VISÃO

Yêda Schmaltz

Beleza e violência
atropeladas
– elegância liquefeita.

Pelas naridas febris
respira o mundo,
as orelhas tremem,
queimam
e há um ponto gelado
no nariz.

A pele retesada
em tons de pelúcia
avermelhada.

Arreganha os dentes
e se embrenha
por caminhos sombrios,
desandados.

Sob os seus pés,
o estalo
dos tapetes do mundo
enevoados.

Ritmo bom,
parelho engalopado.
As ancas tremem
violentamente:
um cavalo.

 

Augusto Rodrigues

 

DEPOIMENTO CRUEL Nº 2

                                   Renata Pallottini

(defloramento precoce)

– Foi teu tio quem te fez?
– Não, foi meu irmão.
– Você gostou?
                       
                            –  Senhor?

- Você gostou?

                            – Depois ele me levou
comer pizza. Eu gostei.

 

EXERCÍCIO DE VIRTUDE
No 8

Lina Tâmega Peixoto

O amor transmuda-se em virtude
ao entranhar-se na estuante natureza.
Não me importo que se deite
nas crinas crespas da noite
ou adense apenas a superfície da carne.
Arranco da vida grãos de beatitude
para meu amado confinar seu jugo
na trêmula entrega de meus sonhos.

Apoiada em doces sombras
espero que o amado se aproxime
e toque com os dedos
as agulhas de prata de meus seios
e envolva minha cintura
com o mesmo encanto e mesura
da espuma das águas
que cobre o nácar das conchas.

Meu amado ilumina meu corpo
com a tocha que acende
como um lírio do firmamento.

 

CANTO GOZOSO I

Ricardo Máximo

Toma tento
Do mote
Manda inscrever
Nos ossos
O vero
Desse ensejo:
Nada é real
Fora do desejo
Guarda nos
Últimos da alma
A rosa desta glosa:
Sem gozo
Não pode haver repouso
Quem não goza
Não vê crescerem
As rosas
Ao pé de si

 

ODE

Ricardo Reis

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza apeteço
Seja onde for, beleza.

Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
E não onde é preciso.

Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou não amo,
Nem a inocência inata quando se ama
Julgo postergada nisto.

Não no objecto, no modo está o amor
Logo que a ame, a qualquer cousa amo.
meu amor nela não reside, mas
Em meu amor.

Os deuses que nos deram este rumo
Também deram a flor pra que a colhêssemos
com melhor amor talvez colhamos
O que pra usar buscamos.

 

DIONISÍACA

Olga Savary

Nos rins o coice da flama,
cavalo e égua cavalgada e cavalgando
a pradaria da cama

 

EM TORNO DE UM RETRATO

... se tu me dás
tenho com o que pagar-te

Leon Bloy

Celina de Holanda

Embora dele ausente
estou neste retrato,
nesta porta
porta noutra sala,
em teu corpo, agora
noutro espaço:
por ela passei
de ouro e prata
por ele me despojei
sem perder nada.

 

 

 

 

 
 
 
 
poeta da vez
indicações: leia mais
editora da palavra