SÁ DE MIRANDA , em estado de crise e conquista

Dom Francisco de Sá de Miranda (1481-c.1558; irmão de Mem de Sá) é uma figura a vários títulos representativa da cultura portuguesa, na qual sobreleva como poeta: filho de cônego, estudou Leis (Direito) na Universidade de Coimbra, “o curso talvez mais contra-indicado para um tal espírito”, segundo Antônio Salgado Júnior. Terá feito Jurisprudência “mais em obséquio ao gosto del-rei Dom João o Terceiro...que por inclinação que tivesse àquela maneira de vida...” – diz um biógrafo, que continua: “Porém, conhecendo os perigos que o uso desta ciência traz consigo em matéria de julgar, tanto que lhe faleceu o pai, não só deixou de todo as escolas, mas enjeitou os lugares do Desembargo que por muitas vezes lhe foram oferecidos...”. Esta atitude mostra o rigor moral do grande poeta que introduziu a poesia renascentista em Portugal.

 

Publicou poemas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende mas, ao contrário de muitos outros que ali estrearam sem jamais virem a adquirir voz pessoal, Sá de Miranda foi dos que decidiram os rumos da poesia portuguesa, já que a ele, mais do que a qualquer outro poeta, se deve a introdução em Portugal do estilo italiano conhecido como dolce stil nuovo – tanto o verso de dez sílabas, bem mais maleável do que a redondilha, nos gêneros de origem provençal, a canção e o soneto –, como nos de origem grega e latina, écloga, ode, elegia. Depois de uma viagem pela Itália, “onde se familiarizou com o novo estilo” (Antônio J. Saraiva), regressou a Portugal mas abandonou a Corte e retirou-se para uma de suas comendas no Minho. Muito provavelmente se incompatibilizou com o novo modo de vida motivado pelos descobrimentos e conquistas no Oriente. E talvez, não do ponto de vista das transformações estilísticas, mas enquanto poeta individual, sua maior realização esteja na écloga “Basto”, em redondilha maior. Sua dicção arcaizante, sua frase elíptica e conceituosa, sua grande capacidade de concretização, o tornam um poeta inconfundível. É algo irônico que um dos poetas estilisticamente mais inovadores da poesia portuguesa se tenha realizado antes nos metros antigos.

Já houve quem o tenha apontado como o exemplo máximo da “difícil arte de ser moderno em Portugal”. Não se esqueça, lembra Costa Pimpão, que “o melhor Camões – o Poeta dos Sonetos e das Canções – saiu dos tentames difíceis, suados, incansavelmente renovados de Sá de Miranda .” (O crítico se refere, é claro, ao Camões lírico). Devido à extensão de suas composições em redondilha, daremos aqui apenas exemplos do Sá de Miranda italianizante, dos sonetos. (Seguimos a lição de Rodrigues Lapa.)
Começamos com “O sol é grande...”, um dos mais belos e famosos sonetos da nossa língua. (A.M.)

 

Sobre Sá de Miranda, escreve Augusto Meyer: “ Sabemos muito bem que este avô da nossa poesia andava apalpando a medida nova, importada da Itália, e não podia evitar os tropeços de aprendiz. Mas também, de outro lado, e por isso mesmo, porque o sentimos ainda em estado de crise e conquista, emendando muito e tornando a emendar (...), podemos acompanhar, comovidos, a gestação de um verbo poético fecundante e vivo, um ritmo que estende as mãos e mede o espaço, uma vibração interior traduzida em timbre indeciso, a imagem saltando da pauta, a palavra que transborda – e de súbito, no meio dos versos “atulhados e duros”, a verdade poética, o suor do trabalho bem cumprido, não sei que profunda gravidade mais atraente que todas as graças melodiosas de afinados alaúdes...”

(Em Camões, o bruxo, e outros ensaios)

O sol é grande...

O sol é grande, caem co´a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d´alto cae acordar-m´ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu´em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombra, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d´amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m´eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

 

Outro, em que o poeta, na linha de Horácio,
se refere ao difícil artesanato da poesia:

Tardei, e cuido que me julgam mal,
qu´emendo muito e qu´emendando dano,
Senhor; porqu´ hei gram medo ao mau engano
dêste amor que nos temos desigual:

Todos a tudo o seu logo acham sal;
eu risco e risco, vou-me d´ano em ano:
com um dos seus olhos só vai mais ufano
Filipo, assi Sertorio, assi Anibal.

Ando co´os meus papéis em diferenças;
são preceitos de Horacio – me dirão;
em al não posso, sigo-o em aparenças.

Quem muito pelejou como irá são?
Quantos ledores, tantas as sentenças;
c´um vento velas vem e velas vão.

 

Um soneto de amor

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m´espanto às vezes, outras m´avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m´era mister tant´outr´ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.

 
 
 
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