Rios do exílio
- 2
Lúcia Aizim
O que é um homem sem rio?
Se pequeno, na dureza do asfalto,
se transforma em homem nenhum.
O que é um homem sem rio
se sua infância não seguiu
a mesma trajetória
ou não conhece do menino a
história?
Um homem há de ter um rio,
da mais pura água
e levá-lo consigo, onde vá
ou fique.
Se esse rio puríssimo não
fora. Então,
buscá-lo ao lado. Nos alagados,
na fome,
no barro, no lodo, na sua tristeza
- no fundo, raiz de todos os rios.
O que é um homem sem rio?
Sem tê-lo, sem poder remetê-lo
aos amigos
já anoitecido ao lado da lua
tal qual pomba feita de nuvens.
O que é um homem sem rio?
Por isso, ainda que feito de ausência
há de ser sempre um rio - que
seu destino
é correr pelos sem começo
nem fim.
Por isso mais rio, mais real.
Não carece de barco, vela ou
remo
onde quer que navegue
vasto espaço
- e os caminhos são muitos
seu dono o aguarda,
desde rios e rios.
É aquele que subsiste,
aquele que gera suas próprias
formas
no seu próprio mar de lua crescente.
Então, o homem já não
sente a solidão.
Tem um rio e a possível nostalgia.
Santiago
Kátia
Maccés
Envelhecer é caminhar.
Cada passo, uma ruga,
um fio branco a mais,
uma dor nova que surge.
Urge descansar brevemente
e seguir adiante, estrada
à frente, desbravando
o nada que se ergue
em planícies insolentes.
Há paisagens
que custam
a passar, salteadores escondidos,
e amigos que acenam e apressam
o passo, e amores que esquecemos
nos abrigos, como um seixo no bolso.
Envelhecer é
caminhar.
Cada passo, uma ruga,
um fio branco a mais,
uma alegria imensurável.

Alejandro Mahave
- “Iinterno Confuso”
Pintura
acrílico, Gráfica
digital. 2004
Inspirado en la presencia espiritual
de la poeta Helena Ortiz
|
No sentido
da terra
Rodrigo Petronio
I
Se eu abro meu pulso para uma estrela
e a chuva
[ em coro vem arar meu dorso.
Se procedo líquido da boca
da madeira e por ela
[ canto o canto circular de um morto.
Se adentro sem pegadas o teu corpo
de vidro e
[ me comovo com a floração
das teclas.
O pólen fecunda a primavera.
Anjo volátil. Rosto
[ vascular talhado em pedra.
Ânfora sem coração
que acolhe em si o que Deus
[ recusa e a eternidade congela.
Falo do farol. Falo de um dardo de
folha. Que
[ desviando do alvo encontra a meta.
O rio regressa. A ave regressa. A
musculatura
[ lisa da lua trama flores convexas.
O campo revolve a ordem divina. Analfabeta.
A
[ ignorância nos protege de
sua luz que cega.
Não sou o guardião dessa
terra anônima. Apenas
[ nomeio o que a mão não
toca.
Encarno o que a lava não sonha.
E cumpro as
[ estações que nosso
olhar nos veda.
BASTA,
CORAÇÃO!
Luis Antonio
Cajazeira Ramos
Onde jaz, coração, meu
peito é morto.
Uma pétala pálida -
eis a pele.
Em ardências de vela esvai-se
o corpo.
Do porto inútil parte um sol
de neve.
Horizontalizaram-se
as ladeiras.
Os horizontes viram-se sem prumo.
Os fios desaliaram-se das teias.
O Deus de todos debandou do mundo.
Quanta lágrima
súbita? Nenhuma.
O mesmo pranto paira e espraia a bruma.
Mas o olhar sobra ao choro cego e
vê.
Nem sei se a vida vale
a flor que espreito.
Coração, tem-me à
força em dor sem jeito.
Eu morro de vergonha de você.
|