Entreinte - Rodin

 

O ANEL DE MARFIM

Tite de Lemos

1. MARÍLIA

o lótus de Marília cultivado
relva preta ao redor da ilha ou ruiva
quando o sol no seu delta se deitava
o galo antigo em mim acorda e uiva

2. MARLENE

melões-gêmeos-do-céu lençol laranja
cortina cor-de-rosa luz vermelha
o meu olhar te cerca e não te abrange
na lagoa infinita dos espelhos.

3. MITSI

aquela pinta ocre entre as costelas
meus olhos abres e os meus lábios selas
depois rodando me viraste as costas
prometo tatuar-te toda. Gostas?

4. LAURA MARIA

Laura Maria se chamava Vênus
era uma égua anis Regina Elena
eu a cremava ela nascia sempre
Laura Maria se chamava Phoenix

5. Iole

iole a oito remos de rapazes
todas as verdes varas tesas trazes
a tua casa e em tuas tranças atas
foi um lindo domingo de regatas

 

 

SE TU VISSES, JOSINO,
A MINHA AMADA

Manuel Maria du Bocage

Se tu visses, Josino, a minha amada,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:

Na sua boca Vénus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:

Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!

Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: “Fode, fode!”

 

 

CARNE PROIBÍDA

Artur Gomes

o
preço atual
proíbe
que me comas
mas pra ti
estou de graça
pra ti não tenho preço
sou eu
quem
me ofereço
a ti
músculo
e osso
leva-me
à boca
e completa
teu almoço

 

A MULHER QUE PASSA

Vinicius de Moraes

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.

 

 
 
 
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