alto
da parede da sala de estar-sendo
pôs-se a chocar o estar
de uma família.
E ê-vem testemunhando
nascimentos,
mortes, conversas, choradeiras,
risos,
gestos de adeus dos que depois
voltaram,
gestos de adeus dos que não
mais voltaram.
E do alto da parede, lança
a sombra
do que já terá
visto, e é já
coberto
pelo bolor, ou já feito
em serragem
pelos gumes do tempo –
E agora? Agora
lá vai meu bisavô,
vai para sempre...
e meu avô ê-vem,
ele olha as horas,
toma café, acende um
pito, e em antes
de ir cuidar dos negócios,
ele sobe
num tamborete e cuida do relógio
como a cuidar de um filho, e
lhe dá corda
a fim de que não pare.
E um dia pára
o coração de meu
avô – E agora?
Pois lá vai meu avô,
vai para sempre...
E ê-vem meu pai, e à
sombra do relógio
ele me explica tudo: esse mistério
de algarismos romanos, e o do
tempo
que vai passando enquanto, enquanto
– E agora?
Lá vai meu pai, vai para
sempre... E agora
olho o relógio, e ele
me vê do alto
da parede da sala onde estou
sendo
– E agora?...

Visita
ao túmulo de Machado
de Assis
Aqui venho e virei. À
beira
de teu túmulo uma fiandeira
como que me entrega, tecida,
tenuíssima teia –
e da vida
mais clara aceitação
eu posso
ter, pois do que é teu,
meu, e nosso,
por ser um comum atributo,
extraio o que há de seiva
e fruto,
e dou, como alimento, à
alma,
que come, espanta-se, e se acalma.
Não lhe trago flores,
ó mestre,
nem hinos minha voz campestre
é capaz de erguer a teu
nome.
No entanto, mataste-me a fome
da alma, ao me deslindar a estranha
teia de almas que me acompanha.
No entanto, sem sequer pintá-la,
tua voz é que melhor
fala
desta cidade onde, por obra
e graça da sorte, soçobra,
e vai existindo, e repousa –
rá o Afonso Felix de
Sousa.
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