Retro-retrato

Celina Portocarrero

Aos noventa contarei
que aos sessenta me casei,
aos quarenta engravidei,
dos trinta quero esquecer.
Com vinte e seis procriei,
com vinte e cinco também.
Aos vinte sobrevivi,
aos sete amadureci.
Nunca mais parei de ler,
desde que aos dois aprendi.
Dizem que, antes, nasci.

 

A CULPA

Vera Lúcia de Oliveira

o que é
a culpa?

senão a mão que
não existe mais
aguilhoando
o mesmo cão

senão o olho desse cão
que não existe
abocanhando
a mesma mão




 

Remate

Afonso Félix de Sousa

O meu silêncio é muito mais que um grito,
se em si preserva o sal que se desfez
num código vivido e não escrito.

Como o caos na expressão nem sempre omito
nem ponho em ordem peças de xadrez,
o meu silêncio é muito mais que um grito.

Como comigo estou sempre em conflito,
o que ao cantar revelo só tem vez
num código vivido e não escrito.

Como para eu galgar o mundo o rito
é feito de protestos e gaguez,
o meu silêncio é muito mais que um grito.

Como exibir-me de alma aberta evito
e me encubro de véus, fica a nudez
num código vivido e não escrito.

De tudo o que em palavras tenho dito
muito há de oculto e muito de mudez:
num código vivido e não escrito
o meu silêncio é muito mais que um grito.

 

 
 
 
poeta da vez
indicações: leia mais
editora da palavra