LACUNA
Luis Antonio Cajazeira Ramos
Só lembro que te amei, não do desejo
hoje impossível, improvável ontem
de tão distante em mim que tu te escondes
do abraço em carne viva do presente.
Lembrar de ti por nada não me aquece
a ponto de acender-te como chama.
E ficas, não vulcão, mas calcinado
idílio – já não danças em meu ventre.
E não lembro de ti nem mesmo agora.
o que me vem de ti não é ausência,
mas um vago qualquer, vez que não lembro
se foste mais que lábios contra lábios,
se foste pele a pele num só fôlego.
Já não lembro de ti. Vês que não lembro.
SENTIDOS
Eugênia Tabosa
Meus dedos
lentos
percorrendo
a medo
teu corpo
aberto
oferto.
Meus dedos
surpresos
soltando
o calor
o cheiro
de teu corpo
descoberto.
Meus dedos
olhos
trazendo
imagens
mensagens
ao meu corpo
trémulo.
Esqueci
teu nome
teu rosto
o quando
e o porquê
Só existes
em meus dedos

Helvio Lima
OUVE, MEU ANJO
Antonio Botto
Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
AVES SEM POUSO
Afonso Felix de Sousa
Percorro o território do teu corpo
e um ninho, um pouso busca a boca cega
salivando saliências e reentrâncias
que dás e negas, tão cheia de graça,
e és tão cheia de ninhos, só que pairas
em páramos que esboças pelo teto
quando descerro as portas que me trancam
o coração, e o coração já voa
também por outros páramos, por onde
como soltos no espaço nós soltamos
essas aves que em vão buscam um pouso.
ARTE DE AMAR
Manuel Bandeira
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
A UMA MULHER AMADA
Safo
Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.
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