capa sobre tela de
Mário Silésio

A edição nº 65 do panorama da palavra traz, primeiramente, convites para o lançamento e a leitura de três livros importantes: Fora da moldura, de Elida Escaciota, é o despertar de uma poetisa. Elida estréia sem se ater ao que deve ou não deve ser, ao que “funciona” ou não. Madura em relação à vida, manifesta suas indagações com bom humor no espírito e liberdade na forma. Está ainda pura em sua expressão, passa ao largo dos modismos e não hesita em relação ao que veio. Cantares, de Lucia Fonseca, é a volta de uma grande escritora pouco conhecida e de altíssimo timbre. E Poemas Caseiros/Poemas simples, de Jacinto Fábio Corrêa, oitavo e nono títulos casados, é a ratificação de um desejo desde cedo perseguido: criar, reunir, publicar sempre em edições artesanais e quase personalizadas, caminho de quem se conheceu desde sempre poeta.

FORA DA MOLDURA
Elida Escaciota
Dia 01/10/2007
A partir das 19h.
Armazém Digital Leblon
Shopping Rio Design
Av. Ataulfo de Paiva 270 - subsolo

 

CANTARES
Lucia Fonseca
Dia 24/10/2007
A partir das 19h
Livraria Argumento
Rua Dias Ferreira 41

No dia 2 de outubro, terça-feira, o poeta Jacinto Fabio Corrêa lança seus oitavo e nono livros numa só edição: Poemas caseiros/Poemas simples. Novamente apostando na linha artesanal, o volume chega ao leitor numa caixa de madeira e traz, em algumas páginas, pétalas de rosas e rendas como ilustrações. O lançamento será no Unibanco Arteplex Livraria (Praia de Botafogo, 316) a partir das 19 horas, com pequeno recital do poeta e convidados, entre eles Helena Ortiz, Adele Weber, Lila Maia e Maria Dolores Wanderley.

 
 

Antonioni não conheceu Antônio

Marcia Frazão

Se Antonioni tivesse conhecido Antônio, certamente teria apontado para ele a câmera e um foco de luz. Mas Antonioni vivia lá pras bandas de Roma e o Piauí era tão distante que podia-se mesmo dizer não passar de mera abstração geográfica. Assim, ignorado por Antonioni, Antônio seguiu a sua vida de astro anônimo, lascando suor na lavoura e chupando manga nas poucas horas vagas que tinha.

Aos domingos, Antônio vestia uma calça rota de linho e, sem camisa, caminhava léguas até o cinema. Não entrava. O dinheiro lhe era tão abstrato quanto o Piauí para Antonioni. Mas não se avexava e, reconhecido do próprio anonimato, sentava-se no banco da praça e assistia a um filme que só ele via.


Bandeira Tribuzi: o poeta provincial (1927-1977)

José Tribuzi Pinheiro Gomes, que usaria o nome literário de Bandeira Tribuzi, nasceu em São Luís do Maranhão no dia 2 de fevereiro de 1927. Filho de Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes, comerciante português, e Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes, brasileira descendente de italianos. Aos cinco anos de idade seguiu com os pais para Portugal. Pela vontade paterna seria um frade franciscano e para satisfazê-lo, apesar de não ter vocação sacerdotal, permaneceu nos educandários religiosos até a conclusão do Seminário Maior. Estudou nas cidades de Porto, Aveiro e Coimbra. Nessa última, em sua famosa Universidade, dedicou-se às Ciências Econômicas e Filosóficas.

Augusto Sérgio Bastos

"Ao mesmo tempo que soube ser o intérprete das grandes angústias humanas no ritmo de seus poemas, Tribuzi foi a voz de seu povo e de sua província, com um modo de ser genuinamente maranhense.

Já acentuei que não devemos confundir, nos escritores da província, os provincianos e os provinciais. Os primeiros só existem em função da província, ao passo que os segundos têm a dimensão universal embora vivam na Província, e a cantem, e a celebrem, e nela reconheçam o recanto do mundo que não trocariam por nenhum outro."

