ÁLVARES DE AZEVEDO: um poeta ultra-romântico
(1831-1852)


Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n´alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia da glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!

Lembrança de morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poente caminheiro
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh´alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Se levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe! Pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me imunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! E de esperança!
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
– Foi poeta – sonhou – e amou na vida. –

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh´alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d´aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

Namoro a cavalo

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado,
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.

Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia – em casamento...

Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas minha bela,
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...


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Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em 12 de setembro de 1831, na cidade de São Paulo (SP). Era o segundo filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo, quintanista da Faculdade de Direito, e de D. Maria Luísa Carlota Silveira da Mota Azevedo.

Seu pai bacharelou-se em 1833 e nesse mesmo ano mudou-se com a família para o Rio. Auditor de guerra, juiz de Direito em Niterói, chefe de Polícia da Corte, deputado geral pela Província do Rio de Janeiro, entregou-se depois à advocacia, a que se consagrou até o final de sua vida.

Álvares de Azevedo, bem cedo, sofreu o impacto da morte. Em 1835, morreu o irmão menor, o que o abalou profundamente. Maneco – apelido familiar do nosso poeta – era um menino franzino, inspirando cuidados, embora alegre e amigo de brincar. Aos seis anos foi matriculado num colégio em Niterói, onde o declararam incapaz de aprendizagem. De 1840 a 1844 cursou o colégio do Prof. Stoll, conceituado educandário, onde se destacou, sendo considerado o melhor e o primeiro aluno em tudo, exceto ginástica. Nos três anos seguintes, estudou no internato do Colégio Pedro II, bacharelando-se em Letras, sob a tutela de grandes mestres. Ali teve a oportunidade de aprender filosofia com Gonçalves de Magalhães, o poeta de Suspiros poéticos e saudades, considerado o livro inaugural do Romantismo no Brasil. Nesse período teve problemas disciplinares, devido ao gênio folgazão, que o levava a caricaturar mestres e bedéis, sofrendo diversos castigos.

Em 1848, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde permaneceu até 1851, sem concluir o curso devido à tuberculose pulmonar que o acometia. Lá conviveu com Bernardo Guimarães, José Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e José de Alencar, entre outros. Participou de várias atividades acadêmicas e associações culturais, colaborando nas publicações; fundou a Associação do Ensaio Filosófico Paulistano; manteve-se alheio às estudantadas e extravagâncias “românticas”. Estudou e leu muito. Foi nessa época que escreveu quase toda a sua obra.

No final de 1851 foi para Itaboraí, a fim de cuidar melhor da saúde. Já o assaltara o pressentimento da morte. Planejava terminar os estudos em Recife, pois sentia que morreria em São Paulo. Em 10 de março, ao voltar de um passeio a cavalo, sofreu um acidente ao cair do animal, cuja conseqüência foi um tumor na fossa ilíaca. Operado, obteve uma pequena melhoria, mas a tuberculose se agravou. O poeta morreu às cinco horas da tarde do dia 25 de abril de 1852, na cidade do Rio de Janeiro.

Toda a obra de Álvares de Azevedo é de publicação póstuma. Em 1853, foi editado seu primeiro livro (Poesias), contendo Lira dos vinte anos, única obra cuja edição o poeta preparara, e Poesias diversas. Seguiram-se reedições sucessivas e ampliadas, que foram incorporando os seguintes títulos: O poema do frade (poesia), O conde Lopo (poesia), Macário (peça de teatro), Noite na taverna (contos), Livro de Fra Gondicário (poesia), Discursos e Cartas.

Augusto Sérgio Bastos


“É inegável o valor absoluto de Gonçalves Dias e o sentido retórico de Castro Alves, mas também é admirável o gênio criador e modernizador de Álvares de Azevedo. Isso de se dizer que ele não soube ser ‘nacionalista’ é coisa de crítico nacionalista e não de estudioso de poesia.

[...] Mais do que qualquer outro poeta romântico brasileiro, soube explorar a alegria ingênua, mas genial, de se brincar com os temas, de se jogar com a linguagem, como em ‘O poema do frade’, onde Castro Alves buscou muitas das suas imagens e onde se lê que ‘A crítica é uma bela desgraçada / Que nada cria e jamais criara; / Tem entranhas de areia regelada; / É a esposa de Abraão, a pobre Sara / Que nunca foi por Anjo fecundada’.

[...] É este sentido de humor, que identifico com a alegria jovial do poeta, que destrói um pouco o mito crítico de que a sua poesia é da ordem do pessimismo, da tristeza, da falta de esperança, do negativo. Vivendo tão pouco, não tendo tempo nem de organizar logicamente a sua obra e os seus livros, o que escreveu tem mesmo o timbre de uma dupla força criadora: de um lado, a capacidade de ler como ninguém nesse curto tempo e aprender o sentido retórico do poema (coisa que falta aos jovens poetas da atualidade). E, de outro, a flama intuitiva e inspiradora que o levou a acreditar na poesia como algo acima de tudo, que lhe dava resistência e a alegria mais funda e maior de viver e de ousar brincar com a morte, como em ‘O poeta moribundo’, da série de ‘Spleen e charutos’: ‘Coração, por que tremes? Vejo a morte, / Ali vem lazarenta e desdentada... / Que noiva!... E devo então dormir com ela?... / Se ela ao menos dormisse mascarada!’’’.


(Gilberto Mendonça Teles. “Vinte e um anos incompletos”.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7 de abril de 2001. Caderno Idéias)


 

 
 
 
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