A sopeira

na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado

Carlos Drummond de Andrade

Elisabeth Veiga

E como eu descascasse
pouco a pouco
as batatas desse amor
calando fundo
a imagem do que fora a eternidade
submersa no mundo,
e como eu divisasse entre batatas
a realidade crua
que a promessa
do olhar com sua chama iludia,
e como eu partilhasse
o não amor ou nunca
vi partida
entre as sopas do sonho uma imagem
que era ilusionismo
da própria vida,
e fui calando a vida dentro e fora
por ser já sem sabor qualquer mentira.
E como eu cozinhasse tão sozinha
essa estranha oferenda
de alquimia,
e cozinhasse tudo sem conviva
de espécie humana, percebia
no frio reflexo dos ladrilhos
que a minha solidão era eu mesma
que eu temperava e que eu remexia:
com uma receita de segredos sem valia.

 

Arara

Kátia Bento

Cortem-me a língua
se não vi um estilingue
na mão de um garoto.
Calem-me a boca
se a arma endiabrada
não era de aço
industrializada.
Delinqüente raça –
desde tenra idade
trama
ameaça.
Ó Babel-Sodoma
nada nada vale
tanto idioma.
Língua morta é esta
tentativa extrema
de fazer poema.
Quase dissidente
de também ser gente
corto-me a palavra.
Abracadabra –
viro ave braba – arara
arde minha pena
em brasa.


Ambiental

Bruno Candéas

As árvores
da´strada d Belém
cansaram
d ver passar
por seus corredores
seres a-dimensionados.
Gostariam
q o chão ruísse
surgissem
criaturas de níquel
elementares da terra
pra pUMverizar
os transeuntes
dest´inqueita locação.

 

Canção da moça de dezembro

Ruy Espinheira Filho

A moça dança comigo
nessa noite de dezembro.
Na sala onde giramos,
se alguém mais há não me lembro.

O ondear da moça ondeia
uma melodia ainda
mais doce que a da vitrola
– e uma alegria vinda

dessa doçura me envolve.
Cabe bem no meu abraço
esse perfume com que
vou girando e em que me abraso

em meus quinze anos (a moça
terá, talvez, dezessete
ou dezoito). Como a valsa,
a vida o melhor promete.

E já oferta: esse corpo
a cada instante mais perto.
Ao qual responde meu corpo,
como nunca antes desperto.

E a moça vai-me queimando
em seu hálito, afogando-me
nos cabelos, e nos olhos
luminosos siderando-me!

e eis que, dançando, saímos
além da sala e do tempo.
E dançando prosseguimos,
sempre que sopra dezembro,

nos mesmos giros suaves,
nos mesmos ledos enganos,
eu, o antigo rapaz,
e a moça, morta há treze anos.

 

 
 
 
poeta da vez
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