PARTICULARIDADES 1

Gilka Machado

Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.

Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua...
sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...

E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completa-te exposta à Volúpia do Vento!

 

Modigliani

 

SONETO DA POSSE


Ildásio Tavares

Amar é possuir. Não mais que o gozo
quero. Não sei porque desejas tanto
escravizar-me; escravizar-te. Quanto
menos me tens, mais me terás. Gostoso
é ser-me livre, alegre, escandaloso –
o peito aberto pra cantar meu canto;
os olhos claros pra ver todo encanto;
as mãos aladas, pássaros sem pouso.
Abre-me o corpo, vem, dá-me o teu vale,
e a esconsa flor que ocultas hesitante,
pois o que falo o falo sem que fale
em tom de amor. Quero vaivém, espasmo –
um corpo a corpo num só corpo palpitante,
dois no galope até o sol de um só orgasmo.

 

BONS TEMPOS ou SAUDOSA MALOCA

Leila Míccolis

Namoro antigo: titia
na sala bordava um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...

Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...

Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.

E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...

 

NO BALCÃO

Paul Verlaine

Juntas, elas olhavam voar as andorinhas:
Alva, cabelos negros uma, a outra loura
E rósea. Os penhoares finos de antiga renda
Ondulavam em torno delas, vaporosos.

Enquanto as duas, com langores de narcisos,
Fruíam com longos sorvos a emoção funda
Da noite e a alegria triste de serem fiéis,
subia a lua no céu, mole e redonda.

Úmidos braços cingindo as cinturas suaves
– Estranho par que de outros pares se apieda –,
Assim sonhavam, no balcão, as duas moças.

Atrás, ao fundo da alcova rica e sombria,
Realçada como um trono de melodrama,
Desfeita, cheia de odores, se abria a Cama.

 

MADEMOISELLE FURTA COR I

Armando Freitas Filho

Por esta fresta te espreito
Por esta fresta te desvendo

Por esta fresta
                                               cravo
sonda contra esponja,
e babo
                                               e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o seu corpo se entreabre:
porta e perna, caixa e coxa.

Por esta fenda
                                               tenda
de pele que se franze,
e rasga
                                   eu me adentro
feito de espera e de esperma:
e espremo –  te aperto –  e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por esta fresta me espreito
Por esta fenda me desvendo

 

 
 
 
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