quatro poemas de Izacyl Guimarães Ferreira

IMPRECISÕES

1.

O que passou
e um dia foi presença,
encantada beleza
- aquela descoberta,
ou fosse aquele rosto.
Cristal de nostalgia
agora o que passava
e era matéria viva,
encantada certeza.
Mas distraída.

2.

O que será,
talvez o que seria
- deixassem outros deuses
que escolhêssemos: esse
encanto, essa riqueza
que tudo inventa.
Isso que passará
ou passaria.
Abstrata fantasia
que pode vir a ser.

3.

Mas o que é,
mas o que está passando
por esta breve ponte
encantatória e solta,
este ex-horizonte:
nisto eu me envolvo,
nestas águas fluindo,
material verdade
em que me vou perdendo
ou quase. Mas atento.

 

 

CERTA ILHA


Que lição extrair daquela ilha,
andei me perguntando.

Era uma ilha pequenina,
eu vi depois, de um avião
- estilhaçado relógio de areia
no friso da baía,
tão perto do horizonte
que dela mal se via.
Só seu menino ilhéu era menor.

Aluno intermitente
estudo sua forma
e indago seu sentido.
Consulto mapas, leio
a carta das marés
na escadaria azul.

Mínima estrela piscando
no mar noturno
ou verde à vista crescendo
no dia claro
a ilha ensina a distância.

Concentrada matéria
a ilha ensina a margem,
onde se aprende os limites do corpo,
o contorno do outro.

Ensina a solidão
da fruta, de uma flor,
a solidão do peixe,
a solidão do homem.

Ensina a liberdade,
essa infinita, incompleta lição.

Mas no colar de espelhos do arquipélago
a ilha ensina a comunhão.

MOMENTO NUM PARQUE

Anda a sombra sobre os riscos na pedra e
desaparece e retorna.
A areia cai de um seio noutro e volta a
cair repetidamente.
A corda se enrola e solta e
vai partindo o imensurável
entre números, grãos e mecanismos.
Assim no teu pulso o quartzo,
em tuas veias o prazo
enquanto o quando e o onde se concentram.


Essa alameda de palmas
leva ao centro do parque e a um chafariz,
a essa água em murmúrio,
a essa água que sobe e
cai e outra vez se eleva ininterrupta
e seu jorro é seu instante.
Como o sangue em tuas veias
sobre teus passos na alameda, as palmas,
junto à pedra marcada pelas sombras,
a areia infinita, o quartzo em teu pulso.

Entre as coisas


As coisas amanhecem claras.
Tão altamente iluminadas,
há nelas uma eternidade
possível e distante, mágica.

Desconhecem o medo, a fé,
um sentimento qualquer, breve
ou persistente, que as revele
vivas, mortais, talvez rebeldes.

As coisas anoitecem frias.
Somem na pátina sombria
a profundeza e a superfície,
a aparente força infinita.

E permanecem sempre sós
em sua natureza imóvel.
Entretanto seguem velozes
pela imensidão, como nós.

Assim desaparecem, mudas,
longínquas e alheias a tudo,
enquanto nossas almas, nuas,
combatem nas águas da dúvida.

 
 
 
poeta da vez
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