Preciso que me respondam
duas questões irrisórias:
com quantos seres anônimos
se manipula uma história?
E esses heróis vagabundos
são homens ou panos de fundo?
Leila Míccolis
Quatro
poemas de
A. Café-Gallo
FLUXO
Dia a dia, ano a ano,
entramos pelo cano.
ÉDIPO
Ano vem, ano vai,
e há sempre alguém
que mata o pai.
FÚNEBRE
As formigas
Minhas amigas
Comeram todas as minhas vigas.
PONTO DE VISTA
O inseto no teto
fita-me perplexo:
“O que quer esta besta
de ponta-cabeça?”
CREPUSCULAR
Plínio de Aguiar
Buscamos ser mais que
a praia
inutilmente.
Lemos Auden Pound Meirelles
e invejamos bêbados de tempo
aquele que observa o relógio.
Nada mais forte que
a praia
do Porto da Barra
nada. Nem mesmo o maiô preto
que se desmancharia
e te deixaria
nua no meu desejo, violado
de areia
e comentários de amigos
comigo sentados, paralisados.
Buscamos ser mais que
a praia,
mas estávamos numa teia, vermelha,
bombardeados de sol.
BALADA
DO ESPLANADA
Oswald de Andrade
Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes de ir
Pro meu hotel.
É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.
Eu qu’ria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel
Pra m’inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel
Mas não há
poesia
Num hotel
Mesmo sendo
‘Splanada
Ou Grand-Hotel
Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador
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