Vinicius de Moraes: o poeta da paixão
(1913 –1980)

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

 

Poética (1)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

 

A um passarinho

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta

Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

 

Marcus Vinicius Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 19 de outubro de 1913.

A poesia surgiu cedo em sua vida. Publicou o primeiro livro, O caminho para a distância, aos 20 anos, mesma idade com que se formou em Direito. Nunca trabalhou como advogado, mas durante a ditadura Vargas, por um curto período, exerceu a função de censor cinematográfico.

Seus livros seguintes foram Forma e exegese, Ariana, a mulher e Novos poemas, com o qual ganhou a bolsa do Conselho Britânico, em 1938, e foi estudar em Oxford. No ano seguinte, ainda na Inglaterra, casou-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello, o primeiro dos seus nove casamentos. Logo depois retornou ao Rio de Janeiro iniciando uma carreira jornalística como redator do Suplemento Literário do semanário A manhã, onde fazia também a crítica cinematográfica. Mais tarde trabalharia no jornal Última hora, publicando suas primeiras crônicas, e colaboraria em muitos outros periódicos.

Aos 30 anos entrou para o Itamarati, iniciando a carreira diplomática. Em 1946 foi morar nos Estados Unidos, ocupando seu primeiro posto no exterior: vice-cônsul em Los Angeles. Três anos depois foi transferido para Paris.

Em 1956 Orfeu da Conceição é encenado no Teatro Municipal, com cenários de Oscar Niemeyer e música de Antônio Carlos Jobim, iniciando a famosa parceria. Tom era filho do poeta Jorge Jobim. O pai de Vinicius, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, também escrevia poemas e tocava violão.

De Paris foi transferido para a UNESCO, depois para Montevidéu e novamente Paris. Em 1964 voltou em definitivo para o Brasil, dedicando-se intensamente, a partir daí, à música popular. Em 1967 foi exonerado do Itamarati e teve sua Obra poética reunida pela Editora Aguilar. Nos últimos 15 anos já havia lançado mais cinco livros de poesia, entre eles o Livro de sonetos, e dois de crônicas. Em 1970 publicou A arca de Noé (poemas infantis) e começou a compor com Toquinho, o parceiro mais constante até o final de sua vida.
Vinicius tinha uma consciência de “esquerda” de que muito se orgulhava, como se observa na composição do hino da UNE, em parceria com Carlos Lyra. Muitas vezes usou a sua poesia como instrumento de indignação e de protesto: em 1979, fez uma emocionante leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder operário Luís Inácio da Silva, o Lula.
Vinicius de Moraes morreu em 9 de julho de 1980, no bairro da Gávea, o mesmo onde nascera.

Augusto Sérgio Bastos

“Parte da produção poética mais conseqüente do século XX se caracteriza por duvidar sistematicamente dos processos de representação e, em certa medida, faz da necessidade de questionar os limites da representação um de seus temas prediletos. Em outras palavras, parte ponderável da poesia do século XX fez da linguagem a sua meta, e acabou caindo de boca na metalinguagem.

Na poética inatual de Vinicius, a linguagem aspira à plena transparência, salvo exemplos isolados (e ainda assim, confinados pelo autor ao círculo da “experiência vivida”), como a Elegia no 5. O reconhecimento da poesia como linguagem seria, aos olhos do herói, um inaceitável seqüestro da vida. Para representar a vida, conforme sua cartilha, era suficiente traduzi-la em palavras.”

(Geraldo Carneiro, de Vinicius de Moraes – a fala da paixão - Editora Brasiliense, Rio de Janeiro, 1984)

 

 
 
 
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