As belas meninas pardas

Alda Lara
(Angola)

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.
Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos os dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, traz desenganos...

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?..., outros mundos?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...

 

Aceito as grandes palavras

Jorge de Lima

Aceito as grandes palavras eficazes
e os caminhos que Deus pôs diante de mim.
Aceito o sangue derramado se é necessário
para levantar o pobre.
(Minha meditação me queima, Senhor!
Mas me deixai falar para me desafogar).
Aceito a oração para mim e pra distribuí-la como pão
(Minha meditação me queima, dai-me água
para me dessedentar).
Aceito a não-importância da vida
(Senhor pegai minha mão para não me matar).
Aceito os dias com seus cinemas, seus bonds,
seus flirts, suas praias de banho, sua atualidade.
Mas deixa-me ver no meio dessa conturbação
o que está acima do tempo, o que é imutável.
Senhor estou cansado, quero descansar.

 


Alejandro Mahave

 

Eva

Gerardo Mello Mourão

Adormecera à beira do riacho
e o sonho e a flor dessa maçã
da primeira saudade – do primeiro desejo do mundo
habitavam seu sono.
Despertara – e dela despertaram
um tato uns olhos um perfume – e o véu
dos cabelos cobria as ancas
seios nunca vistos:
Eva bailava sobre chão de folhas
desde então
desde sono e sonho se incorpora sempre
ao homem sonhador o sortilégio
da primeira mulher
coisa e criatura e criadora
de seus tatos seus aromas – aflição e festa
de estrelas na pupila

 
 
 
poeta da vez
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