O velho conto

Alceu Wamosy

Este amor – mais que amor – este divino culto,
(porque amor é esperança e eu não tenho nenhuma)
viverá dentro de mim, perpetuamente oculto,
como um sol a esplender dentro de um véu de bruma.

Humilde, rojará na sombra do teu vulto,
(nessa sombra de luz que o teu gesto perfuma)
sofrendo a dor, mordendo o pó, tragando o insulto,
anônimo e feliz, incompreendido, em suma.

Fechada no torreão da tua indiferença,
calcando aos pés a flor desta paixão imensa,
hás de passar por mim, como a Dama de Arvers.


Hás de passar por mim, sem me ver ao teu lado,
alheia às tentações do crime e do pecado,
e sem nem suspeitar quem seja esta Mulher...

sinais

Álvaro Mendes

incapaz de escolher, paralisado
os sinais me comovem.
em fileira cerrada me prometem

o mundo

o mundo mudo
- lábios, seios, olhos, um fragmento
de música detritos, sonhos, ossos
oblíquos cintilando junto ao mar.
os sinais me exasperam: asas-
- pupilas no meu quarto.
o espaço que não tive eles povoam
de sombra resumida mas solícita
misturando secura e pesadelo:
calendário em vez do tempo
os dias sem distância
uma paisagem uma rocha um grito
filtrados pela mesma gelosia

 


Testamento do homem sensato

Carlos Pena Filho

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda,
Surgir uma lembrança desgarrada,
Ave que nasce e em vôo se arremeda,

Deixa-a pousar em teu silêncio, leve
Como se apenas fosse imaginada,
Como uma luz, mais que distante, breve.

 
 
 
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