|
NA CABEÇA DO
CORVO
Alphonsus
de Guimaraens
Na mesa, quando em meio
à noite lenta
escrevo antes que o sono
me adormeça,
tenho o negro tinteiro
que a cabeça
de um corvo representa.
A contemplá-lo
mudamente fico
e numa dor atroz mais
me concentro:
e entreabrindo-lhe o grande
e fino bico,
meto-lhe a pena pela goela
a dentro.
E solitariamente, pouco
a pouco,
do bojo tiro a pena, rasa
em tinta...
E a minha mão,
que treme toda, pinta
versos próprios
de um louco.
E o aberto olhar vidrado
da funesta
ave que representa o meu
tinteiro,
vai-me seguindo a mão,
que corre lesta,
toda a tremer pelo papel
inteiro.
Dizem-me todos que atirar
eu devo
trevas em fora este agourento
corvo,
pois dele sangra o desespero
torvo
destes versos que escrevo.
A
outra perda
Augusto Sérgio
Bastos
No princípio e no fim, no vão do meio,
uma perda nomeia o meu caminho
e vai-se transformando em pedra, em veio,
deixando os meus lençóis em desalinho.
Gilberto Mendonça Teles (“A perda”)
No
princípio e no
fim, no vão do
meio,
te procuro e te quero mais e mais.
Em tudo que escrevi, tudo que leio,
no poema que fiz, sempre tu estás.
Uma
perda nomeia o meu caminho,
nos atalhos persigo a tua ausência.
Onde andarás? Não sei, nem adivinho.
Tudo agora é silêncio e reticência.
E
vai-se transformando em pedra, em veio,
meu coração partido. E a dor aperta.
Amor eterno? Não. Eu já não creio.
Deixando
os meus lençóis em desalinho
a noite se despede em hora aberta.
No fim tudo é princípio: estou sozinho.
O
ADOLESCENTE
Mário Quintana
A VIDA É TÃO BELA QUE CHEGA A DAR MEDO.
NÃO O MEDO QUE PARALISA E GELA,
ESTÁTUA SÚBITA,
MAS
ESSE MEDO FASCINANTE E FREMENTE DE CURIOSIDADE QUE FAZ
O JOVEM FELINO SEGUIR PARA A FRENTE FAREJANDO O VENTO
AO SAIR, A PRIMEIRA VEZ, DA GRUTA.
MEDO QUE OFUSCA: LUZ!
CUMPLICIMENTE,
AS FOLHAS CONTAM-TE UM SEGREDO
VELHO COMO O MUNDO
ADOLESCENTE, OLHA! A VIDA É NOVA...
A VIDA É NOVA E ANDA NUA
¬ VESTIDA APENAS COM O TEU DESEJO!
Fome e novelo
Vania Azamor
Como criar poemas se o que
emerge
são os guizos,
disfarçados de
canto, de uma serpente
invisível bem junto
de mim?
Como precisar seu bote
se me escapam meandros
e sítios de seu
perfume?
Nesta tarde estreita que
alastra prenúncios
e desfaz pistas
incendeio de alegria e
êxtase
adianto o tempo
e reconstruo um namoro
sem carne e curvas
febril perigoso
e escorregadio
como um penhasco.
O que assusta também
me embala
e envenena.
|