| JORGE
WANDERLEY: um agente infiltrado
(1938-1999)
Jorge Eduardo
Figueiredo de Oliveira Wanderley nasceu
no Recife (PE), em 21 de janeiro de
1938, onde se formou em Medicina (1962),
seguindo a carreira do pai e do avô,
e também em Letras (1975).
Veio para o Rio em 1976, concluindo
mestrado e doutorado em Letras na
PUC. Nesta universidade e na UFF foi
professor de Literatura Brasileira
e Teoria da Literatura nos anos 1980.
Escreveu
poesia desde os 16 anos e, embora
durante um largo período de
sua vida tenha exercido a profissão
de médico, como neurocirurgião,
nunca abandonou aquele primeiro chamamento.
Seu livro inaugural, Gesta e poemas
anteriores, foi publicado pelo Gráfico
Amador do Recife, em 1960, e só
13 anos depois publicou o segundo,
Adiamentos – poemas, e em 1974,
uma pequena seleta: Microantologia,
também em Recife. Já
no Rio de Janeiro, lançou Coração
à parte (1979), poemas escritos
após um enfarte, aos 41 anos.
Seguiram-se A foto fatal (1986); Anjo
novo (1987); Homenagem. Dez sonetos
(1992); Manias de agora (1995); O
agente infiltrado (1999), o último
livro publicado em vida.
Aos 14
anos lia francês, inglês
e espanhol, depois o italiano. Esta
facilidade fez com que desenvolvesse,
em paralelo a sua obra de poeta, uma
reconhecida e premiada carreira como
tradutor de poesia: O cemitério
marinho, de Valéry (1974);
Vida nova/Vita nuova – Os poemas,
de Dante Alighieri (1988) e a Lírica
do mesmo autor (1996); Sonetos (1991)
e Rei Lear (1992), de Shakespeare;
Antologia da nova poesia Norte-Americana
(1992); 22 Ingleses modernos: uma
antologia poética (1993); Borges
poeta (1992); Poemas, de Lawrence
Durrel (1995); e várias peças
para teatro: Na Vila da Vitória,
de José de Anchieta; Noite
de Reis, de Shakespeare; O vendedor
de velas (II Candelaio), de Giordano
Bruno. Publicou ainda um livro de
ensaios, Arquivo/Ensaio (1993), e
textos diversos, em livros e periódicos.
Ao falecer, deixou traduzidos os 25
melhores poemas de Bukowski, selecionados
por ele e editados em 2003, e a tradução,
com notas, do “Inferno”,
de Dante, publicado em 2004, não
completando, entretanto, o seu projeto
de traduzir toda a Divina comédia.
Deixou inéditos vários
poemas, a que chamou de “Poemas
para 2000”, e um romance não
concluído. Sua Antologia de
poemas, organizada por sua mulher,
a escritora e poeta Márcia
Cavendish Wanderley, foi editada postumamente
em 2001.
Foi professor
de Teoria da Literatura e Literatura
Brasileira na UERJ até sua
morte, em 12 de dezembro de 1999,
no Recife.
Augusto
Sérgio Bastos
“Pessoalidade
– Mas, na verdade, apesar da
variedade, há em seus poemas
um ar de intensa pessoalidade nesse
conjunto [O agente infiltrado],
que não nos lembra propriamente
a dispersão temática.
Há, por exemplo, uma recorrência
freqüente, que nos dá
nessa poética uma tônica
fundamental que é, nela, um
jogo inter-referencial. Pois naquilo
que Jorge identificava muitas vezes,
externando tantas vezes as suas opiniões,
a presença da influência
crítica do que chamava o pós-moderno
na arte e na poesia, poderíamos
denominar de transpoético na
sua dicção, que provocava,
dentro desse jogo intensamente subjetivo,
de teor aparentemente ultra-emocional,
um curioso distanciamento crítico
no conjunto de sua poética.
Então
o repertório dessas referências
se constituía, em geral, de
uma série quase à parte
mais de interferências do que
propriamente de apenas referências
críticas. Era como se, várias
vezes, o tom ‘alto’ dessa
poética fosse ‘embaralhado’
pelo tom ‘baixo’. Como
na metáfora daquele sujeito
evasivo que, num dos poemas inicias
do conjunto, se afasta de um grupo
de tom ‘baixo’, nada ‘nobre’
ou ‘estético-sério’
(cf. Edmund Wilson). Então,
talvez se consiga identificar, nessa
metáfora geral do título,
O agente infiltrado, a presença
insidiosa de qualquer interferência
estranha, inclusive a crítica
ou qualquer ‘doença’
estética, e até a metáfora
final da morte, exagerando-se a intrusão.”
(Sebastião
Uchoa Leite. “Um réquiem
em forma de antologia”.
Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro, 26 jan. 2002. Caderno Idéias.)
|