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lígia dabul

Lígia Dabul nasceu e vive no Rio de Janeiro.
Seus poemas estão em revistas e jornais literários,
folhetos e zines. É antropóloga, professora da
Universidade Federal Fluminense e faz pesquisas
em Antropologia da Arte. Tem diversos trabalhos
sobre o tema e em 2001 publicou o livro
Um percurso da pintura:
a produção de identidades de artista (Eduff)

 

Revisão da lua

Tive que deixá-lo no auge de sua paisagem
para poder ver mais uma vez.

A lua fazia farol com a luz do sol.
E logo abaixo se afogava dentro da luz
no mar em movimento.

Chove tudo.
Chove tanto.
Chove como homem
depois do incômodo
do mormaço. Goza
como vento denso
finalmente molha o suor.

A chuva que se estende em tempo ameno,
desconcentrado,

quero com a boca ainda toda aberta.

 

Primeira de maio

Primeiro de maio e abril
ainda agora.

Primeira vez da janela

relembro firmes trêmulas flâmulas,
siglas, broches, sentidos

e sinto sincera incompetência,
vida, sorte, sentida

por tudo em junho por deus
não mais agora:

desmaio o mês com a flanela.

Último apito e reprise.
Tumulto na zaga.
Torcida, lenta,
desorganizada.

Acessório

A pala (alvíssima)
da menina. A
pele cal
ma (palavra al
ma)

no registo.

A cela (d
ela)
toda
na vitrine.

Costume


Ela carregava o dia na rua
e o cara fez que mordia a outra.
Ao ver a cena preparou-se. Mas com aflição:
não agora.

Mais tarde, remexendo o serviço, mexendo no ralo,
as coisas se abriram naturalmente

como de costume ocorre com flores e asas
das aves quando chega o momento.

 

Luzes

Tarde a vitrola almofadas
inceso a escorrer almíscar
o primeiro bode em seda
gim gin limonada gin eu
queria apagar as luzes doeu
quando ele entrou em mim.


Foi tarde mas esclareci.

 

Amor

em um quê de nada
a ver se há
se houver
haverá
e

Comadrepérolas, haverá
linha que não se renda
em toalhas de mesas postas
grossas do boto em microondas,
no colar a toda
e prosa?

Comadrinhas: não há
porque leite na túrgida teta
– a aurora grassa à noite quando
aeronave aos ritmos turvam
os olhos acima, bem
acima de fetos e outros
passageiros.

 
 
 
poeta da vez
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