O hóspede
Afonso Félix de Souza
A estrada não tem retorno,
e ele, ele
que vem de um mundo há muito
esquecido
ou já desfeito em névoa,
em cinzas,
ele chega e sai a saudar os habitantes
da cidade (vazia?). Ele fala, fala.
Mas sua língua, que é
outra, tem o timbre
de línguas que não são
mais faladas
nem mesmo por fantasmas. E estranha
que não percebam, tão
perto, as paisagens
do mundo que esquecera ou se desfizera
e ele recria com olhos agora de criança.
Ele fala, fala, e estranham que não
traga
no bolso a passagem de volta (para
onde?).
A estrada não tem retorno,
e ele se encolhe
todo, como a desculpar-se (por estar
vivo?
Por ocupar um lugar no espaço?).
E se recolhe
a si, definitivamente hóspede
de si mesmo.
Lisboa:
aventuras
José
Paulo Paes
tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar à descarga
disparei um autoclisma
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
Incrível
André
Luiz Pinto
incrível
tua lembrança:
um leão
rasgando seda.
exponho
os pedaços do amor pela cama:
meia dúzia de anátemas;
enjôos
(o brinco de cetim)
post-mortem de livro:
sabes, incalculável,
a soma destes viés
(porque somas
mas não soletras).

Gian Berto Vanni |
O
TEU DEMÔNIO
Iracema
Macedo
O teu demônio
me segue
anos a fio
ele tece flores para mim
divide meu corpo em partes
Ele me culpa
acena feliz por trás
das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
eu aparo suas bordas seu rabo
seus chifres
O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça
no mercado
O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre
a minha boca
a febre sempre
O teu demônio vai embora
hoje
eu fujo dentro dele a galope
eu vivo dentro dele feito
um passarinho
feito uma coisa miúda
enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda
Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma
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