Passaporte

Jacinto Fabio Corrêa

Eu queria gostar de gatos
e mesmo dos ratos dos meus pesadelos.
Eu queria gostar de tecnologia
e mesmo da biologia que quase me manteve ginasial.
Mas dei de gostar dos galos
e mesmo dos halos dos sonhos mais obscuros.
Mas dei de gostar dos homens
e mesmo dos lobisomens menos atraentes do mundo.

Nada ao contrário
Tudo pelo contrário.

E então me faço
gato que desperta a manhã
computador que radiografa o esqueleto da lua.
Ou então me faço
galo que corteja telhados
homem que voa sem céu.

A poesia me permitiu o caos.

 

Cabotagem

Daniel Santos

lua suntuosa barca
entorna estanho
nas águas da travessia

ao chegar à outra margem
sua carga já minguante
será tarde, será dia

Canto intermitente

Lila Maia

Celebro uma ferocidade plena
Furo com os dedos teu peito nu
Parto que nem vento
e saio da boca do leão para a do lobo
Janeiro me trai feito sol
Tudo que podia brotar
não é flor

XXIII

Álvaro Miranda

Se é melancolia já nem sei...só sei
o nome desta noite que entra fina
pela fresta, janela que ilumina;
meus enganos, a noite os faz gemer...

Em silêncio, os amores apascentam,
nus, segredos de morte, incerta linha
sem margem nem umbral, vento ou carícia...
É o grão que não se explica, qualquer jeito

de uma palavra que o fogo transmuta,
conformação de abismo no mormaço
dos seus olhos, mulher que agora muda,

exausta, desolada, muito puta,
no desenlace sem palavra ou abraço:
silêncio e aceno...no claro da lua.

 

Tinto seco

Lau Siqueira

Querido diário. Vírgula.
Nova linha. Sou um cidadão do meu tempo. Ponto. Olho ao meu redor e vejo que a esperança habita somente os olhos de quem luta. Ponto. Vejo lampejos de medusa. Ponto.Vejo tudo pelo olhar que assusta. Ponto. Vejo a louca entre a viagem e a musa. Ponto. Ponto. Ponto. Vejo a vida difusa. Ponto. Inconclusa. Ponto. E ponto. Ponto.

 

Pavão vermelho

Sosígenes Costa

Ora, a alegria, este pavão vermelhoo,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama de lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho
os meus outros pavões foram-se embora.

Meio-dia

Orides Fontela

ao meio-dia a vida
é impossível

a luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito

a luz é demais para os homens.
(porém como o saberias
quando vieste à luz
de ti mesmo?)

meio-dia! meio-dia!
a vida é lúcida e impossível.

 
 
 
poeta da vez
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