Concerto lírico a quinze vozes - Uma Coletânea de Novos Poetas da Bahia

José Inácio Vieira de Melo - ORGANIZAÇÃO, SELEÇÃO E NOTAS

Aleilton Fonseca - APRESENTAÇÃO

 

 

Que o Brasil é grande, já sabemos. E também que é um país onde se encontram o maior número e as mais variadas formas de manifestações artísticas. Somos nós, brasileiros, o melhor produto nacional. Há quem não acredite.

O que também sabemos, mas é difícil aceitar, é que essa grande produção não chega sequer ao conhecimento de todos os estados brasileiros, e muitas vezes nem mesmo seja divulgada na capital do Estado em que se realiza. Quando se trata de autores do interior dos estados, nem se fala, resta rezar. E provavelmente dará mais certo.

Sabemos que não há (nunca houve) políticas públicas destinadas a incentivar e divulgar a produção artística. Arte, a não ser que seja devidamente “trabalhada”, não interessa ao mercado. O poder sempre desdenhou a arte, a não ser que dela consiga se apossar. Os artistas sempre foram ignorados, a não ser que tivessem (tenham) berço, e relações. Hoje, inventa-se um autor que por sua vez já foi preparado para o seu “destino”. Efêmero, de preferência. Quando surge um artista que não se conforma com os ditames do mercado, faz-se o contrário de antigamente: ao invés de ignorá-lo, cooptam-no para que prove do sucesso e se transforme em mais um agente do “entretenimento”. Abatido pelo sucesso.

A “produção” eclipsa o autor, o ator, a voz original, a arte absoluta.
Mesmo os patrocínios culturais vão até o lançamento (com um grande evento) e cessa aí o “incentivo”. O livro é censurado depois de publicado. As empresas investem porque querem usufruir de descontos no imposto de renda e ter sua logomarca ligada à “cultura”.
Mas algo está mudando. O que há de novo é que os poetas não se bastam, não hesitam, não desistem. Não têm mais vergonha de mostrar o que escrevem. Deles transbordam idéias, necessidades, ira e piedade, e então escrevem porque não podem deixar de fazê-lo. Como sempre, passam trabalho. Não têm teto, nem certeza de sorte alguma, nem respostas às perguntas de sempre. Mas ali está o papel a chamar, a dizer-lhes que não se entreguem, que há redenção.

Há mais gente escrevendo? É claro! A população cresce e com ela (graças!) também os poetas. Agora já é possível divisar as bandeiras.

Esta antologia traz na capa o inconfundível traço de Almandrade, cujo trabalho já ultrapassou as fronteiras (e nesse caso as barreiras) do seu Estado e foi organizada pelo poeta José Inácio de Melo, que adotou um critério que me pareceu justo: selecionou autores de livros publicados a partir de 1990 bem como vencedores de prêmios em concursos, também a partir de 90. O que me chama a atenção é o fato de serem quase todos eles de cidades do interior: Andaraí, Poções, Fazenda Vencedora (em Planaltina), Castro Alves, Cachoeira, Ilhéus, Itaquara, Feira de Santana. Também de Dois Riachos, nas Alagoas, Lagarto, em Sergipe, Brasília, e naturalmente, de Salvador. Isso faz pensar nessas cidades que conheço e não conheço, mas onde sei que existe, neste momento, um poeta que não pode esperar para elevar a sua voz que, conforme Veiga Leitão, bem ou mal, é sempre a de um pássaro que canta.

Pronunciar, escrever os nomes dessas cidades me dá uma alegria enorme, uma paixão pelo Brasil – pátria imensa que não temos conseguido consolar.
Eis o que há de novo. Os poetas hoje se reconhecem, e vão juntos à luta. Não esperam mais. Não podem esperar. Que a poesia há de estar outra vez, como no início, antes e sobre tudo – eis o sonho.

Ernesto Sábato vem em meu auxílio para dizer que só quem for capaz de encarnar a utopia estará qualificado para o combate decisivo, o de recuperar o quanto de humanidade houvermos perdido.

Os poetas resistem bravamente. Temos nós, cada um de nós, brasileiros, uma terra a que pertencemos. Os governos a tem espoliado como algozes e a nós sacrificado. Da Pátria, temos agora uma dor. E poetas perturbam a ordem.

Quem serão esses jovens poetas daqui a um tempo? Escreverão ainda? Terão sido vencidos pela vaidade? Acharão que o mundo não merece a sua obra? Ou terão seguido escrevendo, porque não podem deixar de fazê-lo e não suportam antever a tragédia sem cantar?

Muitos deixarão de escrever, é comum.A sobrevivência assim o exige. Terão deixado de ser aquilo que mais os impulsionava, e que no entanto tiveram que sufocar? Ou terão se articulado a ponto de academias? Receberão grande prêmios ou um grande patrocínio?
Pois esse concerto lírico é uma prova de que não existe o maior poeta. Existem poetas – e isso é tudo. E nesse caso ser poeta é ser maior. Não que tudo, que a tudo não conhecemos. Mas do que conhecemos de menor.

Isso tem sido a nossa salvação. Sentimo-nos como se pertencêssemos a um movimento de resistência. Não estamos em frentes, mas a luta é a da vida e mais outra. No Brasil inteiro, em alguma cidade que não está nem no mapa, das mãos de um peão ou de uma adolescente está surgindo a poesia e nada poderá impedir que isso aconteça. Nunca houve o que impedisse.

