JORGE WANDERLEY: um agente infiltrado
(1938-1999)

 

 

Clara pintando


O espaço que se cria
entre você e o quadro
fica mais denso nas interrupções:
quando você se afasta,
olha para ele sem qualquer
expressão identificável no rosto
e pára
como se tornada em cera
num mundo imóvel que espera
por seu veredito;
não
se ouve nenhum zumbido de tuas máquinas
nem do mundo: motores parados.
No quadro, as pessoas
esperam até que você
– sem qualquer aviso ou sinal –
retorna até elas e aí
o barulho que fazem, elas,
o mundo e você
é realmente uma grande algazarra
e tudo começa a se mexer novamente.


Santa barroca

Dobras, no manto, que não podiam
caber na madeira: parecem
folhas de papel vivendo audaciosas
idéias do vento.
Ela parece louça, no rosto,
parece água, nos olhos,
em cima de sua nuvem perfeita
com o filho perfeito no colo
no mundo perfeito.
Pode ser oca
para se esconder nela dinheiro safado
mas isso não importa: penso
é naquele camarada de faquinha na mão
– ou cinzel, lâmina e ponta –
dissecando a madeira, até
achar a madeira que havia dentro
da madeira, a dobra
tão impossível, que até oscila ao vento
onde a nuvem anda.
Principalmente, falar cada vez mais baixo,
até que apenas entendam o movimento
dos meus lábios mágicos
e certas palavras
– mais curtas –
leiam na minha pupila.

Lear

Meu receio é nenhum e é imenso,
nenhum reino doei às minhas filhas,
nem reino tive
e não teria filhas se reinasse:
teria vinhos ácidos na mesa
e um cão feroz que um dia me matasse
para galgar a minha realeza.


Epitáfio

Chegar já foi a partida
De onde estive até nascer.
Viver só custou a vida.
Não custa nada morrer.



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JORGE WANDERLEY: um agente infiltrado
(1938-1999)

Jorge Eduardo Figueiredo de Oliveira Wanderley nasceu no Recife (PE), em 21 de janeiro de 1938, onde se formou em Medicina (1962), seguindo a carreira do pai e do avô, e também em Letras (1975). Veio para o Rio em 1976, concluindo mestrado e doutorado em Letras na PUC. Nesta universidade e na UFF foi professor de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura nos anos 1980.

Escreveu poesia desde os 16 anos e, embora durante um largo período de sua vida tenha exercido a profissão de médico, como neurocirurgião, nunca abandonou aquele primeiro chamamento. Seu livro inaugural, Gesta e poemas anteriores, foi publicado pelo Gráfico Amador do Recife, em 1960, e só 13 anos depois publicou o segundo, Adiamentos – poemas, e em 1974, uma pequena seleta: Microantologia, também em Recife. Já no Rio de Janeiro, lançou Coração à parte (1979), poemas escritos após um enfarte, aos 41 anos. Seguiram-se A foto fatal (1986); Anjo novo (1987); Homenagem. Dez sonetos (1992); Manias de agora (1995); O agente infiltrado (1999), o último livro publicado em vida.

Aos 14 anos lia francês, inglês e espanhol, depois o italiano. Esta facilidade fez com que desenvolvesse, em paralelo a sua obra de poeta, uma reconhecida e premiada carreira como tradutor de poesia: O cemitério marinho, de Valéry (1974); Vida nova/Vita nuova – Os poemas, de Dante Alighieri (1988) e a Lírica do mesmo autor (1996); Sonetos (1991) e Rei Lear (1992), de Shakespeare; Antologia da nova poesia Norte-Americana (1992); 22 Ingleses modernos: uma antologia poética (1993); Borges poeta (1992); Poemas, de Lawrence Durrel (1995); e várias peças para teatro: Na Vila da Vitória, de José de Anchieta; Noite de Reis, de Shakespeare; O vendedor de velas (II Candelaio), de Giordano Bruno. Publicou ainda um livro de ensaios, Arquivo/Ensaio (1993), e textos diversos, em livros e periódicos. Ao falecer, deixou traduzidos os 25 melhores poemas de Bukowski, selecionados por ele e editados em 2003, e a tradução, com notas, do “Inferno”, de Dante, publicado em 2004, não completando, entretanto, o seu projeto de traduzir toda a Divina comédia. Deixou inéditos vários poemas, a que chamou de “Poemas para 2000”, e um romance não concluído. Sua Antologia de poemas, organizada por sua mulher, a escritora e poeta Márcia Cavendish Wanderley, foi editada postumamente em 2001.

Foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na UERJ até sua morte, em 12 de dezembro de 1999, no Recife.

Augusto Sérgio Bastos

“Pessoalidade – Mas, na verdade, apesar da variedade, há em seus poemas um ar de intensa pessoalidade nesse conjunto [O agente infiltrado], que não nos lembra propriamente a dispersão temática. Há, por exemplo, uma recorrência freqüente, que nos dá nessa poética uma tônica fundamental que é, nela, um jogo inter-referencial. Pois naquilo que Jorge identificava muitas vezes, externando tantas vezes as suas opiniões, a presença da influência crítica do que chamava o pós-moderno na arte e na poesia, poderíamos denominar de transpoético na sua dicção, que provocava, dentro desse jogo intensamente subjetivo, de teor aparentemente ultra-emocional, um curioso distanciamento crítico no conjunto de sua poética.

Então o repertório dessas referências se constituía, em geral, de uma série quase à parte mais de interferências do que propriamente de apenas referências críticas. Era como se, várias vezes, o tom ‘alto’ dessa poética fosse ‘embaralhado’ pelo tom ‘baixo’. Como na metáfora daquele sujeito evasivo que, num dos poemas inicias do conjunto, se afasta de um grupo de tom ‘baixo’, nada ‘nobre’ ou ‘estético-sério’ (cf. Edmund Wilson). Então, talvez se consiga identificar, nessa metáfora geral do título, O agente infiltrado, a presença insidiosa de qualquer interferência estranha, inclusive a crítica ou qualquer ‘doença’ estética, e até a metáfora final da morte, exagerando-se a intrusão.”

(Sebastião Uchoa Leite. “Um réquiem em forma de antologia”.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 jan. 2002. Caderno Idéias.)

 

 
 
 
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