(Josué Montello. “O legado literário de Bandeira Tribuzi”. In: Tribuzi, Bandeira. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1979.)

poesia sempre

poemas de

Ayrton Pereira da Silva . Célia Maria Maciel
Lara de Lemos

António José Queirós . Idea Vilariño
Natália Correia . Eliakin Rufino

Helena Ortiz . Fiama Hasse Pais Brandão
Torquato Neto . Augusto Sérgio Bastos

Jeová Santana

André Heller

poesia

A ARTE DE FAZER RENDER O BOM

Dona Leonor

Noutro dia, dei um pulinho aqui na casa de Zenóbia para aprender como se faz uma sobremesa que ela chama de “Feitiço de Morango”. Uma delícia! Já havia recebido a receita, mas não atinei, alguma coisa sempre desandava. Então, a prestimosa amiga ficou de me ensinar.

Passamos a tarde toda no lesco-lesco da cozinha. Não que a tal sobremesa demandasse conhecimentos de mestre-cuca. Não, nada disso. Demoramos, mas foi de propósito, pra repartirmos o bom do arrastar das horas, aquele descompromisso de quase-irmãs sem maridos nem filhos e que podiam, assim, se dar ao luxo da vadiagem. Coisa melhor? Ah, não há! Ainda mais que ganhamos intimidade, em virtude de quase quatro décadas de vizinhança.

 

mais crônica

A JUVENTUDE DO CENTAURO

IZACYL GUIMARÃES FERREIRA

O nome do livro é "A infância do centauro", do jovem ainda( pois não está na faixa dos quarenta, que se costuma chamar de"meia idade") poeta José Inácio Vieira de Melo.

Um livro que tem na contracapa as palavras de Gerardo Mello Mourão e nas orelhas saudações de nomes como Lêdo Ivo e Ruy Espinheira Filho, entre outros ilustres leitores escritores (essa raça perigosa dos que estão em ambos os lados dos espelhos), não requer mais recomendações, que todas serão supérfluas.

E veja-se ainda a lista de sua fortuna crítica, com dezenas de entradas, entre as quais me descubro entre celebridades.

crítica

Tropa de Elite

Mariel Reis

A iluminação da rua é precária. A casa está a duzentos metros. O telhado baixo. A pequena varanda com a lâmpada emitindo uma coloração amarela, rodeada por uma nuvem de cupins, a sonolência do cachorro que não liga para a minha aproximação, o barulho de um televisor ligado na casa vizinha, indicando que é hora da novela, talvez à das oito, porque uma menina começa a berrar “Eu quero ser a Bebel, mãe! Eu quero ser a Bebel!”. E imagino a cena: a menina de pé em cima da mesa, com as mãos na cadeira, rebolativa, como se estivesse no palco de um baile funk. A mãe briga. A menina se esgoela. Caminho com mais pressa, já é tarde. Não recordo bem o endereço da casa. Só o aspecto acanhado da construção. A figura de Adagoberto espalhada na cadeira de rodas, com uma barriga enorme e uma barba que acompanha o volume do corpo, não lembra em nada o policial da fotografia: bonito, forte e esperto. Tudo isso flutua na minha memória.


conto

Adele Weber

A POÉTICA DO SILÊNCIO

Adele Weber é paulista, arquiteta por formação e começou sua carreira poética participando da antologia Caixa de Prismas, em 1992. Em 1993 publicou pela UERJ seu primeiro livro individual Aço e Osso. Em 1994 recebeu o Prêmio Stanislaw e, em 1995 a menção honrosa especial na mesma Premiação. Um ano depois publicou o segundo livro Cordas de amarrar o tempo. Em 1998 e em 2006 teve poemas publicados nos números 9 e 24 da revista Poesia sempre. Lançou em 2003 Tipos de rua e alguns recados participando do grupo de poesia Letra Itinerante e em 2005 Fragmentos de Eliot, seu quarto livro.

Da série (...não pode nem fumar um baseado?)

Helena Ortiz

Henrique trabalha o dia todo
pra pagar a pensão da ex-mulher,
manter a atual e os filhos das duas
Henrique sai do trabalho e vai beber
com uma moça que acaba de conhecer

Henrique
não pode nem fumar um baseado?

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