Carlos Alberto Trujillo (Castro – Ilha de Chiloé, Chile, 1950).

Fundador do “Taller Literario Aumen” de Castro em 1975. Doutor em Literatura hispano-americana na Universidade de Pensilvania (EUA), é professor de literatura hispano-americana, há mais de dez anos, na Universidade de Villanova (EUA). Publicou Las musas desvaídas (1977), La hoja de papel (1992) e Sonetos y otros poemas de Lope Sin Pega (1999), Todo es prólogo (2000), Palabras (2005), entre outros. Seus poemas têm sido traduzidos ao inglês, italiano, russo e português. Em 1991 obteve o Prêmio Pablo Neruda pelo conjunto de sua obra poética. Segundo Iván Carrasco Muñoz, “a poesia de Trujillo propõe temáticas variadas em que se põem em contato elementos originados em culturas distintas; é uma tentativa de superar a exclusão do discurso chilote sem renunciar à sua identidade ao colocá-lo em contato com outras expressões da modernidade literária e textual com as quais realiza um complexo jogo de aproximações, distanciamentos e reciprocidades. O sujeito lírico predominante em seus poemas é um homem comum que se caracteriza por escrever versos e sentir-se poeta.”


Seleção e dados biográficos: Leo Lobos
Tradução: Crisitane Grando

POEMAS VELHOS (1)

Escrever poemas velhos com palavras usadas
tentá-los de novo como a planta se faz de roupagens inéditas
as flores de cor, o ar de estrelas
que se chocam e explodem e giram e amam.
Velhos poemas que cantem vida nova
ilusões e mares que entrecruzem as águas com o sol
e o sol que os olhava de longe
se faça olho e se faça peixe
e mergulhe no fundo como homem temeroso
em busca de segredos e mais sol.
Escrever velhos poemas que nunca envelhecerão
e polir a palavra já polida
pelas águas do tempo que se traga a si mesmo.
Andar no poema passo a passo
como a voz anônima que canta e conta e voa
e não sabe que é canto o que canta nem vôo o que conta.
Ser asa sem ser ave. Inventar a luz
sem mais olho que o olho da fundura da alma
que habita nos oceanos mais cegos
e vê tudo
Crescer até as nuvens de outros céus
sem ser árvore nem selva
Ser um imenso tu sem deixar de ser eu
e escrever este poema que envelhece em sua tinta sem tinteiro
enquanto minha mão rasga a folha branca
e o sol que já se esconde envelhece também
para fazer-se de novo.

 

POEMAS VELHOS (2)

Lemos poemas velhos a cada tarde
e o sol canta de novo esse canto de cisne
que não morre nem cala
A cada leitura o poema se inaugura
e o leitor se inaugura com o poema
que antes não teve leitor nem poema nem leitura
ou foram outros
tão outros e tão raros
que o poema que foi nunca voltará a ser
e o leitor, tu, leitor,
nunca terminarás de inaugurar-te.

VOLTAR A SER O QUE NÃO FOI

Voltar a ser o que não foi o que será
Unir o que será e o que seria
Arrebatar ao sol um só dia
Fazer do que foi o que virá.

DO AMANHÃ

Quando penso no profundo amanhã
Que esse passado ainda moço
Haverá de recorrer em minha consciência
Olho o céu em silêncio
E vejo minha sombra muda
Que passa como um pássaro.

Escrevo escuro, escuro, escuramente
Sem luz, a sós sempre
Enclausurado em mim mesmo
Escrevo para ser
Recrio a escritura
Como parafraseando a palavra palavra
Se me travam a língua
O lápis, a linguagem
Se escurece de imediato
A fissura de luz
E essa é toda a luz
E é puro o ar.

Quando olho para atrás e não me vejo
Ou em sonhos sonho este vazio presente
Minha voz se detém como o sol à noite.

Quando olho ao que sou e aquele fecha os olhos
Não atina em ver-me nem o vejo

Tampouco os demais
Olhando para outro atrás

Que quer ser ontem
E já não é nada.

Texto sou
Só texto e sua sombra
Descubro-me e me perco
Me perco e me reencontro
Naufrago nestes signos
Em sua cabala eterna

Ai de mim que não sou
Mais que pura palavra
E ver tão somente um verbo
Que só vê para adentro

Tudo cabe em um verso
A respiração e o ar silencioso cabem em um verso
O canto que sabe o que canta
E o que se encanta de não saber o porquê
A voz e a ilusão
Que esconde o mármore em seu adentro
O olho que se abre e vê a lua cheia
E a flor que se morre sem água e jardineiro
O Jardim do Éden cabe em um só verso
Em todas as suas versões e linguagens
Um verso só é o mundo
Sem deixar de girar ao redor dele mesmo.




 
 
 
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