Que o Brasil é
grande, já sabemos. E
também que é um
país onde se encontram
o maior número e as mais
variadas formas de manifestações
artísticas. Somos nós,
brasileiros, o melhor produto
nacional. Há quem não
acredite.
O que também
sabemos, mas é difícil
aceitar, é que essa grande
produção não
chega sequer ao conhecimento
de todos os estados brasileiros,
e muitas vezes nem mesmo seja
divulgada na capital do Estado
em que se realiza. Quando se
trata de autores do interior
dos estados, nem se fala, resta
rezar. E provavelmente dará
mais certo.
Sabemos que não
há (nunca houve) políticas
públicas destinadas a
incentivar e divulgar a produção
artística. Arte, a não
ser que seja devidamente “trabalhada”,
não interessa ao mercado.
O poder sempre desdenhou a arte,
a não ser que dela consiga
se apossar. Os artistas sempre
foram ignorados, a não
ser que tivessem (tenham) berço,
e relações. Hoje,
inventa-se um autor que por
sua vez já foi preparado
para o seu “destino”.
Efêmero, de preferência.
Quando surge um artista que
não se conforma com os
ditames do mercado, faz-se o
contrário de antigamente:
ao invés de ignorá-lo,
cooptam-no para que prove do
sucesso e se transforme em mais
um agente do “entretenimento”.
Abatido pelo sucesso.
A “produção”
eclipsa o autor, o ator, a voz
original, a arte absoluta.
Mesmo os patrocínios
culturais vão até
o lançamento (com um
grande evento) e cessa aí
o “incentivo”. O
livro é censurado depois
de publicado. As empresas investem
porque querem usufruir de descontos
no imposto de renda e ter sua
logomarca ligada à “cultura”.
Mas algo está mudando.
O que há de novo é
que os poetas não se
bastam, não hesitam,
não desistem. Não
têm mais vergonha de mostrar
o que escrevem. Deles transbordam
idéias, necessidades,
ira e piedade, e então
escrevem porque não podem
deixar de fazê-lo. Como
sempre, passam trabalho. Não
têm teto, nem certeza
de sorte alguma, nem respostas
às perguntas de sempre.
Mas ali está o papel
a chamar, a dizer-lhes que não
se entreguem, que há
redenção.
Há mais
gente escrevendo? É claro!
A população cresce
e com ela (graças!) também
os poetas. Agora já é
possível divisar as bandeiras.
Esta antologia
traz na capa o inconfundível
traço de Almandrade,
cujo trabalho já ultrapassou
as fronteiras (e nesse caso
as barreiras) do seu Estado
e foi organizada pelo poeta
José Inácio de
Melo, que adotou um critério
que me pareceu justo: selecionou
autores de livros publicados
a partir de 1990 bem como vencedores
de prêmios em concursos,
também a partir de 90.
O que me chama a atenção
é o fato de serem quase
todos eles de cidades do interior:
Andaraí, Poções,
Fazenda Vencedora (em Planaltina),
Castro Alves, Cachoeira, Ilhéus,
Itaquara, Feira de Santana.
Também de Dois Riachos,
nas Alagoas, Lagarto, em Sergipe,
Brasília, e naturalmente,
de Salvador. Isso faz pensar
nessas cidades que conheço
e não conheço,
mas onde sei que existe, neste
momento, um poeta que não
pode esperar para elevar a sua
voz que, conforme Veiga Leitão,
bem ou mal, é sempre
a de um pássaro que canta.
Pronunciar, escrever
os nomes dessas cidades me dá
uma alegria enorme, uma paixão
pelo Brasil – pátria
imensa que não temos
conseguido consolar.
Eis o que há de novo.
Os poetas hoje se reconhecem,
e vão juntos à
luta. Não esperam mais.
Não podem esperar. Que
a poesia há de estar
outra vez, como no início,
antes e sobre tudo – eis
o sonho.
Ernesto Sábato
vem em meu auxílio para
dizer que só quem for
capaz de encarnar a utopia estará
qualificado para o combate decisivo,
o de recuperar o quanto de humanidade
houvermos perdido.
Os poetas resistem
bravamente. Temos nós,
cada um de nós, brasileiros,
uma terra a que pertencemos.
Os governos a tem espoliado
como algozes e a nós
sacrificado. Da Pátria,
temos agora uma dor. E poetas
perturbam a ordem.
Quem serão
esses jovens poetas daqui a
um tempo? Escreverão
ainda? Terão sido vencidos
pela vaidade? Acharão
que o mundo não merece
a sua obra? Ou terão
seguido escrevendo, porque não
podem deixar de fazê-lo
e não suportam antever
a tragédia sem cantar?
Muitos deixarão
de escrever, é comum.A
sobrevivência assim o
exige. Terão deixado
de ser aquilo que mais os impulsionava,
e que no entanto tiveram que
sufocar? Ou terão se
articulado a ponto de academias?
Receberão grande prêmios
ou um grande patrocínio?
Pois esse concerto lírico
é uma prova de que não
existe o maior poeta. Existem
poetas – e isso é
tudo. E nesse caso ser poeta
é ser maior. Não
que tudo, que a tudo não
conhecemos. Mas do que conhecemos
de menor.
Isso tem sido
a nossa salvação.
Sentimo-nos como se pertencêssemos
a um movimento de resistência.
Não estamos em frentes,
mas a luta é a da vida
e mais outra. No Brasil inteiro,
em alguma cidade que não
está nem no mapa, das
mãos de um peão
ou de uma adolescente está
surgindo a poesia e nada poderá
impedir que isso aconteça.
Nunca houve o que impedisse.
O selo Aboio
Livre deu guarida ao trabalho
de José Inácio
Vieira de Melo, cavaleiro, corcel
e dragão dos novos tempos,
nessa lida que não termina,
mais dura em tempos de miséria.
As quinze vozes do concerto
lírico, conforme o poeta
Aleilton Fonseca, que assinou
o prefácio, estão
desde já convocadas ao
trabalho de criação
como continuadores da poesia
baiana, podendo, ao mesmo tempo,
serem os seus renovadores, na
medida em que cada momento o
exija, como processo natural
da aventura lírica. Como
num lance de dados, o jogo desses
poetas está lançado.
Só a persistência
e a permanência de cada
um deles, no tempo, e sobretudo
na obras futuras, mostrarão
os acertos de suas escolhas,
seu caminhos, suas contribuições.
Cumpre-nos, como leitores atentos,
seguir as rotas particulares
de cada um desses viajores da
poesia.
Cumpre a eles seguir, já
que a poesia não abandona
seus eleitos.
Helena Ortiz
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