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| A edição
64 (número de triste
lembrança) vem
marcada por vários
acontecimentos que se
sucederam no período,
principalmente o desastre
aéreo do dia 17
de julho que mais uma
vez tocou fundo os brasileiros,
muito mais do que as mortes
anônimas dos pobres
no sitiado Complexo do
Alemão, dos quais
a mídia não
mais se ocupou, desde
que aconteceu o acidente
fatídico. Todos
querem paz e justiça,
mas os governos, com o
nosso aval, trabalham
para a injustiça
e a guerra.

Joana
Maria Guimarães
(1925-2007)
Conheci
Joana Maria em 1997, quando
freqüentávamos
a oficina de Suzana Vargas
na Estação
das Letras. Chamava a
atenção,
de pronto, a mulher bonita
e discreta, enérgica
e convincente. Séria,
não se abria muito
para ninguém, mas
era ávida para
as coisas novas que a
fascinavam, ligadas à
poesia, a que se dedicou,
não sei se depois
que ficou viúva
ou depois que se aposentou.
Conheci-a na segunda metade
da vida, e é desse
tempo tudo o que sei dela.
Nunca lhe perguntei a
idade, e agora que partiu
deste mundo, aos 82 (agora
sei), me dou conta que
aos 70 era uma jovem,
e lá se vão
10 anos de amizade.
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| Vestibular
- O devorador de calendários
Alcir
Henrique da Costa
Mãe
cutuca, Aderbal pula da
cama. Tonto, não
sabe onde está.
O corpo lhe dói,
cada osso. Mas Aderbal
sabe que tem que estudar,
e para estudar tem que
trabalhar com as duas
bacias: a de alumínio
e a do corpo, que se encaixam
como obra de deus. O sol
forte queima as areias
dos desertos e deixa alvas,
tinindo, as roupas dos
clientes. Sem Aderbal,
é tão difícil
cumprir as tarefas...
A mãe lamenta,
mas não tem saída
“Tenho eu mesma
que levar e buscar as
coisas.” Ele me
ajuda tanto que não
posso negar a importância,
para ele, desse tal de
Vestibular. Mas que eu
acho bobagem tudo isso,
eu acho.”
Mulher
esmirrada, conversa com
ela mesma quando as outras
entoam o seu canto. Ali,
todos os homens partiram
para cidades grandes.
Deixaram as mulheres sozinhas
com as crianças,
seus sonhos e a rotina
— E o vestibular?
Implacável, cada
vez mais perto, é
igual ao leviatã
que vem chegando e emagrecendo
os meses já cada
vez menores. Sabe-se,
isso sim, que aquele que
está na espreita
é o devorador de
calendários. O
que torna o tempo pedaços
de tempo, os meses cada
vez mais colados aos seguintes.
Outubro já é
novembro e novembro é
final de dezembro. Pobre
mãe do Aderbal,
vivendo todos os dias
a solidão dos seus
dias: lava, quara, engoma,
passa. Meu Deus, perdão.
Não sou Cristo,
pai, e até a ele
lhe foi dado o direito
da dúvida, Me mato?
Não!! Por quê?!
Porque Aderbal segura
sempre a minha mão.
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| Tomás
Antônio Gonzaga:
o Dirceu de Marília
(1744-1810)
Tomás
Antônio Gonzaga,
um dos ícones do
Arcadismo brasileiro,
nasceu em 11 de agosto
de 1744, na cidade do
Porto, Portugal. Era filho
do Dr. João Bernardo
Gonzaga, brasileiro, advogado,
funcionário público,
e de D. Tomásia
Clarque Gonzaga, portuense,
filha de ingleses. Antes
de completar um ano de
idade, o menino Tomás
ficou órfão
de mãe.
Veio
para o Brasil, em 1751,
acompanhando o pai, que
havia sido nomeado ouvidor-geral
em Pernambuco, onde residiram
no Recife. Depois foram
para a Bahia. Em Salvador,
estudou no Colégio
dos Jesuítas. Aos
17 anos, voltou para Portugal.
No ano seguinte matriculou-se
na Universidade de Coimbra,
onde estudaria Direito,
e seguiria a trilha do
pai, nessa época
já desembargador
no Porto e homem de confiança
do marquês de Pombal,
político de grande
influência na Corte..
