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A ARTE
DE PERDER (*)
Perder é uma
arte que temos de aprender:
o que se há de
fazer?
já nascemos com
a índole da perda!
Perde-se rios de coisas,
todo dia.
As palavras que não
dizemos na hora certa,
o beijo que deixamos para
depois.
Aceitamos de bom grado
o risco
De perder a chave e a
hora –
muito mais que isso é
a juventude que se foi.
As coisas se perdem nas
incertezas:
O olhara de quem vai na
contramão
O lugar onde vamos passara
as férias.
Uma vez perdi o binóculo
da infância,
depois a casa e o quintal
da avó
(o porão misterioso,
a mangueira assombrosa).
Perdi dois seios bonitos
na varanda,
Depois a sequência
do flerte arraigado
Do amor que era mais que
amor.
A você, quantas
vezes perdi,
sem jamais ganhar?
Quantas vezes perdi?!
(*) – paráfrase
do poema “Uma Arte”,
de Elizabeth Bishop, em
Poemas do Brasil, de Paulo
Henriques Brito, Companhia
das Letras, SP, l999.
As
Alvarengas
Joaquim Cardozo
"Tous
les chemins vont vers
la ville”
Verhaeren
As
alvarengas!
Ei-las que vão
e vem; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio.
Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho
cais do Apolo.
O sol das cinco ascende
um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie,
flor de Zongue.
Negros curvando os dorsos
nus
Impelem-nas ligeiras.
Vem de longe, dos campos
saqueados.
Onde é tenaz a
luta entre o Homem e a
Terra.
Trazendo, nos bojos negros.
Para a cidade.
A ignota riqueza que o
solo vencido abandona.
O latente rumor das florestas
despedaçadas.
A cidade
voragem.
É o Moloch, é
o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante
e sobre as casas.
As chaminés fumegam
e o vento alonga.
O passo de parafuso.
E lentas.
Vão seguindo, negras,
jogando, cansadas;
E seguindo-as também,
em curvas n’água
propagadas.
A dor da terra, o clamor
das raízes.
OBITUARIO
CON HURRAS
Mario
Benedetti
Vamos a festejarlo,
vengan todos
los inocentes
los damnificados
los que gritan de noche
los que sueñan
de día
los que sufen el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo, vengan
todos
el crápula se ha
muerto
se acabo el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabo para siembre
hurra
que vengan todos, vamos
a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino,
vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabo el monstruo
prócer
se acabo para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que este
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo, a
no volvernos flojos
a no olvidar que este
es un muerto de mierda.
A estátua
No
mar estava escrita uma
cidade.
Carlos Drummond de
Andrade
Augusto Sérgio
Bastos
Ser estátua
não é pedido
que se faça.
E ele nem pediu.
No banco
de pedra, de costas pro
mar,
pensa a cidade.
Acolhe pombos e aves agourentas.
No meio-dia
branco de luz,
o menino permanece sozinho.
O homem atrás dos
óculos
quer a sombra de amendoeiras.
Tem oitenta por cento
de ferro na alma.
Cem por cento de bronze
na eternidade.
Alguns
anos viveu no Rio de Janeiro,
serviu à cidade
que agora de nada lhe
serve.
Ao povo
sem memória,
a história mais
bonita,
comprida história
que não acaba mais.
Com nossos
corpos de vidro
Joana
Maria Guimarães
na palma
da manhã
nos encontramos a caminho
sem desejar maior intimidade
com a fonte de águas
mansas
próximos de um
jardim suspenso
sem recobrar coragem
para alcançar o
topo
nos restos de nós
mesmos
frente ao Belo volvemos
o olhar cego para outro
lado
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