Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem
força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão
fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Ou Isto ou Aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol!
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não
se põe o anel,
ou se põe o anel e não se
calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe
nos ares.
É uma grande pena que não
se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro
o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei
se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou
aquilo.
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei.
Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto.E a canção
é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.
Modinha
Tuas palavras antigas
deixei-as todas, deixei-as,
junto com as minhas cantigas
desenhadas nas areias.
Tantos sóis e tantas luas
brilharam sobre essas linhas,
das cantigas – que eram tuas –
das palavras – que eram minhas!
O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
que o resto é pouco e apagado.
Cecília Benevides
de Carvalho Meireles nasceu em 7 de
novembro de 1901, no Rio de Janeiro.
Seu pai faleceu aos 26 anos, meses
antes dela nascer. Ficou órfã
de mãe aos três anos
de idade, quando passou a morar com
a avó materna.
Em 1910, concluiu o
curso primário na Escola Estácio
de Sá, no Rio. Na ocasião,
recebeu das mãos de Olavo Bilac,
que na época era Inspetor Escolar
do Distrito, a medalha de ouro, um
prêmio por seu esforço
durante todo o curso, sempre com a
nota máxima. Sete anos depois,
diplomou-se professora pela Escola
Normal do Instituto de Educação.
Em 1922 casou-se com
o artista plástico português
Fernando Correia Dias, com quem teve
três filhas. O casamento durou
apenas 13 anos, devido ao suicídio
do marido.
Foi professora de Literatura
Luso-Brasileira e de Técnica
e Crítica Literárias
da Universidade Federal da então
capital da República. Educadora
sempre preocupada com os problemas
da infância, em 1934 cria e
organiza a primeira Biblioteca Infantil
especializada no País, localizada
no bairro de Botafogo.
Em 1940, casou-se com
o professor Heitor Grillo.
Colaborou em diversos
jornais e revistas: escreveu sobre
ensino no Diário de Notícias,
sobre o folclore no jornal A Manhã,
crônicas semanais no Correio
Paulistano, de São Paulo. Viajou
por diversos países, entre
eles Portugal, Estados Unidos, México,
Índia e Israel, dando aulas
e fazendo conferências sobre
literatura, folclore e educação.
Publicou seu primeiro
livro de poesia em 1919: Espectros.
Seguiram-se Nunca mais... e Poema
dos poemas (1923) e Baladas para El-Rei
(1925), ambos com ilustrações
de Correia Dias, seu marido. Depois
lançou, entre outros, Viagem
(1939), premiado pela Academia Brasileira
de Letras, Vaga música (1942),
Romanceiro da Inconfidência
(1953) e Obra poética (1958).
Escreveu também para o público
infantil: Ou isto ou aquilo (1964).
Em prosa foram lançados: Giroflê,
Giroflá (1956), Escolha o seu
sonho (1964), O que se diz e o que
se entende (1980), e outros.
Cecília Meireles
morreu em 9 de novembro de 1964, no
Rio de Janeiro. Em 1965, mereceu da
Academia Brasileira de Letras, post
mortem, o Prêmio Machado de
Assis, pelo conjunto de sua obra.
Augusto Sérgio
Bastos
“Muitos não
atinaram com o sentido de suas palavras.
A maioria, fascinada pelos luxuosos
jogos musicais do que ela ia dizendo,
dizendo e fugindo, fugindo e parecendo
estar perto, não percebeu que
Cecília não era Cecília,
era a imagem que ela se dignava usar,
como um dos duzentos vestidos de todas
as fases de sua passagem entre nós,
que conservava sacralmente em seus
armários do Cosme Velho.
Seu problema não
seria o de sobreviver nem o de viver.
Mas o de assegurar o equilíbrio
entre o inalienável ofício
de deusa, e o de habitante eventual
da Terra. Toda a sua poesia visou
a essa composição. Uma
partícula mais de inefável,
e seria o encantamento puro, melodia
inacessível ao ouvido contingente,
memória de estados psíquicos
e de acuidades sensoriais que o vulgo
não saberia captar. No justo
limite entre a linguagem e o sonho,
porém, ela infundiu às
palavras o sopro mais significante.
Era uma deusa, disto
estou convencido, e só não
lhe confidenciei minha certeza porque
certos mistérios não
se revelam. Uma bela mulher é
mais do que mulher. Um admirável
poeta é mais do que poeta.
Cecília Meireles foi as duas
entidades e uma terceira, de explicação
impossível. E em novembro veio,
em novembro se foi. Deusa em novembro.”
Carlos Drummond
de Andrade, crônica “Deusa
em novembro” (fragmento), publicada
em 8/11/1969 no Jornal do Brasil.
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