Augusto
Sérgio Bastos
23/04/2007
"Sem
grandes vôos filosóficos
ou temática arrojada,
a poesia de Gonzaga, como
a de seus demais companheiros
de escola, valoriza-se
através da forma,
onde melhor se evidencia
seu engenho poético,
que é — repetimos
aqui —, essencialmente
português, apesar
das influências
que recebeu o autor não
só do ambiente
mineiro, mas também
das modinhas baianas que
ouviu na juventude em
Salvador. Para Rodrigues
Lapa, por exemplo, a obra
de Gonzaga, "no que
ela tem de mais profundo
e certamente mais duradouro,
é a viva concretização
do ideal familiar e burguês
para que tendiam os espíritos
do século XVIII".
Isto não impede,
todavia, como agudamente
observa Antonio Candido
em sua Formação
da Literatura Brasileira,
que Gonzaga seja "um
dos sete ou oito poetas
que trouxeram alguma coisa
à nossa visão
de mundo; e, nas literaturas
românticas do tempo,
forma, sem deslustre,
ao lado de um Bocage".
Ivan Junqueira.
Prefácio. In: Gonzaga,
Tomás
Antônio. Marília
de Dirceu. Texto
estabelecido e anotado
por Sérgio Pachá.
Rio de Janeiro: Academia
Brasileira de Letras,
2001. (Coleção
Afrânio Peixoto)
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poesia
sempre |
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| poemas
de
Ricardo Tomé
. Darcy F. Denófrio
Lucas Viriato . Aricy
Curvello
Bruno Candéas
. Joaquim Branco
Maria Teresa Horta . Natália
Correia
Vítor
Oliveira Jorge . Murilo
Mendes
Belmiro Braga
. Amélia Alves
Olga Guevara
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poesia |
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| UM
VISITANTE NOTURNO
Dona
Leonor
As nuvens
de junho me enroscaram
numa redoma quase medieval
e, se me chamam para sair,
para dar uma voltinha
na esquina, me enrosco
no edredom com um bocejo
que tem a maior circunferência
deste mundo.
Ah,
não quero nada
com ninguém; pelo
menos, até o fim
deste inverno tropical
porque, se não
aproveitar agora, babau!,
logo o sol vencerá
e não terei mais
disposição
para a leitura nem para
o pensamento.
Sim,
gosto de ler, e muito!
E, quando leio, parece
que a casa toda respeita
esse meu particular momento
de introspecção.
Nem a mobília estala
com a habitual regularidade.
Nada se move para não
me atrapalhar.
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| mais
crônica |
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| O
PAUPERISMO DA LITERATURA
BRASILEIRA
Lázaro
Barreto
Na entrevista
que concedeu ao jornal
POESIA VIVA (Rio, Agosto,
1997), Antonio Carlos
Secchin falava sobre o
pauperismo que se abateu
sobre a literatura brasileira:
“as noites de autógrafos
se transformam em rituais
simultâneos de batismo
e óbito de um livro,
que, fora dali, não
será mais visto
em lugar nenhum”.
Houve
um momento de festa com
a publicação
dos livros de Caetano
Veloso, que agora se alinha
na vanguarda livresca,
onde já brilham
os nomes de Chico Buarque,
Paulo Coelho, Jô
Soares, José Sarney,
Chico Anísio. Quando
surgirão os portentos
de Roberto Carlos, Pelé,
Antônio Fagundes,
Fernanda Montenegro? Por
falta de astros e estrelas
não é que
a literatura brasileira
vai deixar de resplandecer.
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|
crítica
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| Joana
Maria Guimarães
(1925-2007)
A
POÉTICA DO SILÊNCIO
Após
algumas passagens por
coletâneas de literatura,
Joana Maria Guimarães,
com seu primeiro livro
solo, Campo de Pouso,
finalmente aterrissa no
flutuante cenário
da poesia brasileira contemporânea.
Se, em outra ocasião,
foi Cecília Meireles
quem nos lembrou que as
palavras voam / às
vezes pousam, hoje
é Joana Maria quem
nos prova que as palavras
permanecem a voar, mesmo
quando em pouso.
Poder-se-ia
dizer que a fanopéia
de Joana Maria Guimarães
(conforme classificaria
Ezra Pound, autor epigrafado
no livro, o verso imagético)
é um convite a
uma poética do
silêncio, para além
das imagens apontadas
pela palavra. Avessa ao
jogo pelo jogo, a autora
cultiva uma poesia não
derramada, enxuta e predominantemente
visual, assim sugerida
já no primeiro
poema do livro, “O
engenheiro”, em
que faz uma não
gratuita alusão
ao poeta João Cabral
de Melo Neto: constrói
o poema / de carnadura
mineral / diz um canto
/ lavado.
Igor
Fagundes
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