Cecília Meireles: a música na poesia
(1901 -1964)

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

Ou Isto ou Aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol!
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto.E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

 

Modinha

Tuas palavras antigas
deixei-as todas, deixei-as,
junto com as minhas cantigas
desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas
brilharam sobre essas linhas,
das cantigas – que eram tuas –
das palavras – que eram minhas!

O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
que o resto é pouco e apagado.


Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro. Seu pai faleceu aos 26 anos, meses antes dela nascer. Ficou órfã de mãe aos três anos de idade, quando passou a morar com a avó materna.

Em 1910, concluiu o curso primário na Escola Estácio de Sá, no Rio. Na ocasião, recebeu das mãos de Olavo Bilac, que na época era Inspetor Escolar do Distrito, a medalha de ouro, um prêmio por seu esforço durante todo o curso, sempre com a nota máxima. Sete anos depois, diplomou-se professora pela Escola Normal do Instituto de Educação.

Em 1922 casou-se com o artista plástico português Fernando Correia Dias, com quem teve três filhas. O casamento durou apenas 13 anos, devido ao suicídio do marido.

Foi professora de Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literárias da Universidade Federal da então capital da República. Educadora sempre preocupada com os problemas da infância, em 1934 cria e organiza a primeira Biblioteca Infantil especializada no País, localizada no bairro de Botafogo.

Em 1940, casou-se com o professor Heitor Grillo.

Colaborou em diversos jornais e revistas: escreveu sobre ensino no Diário de Notícias, sobre o folclore no jornal A Manhã, crônicas semanais no Correio Paulistano, de São Paulo. Viajou por diversos países, entre eles Portugal, Estados Unidos, México, Índia e Israel, dando aulas e fazendo conferências sobre literatura, folclore e educação.

Publicou seu primeiro livro de poesia em 1919: Espectros. Seguiram-se Nunca mais... e Poema dos poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925), ambos com ilustrações de Correia Dias, seu marido. Depois lançou, entre outros, Viagem (1939), premiado pela Academia Brasileira de Letras, Vaga música (1942), Romanceiro da Inconfidência (1953) e Obra poética (1958). Escreveu também para o público infantil: Ou isto ou aquilo (1964). Em prosa foram lançados: Giroflê, Giroflá (1956), Escolha o seu sonho (1964), O que se diz e o que se entende (1980), e outros.

Cecília Meireles morreu em 9 de novembro de 1964, no Rio de Janeiro. Em 1965, mereceu da Academia Brasileira de Letras, post mortem, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.

Augusto Sérgio Bastos

“Muitos não atinaram com o sentido de suas palavras. A maioria, fascinada pelos luxuosos jogos musicais do que ela ia dizendo, dizendo e fugindo, fugindo e parecendo estar perto, não percebeu que Cecília não era Cecília, era a imagem que ela se dignava usar, como um dos duzentos vestidos de todas as fases de sua passagem entre nós, que conservava sacralmente em seus armários do Cosme Velho.

Seu problema não seria o de sobreviver nem o de viver. Mas o de assegurar o equilíbrio entre o inalienável ofício de deusa, e o de habitante eventual da Terra. Toda a sua poesia visou a essa composição. Uma partícula mais de inefável, e seria o encantamento puro, melodia inacessível ao ouvido contingente, memória de estados psíquicos e de acuidades sensoriais que o vulgo não saberia captar. No justo limite entre a linguagem e o sonho, porém, ela infundiu às palavras o sopro mais significante.

Era uma deusa, disto estou convencido, e só não lhe confidenciei minha certeza porque certos mistérios não se revelam. Uma bela mulher é mais do que mulher. Um admirável poeta é mais do que poeta. Cecília Meireles foi as duas entidades e uma terceira, de explicação impossível. E em novembro veio, em novembro se foi. Deusa em novembro.”

Carlos Drummond de Andrade, crônica “Deusa em novembro” (fragmento), publicada em 8/11/1969 no Jornal do Brasil.

 

 
 
 
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