Senhora graciosa,
discreta, excelente...
Mais poetas do Cancioneiro
Geral (1516) |
O Cancioneiro Geral de Garcia
de Resende (de que já
se falou no número anterior
do Panorama) descende diretamente
dos cancioneiros castelhanos
que, por sua vez, haviam assimilado
parcialmente os antigos cancioneiros
galaico-portugueses. Por exemplo,
as composições
com mote e voltas (que fazem
lembrar a estrutura das serranilhas)
substituem as composições
paralelísticas.
Em poemas numerosos do Cancioneiro
Geral é bem visível
a influência de Petrarca
(que, posteriormente, influenciará
o Camões lírico),
pela concepção
de um amor desinteressado ou
que vise a um objeto inacessível
– amor que se alimente
de si mesmo; nas palavras de
Antônio José Saraiva,
um amor “...deliciando-se
no sofrimento e na autocontemplação,
contraditório porque
goza com o próprio sofrer”.
Quem ler atentamente os poemas
do Cancioneiro Geral, depois
dos primitivos galaico-portugueses,
notará enorme variedade
métrica e versificação
bem mais escrupulosa. Os motivos
tornam-se mais amplos, excluiu-se
a primitiva “ingenuidade”
das serranilhas, barcarolas
e alvoradas. Mais livres e mais
cultos, os poetas dispõem
agora de número muito
maior de recursos e maior capacidade
de imaginação
e amplificação.
A metáfora, diz Fidelino
de Figueiredo, conquista domínios
novos. O fôlego dos poetas
amplia-se: O Cancioneiro Geral
divulga as primeiras grandes
composições em
português e é nele
que surgem os primeiros grandes
nomes da poesia em língua
portuguesa. O maior de todos
é, talvez, Duarte de
Brito, que mostra um enorme
domínio da língua
como instrumento literário.
Influenciado por Dante, pintou-nos
uma “máquina do
mundo”, antecipando Camões.
Concluímos com o professor
Fidelino de Figueiredo: “O
Cancioneiro Geral, com a sua
variedade métrica, com
os seus grandes progressos na
invenção literária
e na musicalidade de língua,
os seus laivos de humanismo
erudito, a sua ornamentação
lírica, com as suas plenas
afirmações de
personalidade literária,
reconstitui-nos aspectos da
mentalidade artística
da época de Dom João
II, magnífico pórtico
de acesso à Renascença.”
Estava aberto o caminho para
Camões e fixados para
sempre rumos decisivos (temáticos
e formais) da poesia portuguesa,
com ecos no Barroco e até
na poesia moderna. |
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Cantiga partindo-se
João Roiz de Castel Branco
Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d´esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém. |
Cantiga
Luís da Silveira
Senhora, pois, que folgais
com meu mal, não me mateis;
porque quanto alongais
minha vida, tanto mais
vossa vontade fareis.
E olhai, se m´acabardes,
que nunca me mais tereis,
inda que me desejeis,
para m´outra vez matardes.
Mas já sei o que cuidais,
e de mim o conheceis:
confiais
que, se de morto mandais
que torne, que m´achareis
|
Cantiga
Francisco de Sousa
Acho que me deu Deus tudo
para mais meu padecer:
os olhos para vos ver,
coração para sofrer,
e língua para ser mudo.
Olhos com que vos olhasse,
coração que consentisse,
língua que me condenasse,
mas não já que me salvasse
de quantos males sentisse.
Assi que me deu Deus tudo
para mais meu padecer:
os olhos para vos ver,
coração para sofrer,
e língua para ser mudo.
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Copla
Coudel-mor Fernão da
Silveira
| Senhora |
graciosa, |
discreta, |
excelente, |
sentida, |
humana, |
d'amores |
inimiga, |
garnida |
d'oufana, |
d'honores |
amiga, |
d'agora |
fermosa, |
secreta, |
prudente: |
excrude |
em vós tacha |
castigo |
manante |
perfeita |
bondade |
inteiro |
exemplo, |
sujeita |
à verdade, |
verdadeiro |
templo, |
virtude |
vos acha |
consigo |
constante. |
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Trovas a este vilancete
Francisco de Sousa
Abaix´esta serra
verei minha terra
Ó montes erguidos,
deixai-vos cair,
deixai-vos sumir
e ser destruídos,
pois males sentidos
me dão tanta guerra
por ver minha terra.
Ribeiras do mar,
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deixai-as passar.
Deixai-mas tornar
dar novas da terra
que dá tanta guerra.
Cabo
O sol escurece,
a noite se vem;
meus olhos, meu bem
já não aparece.
Mais cedo anoitece
aquém desta serra
que na minha terra. |
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