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A SAGRAÇÃO
DO MITO
Para Foed Castro Chamma
José Inácio
Vieira de Melo
Eu preciso de um espelho:
olhar no fundo dos olhos
e ver bem dentro de mim:
quero beijar minha sombra,
ir no cerne dos desejos
e perceber cada célula
com o frenesi que sinto
na agulha do peitoral.
Sou a criação
de Deus:
barro que sonha odisséias.
Em minha íris o
Cosmo:
os mitos vestem meu nome.
Sou a pedra, o barro,
a lama.
Estrelas, soprem em mim
e assim estenderei meus
nomes nos passos do vento,
e em todo lugar o sonho
do Ser estará presente.
Sou o símbolo de
tudo,
um sonho sem fim, o mito.
Estou em frente ao espelho,
e em minha íris
o Cosmo:
todos os meus estilhaços,
todos os eus consagrados.
Dever
de casa
Adelmo
Oliveira
"Eu sou um velho
ator sem palco e sem platéia
Que traz no cais do peito
antigas ilusões
E do pouco que sabe interpreta
lições
De palhaço que
alegra os meninos da aldeia
Basta o
dia raiar pelas bandas
da aurora
- Levanta - bate a porta
- e vai ganhar a rua
- Tropeça no silêncio
em que flutua a lua
- Restos de solidão
caminhando lá fora
Esqueço a dor -
o espelho - as marcas
do meu rosto
- Produtos do salário
em que se paga o imposto
Cobrado pelo tempo e pelas
fantasias
Andarilho do vento atravessando
o acaso
Deixo a tarde no céu
- o meu relógio
atraso
E assim faço de
mim a profissão
dos dias"
CONSTATAÇÃO
Anibal
Beça ©
Chega um tempo em que
as nuvens não te
reconhecem.
Não digas nada.
Longe não deslindas
um som que te freqüentava.
Não aguces os ouvidos.
Na gruta passam por ti
como se te não
vissem
Não esfregues os
olhos.
Caminhas pela campina
e teus pés nada
sentem.
Não troques de
passo.
A palavra não é
mais dita, apenas lida
por outrem.
Não fales nada.
No universo transverso
desse tempo
Na contramão de
versos claudicantes
Ainda restam as mãos
para o incêndio
das horas.
ORGULHO
Enzo
Potel
Não
há troca.
É uma exposição
mútua
de tendas túmulos
presas
sal pérolas
sonhos secos
princípios.
Pronto.
Eu não te mudei.
Você não
me mudou.
Negócio fechado.
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