Poema
Maria-Mercè Marçal
Tradução de Ronald
Polito
Chocava o ovo da morte branca
sob a axila, perto do peito
e cegamente amamentava
a sombra da asa da noite.
Não chores por mim mãe
ao amanhecer.
Não chores por mim mãe,
chora comigo.
Rebentava a rosa monstruosa
botão de gelo
onde cresce o grito.
Mãe, não chores por
mim, mãe.
Não chores por mim mãe,
chora comigo.
Que o teu pranto trance com o meu
a rede
sob os meus pés vacilantes
no trapézio
onde me contorço
agarrada na mão do susto
da sombra.
Como a voz do castrado
que se eleva até ao excesso
da
falta.
Desde a perda que sangra
no canto cristalino como uma nascente.
A nascente primeira, mãe.