Olho de mocho

Mauro Gama

cogulas se que coagulam: púrpura
cogumelo cogumelas males mucos?
menina nina mina mina nenhuma
erétil magenta maga no nojo nula
pimenta manto o monte mantas os
furos feres minas: do you fuck
fucsina? me musgo o engasgo me es
mago mocho oprimida nesga de roxo
racha que vesga visgo raiz jazigo

 

Rondó da ronda noturna

q uanto +
p obre +
n egro
q uanto +
n egro +
a lvo
q uanto +
a lvo +
m orto
q uanto +

m orto +

Ricardo Aleixo

 


No roseiral

Sebastião Edson Macedo

o pêlo presilha graça
guirlanda de festa

lantejo

um susto conta

do terço espinho
vestido vinho

estampa

 

Homem-objeto

Christine Ferreira

ele vem
me beija
me cheira
deseja
me deixa
de um jeito que já nem sei

depois
se cansa
amansa
e eu
acesa
bem tesa
aperto de novo o play

 

 

 

Dalmo Saraiva

A verdade e a mentira
A fome e a fama.
O pó e o poder
Todos fazem parte
da miséria humana.

 

Tempo

Brasil Barreto

Eis aqui aquele
que se diz eterno,
nele nada é novo
nada é tão velho

por vezes ouço
seus passos
sacudindo guizos
avisando sua vinda.

Ele é o tempo,
senhor das eras
nele nada é novo
mas tudo se revela.

Sedução

Augusto Sérgio Bastos

Na sala vazia
penduro a parede nos quadros.
A mesa sobre a toalha
espera as frutas e o vinho.

Por baixo do abajur (lilás)
o retrato envolvendo a moldura.
Estão para cima os pés das cadeiras.

A porta estreita
abre-se no teto
rente ao rodapé.
Pelo chão espalham-se as janelas.

Alguma coisa permanece no lugar:
meus sapatos junto ao beija-flor
e o batom nos olhos da mulher.

Movimento perpétuo

Márcio-André

no cais do porto
ghindastes fumam a cinza do céu
fios e traços se cruzam postes
e pombos pisam abismos
num firmamento de concreto

viadutos trançados de aço
pesadas patas fincadas no asfalto
miríades massas telúricas
sólido vapor das eschinas
a noite tecida em trama negra
e massa de gente compondo o cenário
sob um sol de halogêneo

e as putas híbridas fêmeas meio
ferrugem meio cão

silício e silicone

anjos cidades
e meu sapato é memória cósmica

Ontem conheci mamãe

Itiberê Silveira

Ontem conheci minha mãe.
Ela chegou
Eu tinha chegado na casa dela.

Como ela sempre chegava na casa que era
dele e dela
como sempre, emburrada,
como sempre, empurrada.

 
 
 
poeta da vez
poeta da vez
editora da palavra