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Morte e vida Severina
(fragmento)
(...) Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia (...)
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Tecendo a manhã
Um galo sozinho não
tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia
tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela,
entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
Amanhã, toldo de um tecido tão
aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
Catar feijão
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do
alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar
nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um
risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar
dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão
mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a
com o risco.
Pedem-me um poema
(fragmento - inédito em livro)
Pedem-me um poema,
um poema que seja inédito,
poema é coisa que se faz vendo,
como imaginar Picasso cego?
Um poema se faz vendo,
um poema se faz para a vista,
como fazer o poema ditado
sem vê-lo na folha escrito?
Poema é composição,
mesmo da coisa vivida,
um poema é o que se arruma,
dentro da desarrumada vida. (...)
Paisagem pelo telefone
(fragmento)
(...) Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais
clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
Alguns toureiros
(fragmento)
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luis, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa (...)
Mas eu vi Manuel Rodriguez
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto, (...)
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
(...)
sim, eu vi Manuel Rodriguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
.
João Cabral de Melo Neto nasceu
em Recife, em 9 de janeiro de 1920.
Família de pernambucanos, primo
do poeta Manuel Bandeira e do escritor
Gilberto Freyre, passou a infância
no interior de Pernambuco e estudou
no Colégio dos Irmãos
Maristas, na capital, onde concluiu
o secundário, aos quinze anos.
Nessa época era um entusiasta
do futebol, atuando com a camisa número
cinco, na posição de
center half, foi campeão
juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube.
Em 1942, lançou
seu primeiro livro de poemas, Pedra
do sono, em edição
custeada por ele mesmo e tiragem de
340 exemplares. Depois de uma incursão
no poema em prosa (Os três mal-amados),
João Cabral voltou ao verso
em 1945 com o livro O engenheiro.
Nesse mesmo ano ingressou na carreira
diplomática, onde se aposentou,
45 anos depois, como embaixador. Em
1946, casou-se com Stella Maria Barbosa
de Oliveira, neta de Rui Barbosa.
O seu padrinho de casamento foi o
amigo Carlos Drummond de Andrade.
Os diferentes lugares
em que serviu Barcelona, Londres,
Marselha, Madri, Sevilha, Genebra,
Berna, Assunção, Dacar,
Quito, Tegucigalpa e Porto são
descritos em vários de seus
poemas, destacando-se, no entanto,
a Espanha como a terra estrangeira
com que o poeta estabeleceu vínculos
mais fecundos. Três de seus
livros foram impressos nesse país:
Psicologia da composição,
O cão sem plumas e
Dois parlamentos.
Seu texto de maior
êxito popular é Morte
e vida severina (1955), já
traduzido para vários idiomas.
Levado à cena pelo grupo TUCA
(Teatro da Universidade Católica
de São Paulo), com música
de Chico Buarque, conquistou o primeiro
prêmio do Festival Universitário
de Nancy, na França, em 1966.
Da sua vasta bibliografia constam
ainda O rio, Duas águas,
A educação pela pedra
e Obra completa, entre outros.
Recebeu importantes
prêmios: José de Anchieta
(instituído pela Comissão
do IV Centenário de São
Paulo), Olavo Bilac (da Academia Brasileira
de Letras), Jabuti, da Câmara
Brasileira do Livro, do Pen Club,
do Instituto Nacional do Livro, O
Estado de São Paulo (100 mil
dólares do governo paulista),
Neustadt (40 mil dólares da
Universidade de Oklahoma), entre outros.
Em 1968 foi eleito
por unanimidade para a Academia Brasileira
de Letras.
Em 1986 ficou viúvo
e nesse mesmo ano casou-se com a poeta
Marly de Oliveira.
João Cabral
morreu em 9 de outubro de 1999, na
cidade do Rio de Janeiro.
Augusto Sérgio
Bastos
“Não apenas descobridor.
Nosso Cabral é um inventor
de mundos. E nada acontece por acaso
(como dizem que foi o caso de Pedro
Álvares).
Arquiteto de palavras
_ que recria numa linguagem tão
propriamente dele _ João Cabral
sempre acrescenta alguma coisa de
não-visto, de não-lido
antes, em cada produção
com que enriquece a literatura.
A obra de João
Cabral de Melo Neto é hoje
de circulação planetária.
Tornou-se patrimônio universal,
através das traduções
para os principais idiomas, em todas
as partes do mundo. Por outro lado,
estamos falando de um dos autores
de mais forte influência (nem
sempre bem digerida, é verdade)
sobre jovens poetas de língua
portuguesa, no Brasil e além.
A mensagem _ se
quiserem _ estará sempre presente.
Mas todos sabemos (e gosto de repetir)
que a literatura não depende
da política. Poesia comprometida,
sim, a de João Cabral de Melo
Neto. Mas antes de tudo (dentro da
exigência sartriana) poesia.”
(COUTINHO,
Edilberto. Cabral, o poeta descobridor.
In: João Cabral de Melo Neto.
Auto do Frade. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1984)
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