Hamletiano

Alcides Buss

A vida comprovadamente
continua. Basta olhar na janela
as árvores que se debruçam
sobre o rio. Ou ouvir
o ronco dos carros. Ou ainda
morder a própria língua.
Não sei porquê, porém,
tudo o que aí comprovadamente
está, parece às vezes ser
apenas uma lembrança triste.

Kátia Bento


felino de fino trato
o gato
faz da língua e do dente
escova e pente
e no zelo com o pêlo
passa o dia inteiro
diante do espelho


AS HORAS

Maria Dolores Wanderley

Guardiãs de um misterioso templo
onde habitam os homens,
são delicadas ninfas
indiferentes
ao sossego e ao infortúnio

precisas e minuciosas
prosseguem

sem

indagação

Ascendino Leite


Às vezes, o que faço?
Se me pergunto
já não sei.
e nisso acabo
Importunado
Mas se escrevo, oh! Oh!
Devo fazê-lo.
Vale dizer,
para ocultar-me


A CLARINETA DE CAROL P.

Não era a clarineta
da tela de Braque
desmontada
fragmentada
guardada
em silêncio
como uma imagem cubista.
A música escorria
do semblante da moça
molhando
a noite do museu.

Almandrade

 
 
 
poeta da vez
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