O selo Aboio Livre deu guarida ao trabalho de José Inácio Vieira de Melo, cavaleiro, corcel e dragão dos novos tempos, nessa lida que não termina, mais dura em tempos de miséria.
As quinze vozes do concerto lírico, conforme o poeta Aleilton Fonseca, que assinou o prefácio, estão desde já convocadas ao trabalho de criação como continuadores da poesia baiana, podendo, ao mesmo tempo, serem os seus renovadores, na medida em que cada momento o exija, como processo natural da aventura lírica. Como num lance de dados, o jogo desses poetas está lançado. Só a persistência e a permanência de cada um deles, no tempo, e sobretudo na obras futuras, mostrarão os acertos de suas escolhas, seu caminhos, suas contribuições. Cumpre-nos, como leitores atentos, seguir as rotas particulares de cada um desses viajores da poesia.
Cumpre a eles seguir, já que a poesia não abandona seus eleitos.

Helena Ortiz

 

Linguagem de Pedra

Ângela Vilma

as águas
são mágoas
das pedras
lágrimas de rochas
presas ao próprio tempo

e as cachoeiras
são quedas
do pensamento
dessas pedras
quebrando silêncios

 

Convergência de um Murilograma Cachoeirano

João de Moraes Filho

Os livros que não li
costuram infâncias cor de velas apagadas
e esse poema me persegue
infantilmente pela Rua do Riacho Pagão.

Grifou-me apenas,
não o escrevi.

Sinésio Pára Choque

Goulart Gomes

Sinésio curupira
encantava chãos
anuviava a visão dos transeuntes
com serelepes de calango:
três quartos de século vividos
e alegria de moleque no rasgo da cara
dentes poucos, nenhum siso
e as cabeças ocas: muitos filhos.

Sinésio envultava desde pequeno
(isto era sabido) feito raio de corisco

Liberdade é coisa cara
que não se sabe apreçar
definir ou entender
feito ar
apenas necessária

Sinésio vivera assim
desalgemado
misturando-se à fumaça das estradas
e ao lume das estrelas
feito neblina

De modo que não se precisa
na incerteza
– este mundo é uma belezura! –
a seta que indica
os rumos que tomou

Viva e deixe-me viver
uivava a última traseira do caminhão.

Avenida Tapajós

Edmar Vieira

A vida vai a 80 por hora
(não se permite mais agora)
Grito,canto,desvario
e sigo o curso incerto desse rio

Buzinas e sirenes e dióxido e fumaça
e o mundo parcelado na vidraça

Por que em cada alma tanto querer
o que nem sabemos pra quê?

Clausura e euforia
nesta véspera de mais um dia

Avenida Tapajós
aqui estou indovindo
E lá no teto – penso –
Deus sorrindo

Poema Biográfico

Elizeu Moreira Paranaguá

Nada sei acerca de meu pai.
Abadonou-me desde
o ventre de minha mãe.

Nada sei acerca de meu pai:
nem seu nome consta
na minha certidão de nascimento.

Nunca vi meu pai.
Nada sei acerca dele.

Exercícios Crísticos

José Inácio Vieira de Melo

Eu sempre tive o desejo incontinente de salvar o mundo,
sempre escolhi por companhia os que não medem o tempo
e andam para cima e para baixo a praticar cigarras
os que têm por fortuna o dia todo – todos os dias.

Sempre cri ser o resdentor de toda miséria humana,
então resolvi me coroar de espinhos
e por trono escolhi o cravejar da cruz,
tenho esse sorriso triste,essa lágrima de sangue.

Eu só acredito nas coisas que não vejo
e sinto em cada estrela uma Madalena a luzir,
e mesmo sabendo que Deus não existe
em cada criança percebo a Sua Face esplendorosa.

Trago comigo todos os pecados do mundo
e sou o cordeiro imolado que alimenta o delírio,
por isso a glória e a humilhação do vinho
não é nada fácil ser juiz da própria loucura.

Pipas

Marcus Vinícius Rodrigues

Todas as pipas
que tive,
não as vi voando,
míope que sou.
Só o barbante suspenso,
o farelo de vidro.
No alto, puxando,
a pipa invisível.
Vem voar comigo.
Hoje não. Estou de castigo.

Dicotomia

Kátia Borges

Estou só.
Não quero o homem que me quer
E há um sol que eu quero em meu rosto.

Crescer é fogo, amor, consome.
Perdoe o medo, o nojo, a fome.
Amar é doce, enjoa.

Não quero o pássaro que tenho nas mãos.
Eu preciso é dessa ave que voa.

Verdades

Mayrant Gallo

Verei, veremos, um dia,
Que a vida é vento...
E que somos cisco,
E que ninguém
Nos pega pelo bico...

Que só há ar em volta...
Nada além disso.

Herança

Mõnica Menezes

para Maricelma

Há uma mangueira em minha vida.
Não tive barbies, bicicletas
ou festas de aniversários.
Só uma velha e frodosoa mangueira.
A mangueira me deu tudo.
E eu nunca soube ser muito infeliz.

Página de Autobiografia Explícita

Sandro Ornelas

nos supermercados do mundo
liquidei-me dono de tudo
sem saudades do que fui
hoje não mais me iludo
com máscaras de demiurgo
ou qualquer papel de fundo
assumo meu desejo bruto
sentimento irresoluto e impuro
fruto do mais direto prelúdio
a um espírito sem contramuros

 
 
 
poeta da vez
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