João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)

 

 

Morte e vida Severina
(fragmento)

(...) Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia (...)


 

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
Amanhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

Pedem-me um poema
(fragmento - inédito em livro)

Pedem-me um poema,
um poema que seja inédito,
poema é coisa que se faz vendo,
como imaginar Picasso cego?

Um poema se faz vendo,
um poema se faz para a vista,
como fazer o poema ditado
sem vê-lo na folha escrito?

Poema é composição,
mesmo da coisa vivida,
um poema é o que se arruma,
dentro da desarrumada vida. (...)

Paisagem pelo telefone
(fragmento)


(...) Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

Alguns toureiros
(fragmento)

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luis, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa (...)

Mas eu vi Manuel Rodriguez
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto, (...)

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria, (...)

sim, eu vi Manuel Rodriguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

 

.

 


João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife, em 9 de janeiro de 1920. Família de pernambucanos, primo do poeta Manuel Bandeira e do escritor Gilberto Freyre, passou a infância no interior de Pernambuco e estudou no Colégio dos Irmãos Maristas, na capital, onde concluiu o secundário, aos quinze anos. Nessa época era um entusiasta do futebol, atuando com a camisa número cinco, na posição de center half, foi campeão juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube.

Em 1942, lançou seu primeiro livro de poemas, Pedra do sono, em edição custeada por ele mesmo e tiragem de 340 exemplares. Depois de uma incursão no poema em prosa (Os três mal-amados), João Cabral voltou ao verso em 1945 com o livro O engenheiro. Nesse mesmo ano ingressou na carreira diplomática, onde se aposentou, 45 anos depois, como embaixador. Em 1946, casou-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira, neta de Rui Barbosa. O seu padrinho de casamento foi o amigo Carlos Drummond de Andrade.

Os diferentes lugares em que serviu Barcelona, Londres, Marselha, Madri, Sevilha, Genebra, Berna, Assunção, Dacar, Quito, Tegucigalpa e Porto são descritos em vários de seus poemas, destacando-se, no entanto, a Espanha como a terra estrangeira com que o poeta estabeleceu vínculos mais fecundos. Três de seus livros foram impressos nesse país: Psicologia da composição, O cão sem plumas e Dois parlamentos.

Seu texto de maior êxito popular é Morte e vida severina (1955), já traduzido para vários idiomas. Levado à cena pelo grupo TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), com música de Chico Buarque, conquistou o primeiro prêmio do Festival Universitário de Nancy, na França, em 1966. Da sua vasta bibliografia constam ainda O rio, Duas águas, A educação pela pedra e Obra completa, entre outros.

Recebeu importantes prêmios: José de Anchieta (instituído pela Comissão do IV Centenário de São Paulo), Olavo Bilac (da Academia Brasileira de Letras), Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, do Pen Club, do Instituto Nacional do Livro, O Estado de São Paulo (100 mil dólares do governo paulista), Neustadt (40 mil dólares da Universidade de Oklahoma), entre outros.

Em 1968 foi eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras.

Em 1986 ficou viúvo e nesse mesmo ano casou-se com a poeta Marly de Oliveira.

João Cabral morreu em 9 de outubro de 1999, na cidade do Rio de Janeiro.

Augusto Sérgio Bastos


“Não apenas descobridor. Nosso Cabral é um inventor de mundos. E nada acontece por acaso (como dizem que foi o caso de Pedro Álvares).

Arquiteto de palavras _ que recria numa linguagem tão propriamente dele _ João Cabral sempre acrescenta alguma coisa de não-visto, de não-lido antes, em cada produção com que enriquece a literatura.

A obra de João Cabral de Melo Neto é hoje de circulação planetária. Tornou-se patrimônio universal, através das traduções para os principais idiomas, em todas as partes do mundo. Por outro lado, estamos falando de um dos autores de mais forte influência (nem sempre bem digerida, é verdade) sobre jovens poetas de língua portuguesa, no Brasil e além.

A mensagem _ se quiserem _ estará sempre presente. Mas todos sabemos (e gosto de repetir) que a literatura não depende da política. Poesia comprometida, sim, a de João Cabral de Melo Neto. Mas antes de tudo (dentro da exigência sartriana) poesia.”

(COUTINHO, Edilberto. Cabral, o poeta descobridor.
In: João Cabral de Melo Neto. Auto do Frade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984)




 

 
 
 
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