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DIÁLOGO
ALUCINADO
Elisabeth Veiga
Meu Deus, meu coração
estão espatifando:
chuva de confete velho:
desfesta.
Meu coração
na multidão
Todo ele cotovelos,
desaconchego
de ária no deserto,o
meu coração
tambor
saindo pela boca:
amontoado
sem som.
A minha fé está
com febre
(Se Deus não entender,
quem há-de?)
meu coração
é um tombo
no poço
de mim mesma,
esbugalhadamente lágrima,
navegação
de lembranças.
Os idos rangem
com a engrenagem fanhosa
de algum relógio
surrealista:
eu é que estou
um
esboço mudo no
alarido
em toda parte sem sentido.
É uma lamentação
horrível
e melada,
pode-se dizer.
Ou constatar:
ainda está respirando.
Qualquer ponto de vista
não me veste:
estou crua, no osso,
e a realidade
em tecnicolor
não é para
o meu bico.
Beijos.
Meu coração
explodiu:
varri para debaixo.
Vertical
Paula
Padilha
sobre mim uma noite inteira
nessa sexta-feira sem
bordas
lançada
sem me acompanhar
não sei habitar
esse tempo
a vida grande inacessível
depois
a lida a linha reta
o corrimão oferecido
quando
vertigem o mundo me escapa
MAC
MUNDO
Astrid
Cabral
Pelas esquinas
e estradas
brotam do império
tentáculos
em mac mesas e balcões
de comida programada.
Vestindo uniforme certo
carboidratos e proteínas
embalados em pacotes
de dobras formas medidas.
Fritas feitas pelos cortes
de exatas facas elétricas.
Ali mac bocas mastigam
o mac pão em padrão
fixo
de militares fatias.
Ali as mac bocas falam
marshmallows burgers
nuggets
pedem cokes gatorades
cantarolam happy birthdays
entre donald ducks
e mickeys.
Pragmáticas matemáticas
e aboliu-se o artesanal
as mínimas variações:
cor calor sabor e peso
mais preços fixos
previstos
na regra das estratégias
e dos mercantis ardis.
Mãos metálicas
nas fábricas
da indústria da
fome abolem
as mil imprevisões
do homem
e regalam à massa
anônima
a anestesiadas papilas
o produto sem magia
fruto de pressa e rotina.
E as bocas outrora bárbaras
sentem-se civilizadas
com o fim de canibais
reles hábitos ancestrais:
não mais peles
tripas línguas
orelhas joelhos coxinhas.
Sim, julgam-se promovidas
visceralmente engolidas
nas goelas do mac mundo
C
I R A N D A
Luis Antonio Cajazeira
Ramos
O ser
amado nunca vai embora,
mesmo que parta: o amor
a tudo marca
e fica inteiro, mesmo
que se parta
nas horas – não
se aparta e não
se evola.
Sua ausência é
presença em todo
aroma
que ora inflama um vulcão
de carne e brasa,
ora exala uma pétala
de calma,
ora sufoca o sopro e envolve
em sombra.
Um amor que se esgota
nas estrelas,
um que se vai na crina
das quimeras,
um que o luto seqüestra
e não mais livra
– os amores se vão.
Mas não se vão
uns por outros ocultos:
mão a mão,
eu amo cada amor que amei
na vida.
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