Certidão
Celso Brito
colecionei diversos medos
que me puseram menino
no colo de minha mãe
reescrevi muitas lembranças
de tempos que me fizeram
muito mais do que eu era
também revivi culpas
de ter esperado tanto
de ter medo da chuva
de acordar depois do sol
hoje me caibo exato
no espaço em que me fiz
coração é que
transborda
Alejandro Mahave
Luz
inesperada
Maria da Conceição
Paranhos
Preparei a casa para
te esperar:
procurei nos cantos o passado
e engastei-o à soleira da porta,
petrificado em dor, mas refulgente.
Não foi necessário
mudar de casa
para te esperar. Bastou a tua vinda,
ainda de madrugada, para que tudo
mudasse,
e a lua crescente surgisse ao meio
dia.
A cama está
feita, a mesa está posta,
nas compoteiras brilham sobremesas
feitas para adoçarem a tua
boca
quando a vida amargar, travar-se o
riso.
Meu corpo não
é o mesmo de ontem,
mas é mais virgem, através
das horas,
que me apartaram de outros desejos
dos quais me afasto, emigrada de mim
mesma.
Foi gratuito o teu
chegar. Por isso fica:
permanece em mim e esquece a lágrima.
Te esperei para chamar-te “meu
amor”,
embora ingressem em minha voz e corpo
antigas sereias, com
pentes de espelhos,
a retrançar meus cabelos destrançados,
e te convidem para o sábio
mergulho
onde habitaremos: nós e o tempo.
Sonetilho de verão
Paulo Henriques Britto
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não
há esperança.
Amanhã deve dar praia.
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