| A um ausente
Carlos Drummond de Andrade
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que
rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas
na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo
nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação,
o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos
ousar
porque depois dele não há
nada?
Tenho razão para sentir saudade
de ti,
de nossa convivência em falas
camaradas,
simples apertar de mãos, nem
isso, voz
modulando sílabas conhecidas
e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da
amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito
de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Gian Berto Vanni
Fecundação
Gilka Machado
Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham
numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia
ser criatura.
Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.
Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me
toda a alma.
Tem teu mórbido
olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
|