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| O
MORCEGO
Eugenio
Montale
Por
volta da meia-noite, estava
o homem para apagar a
luz quando uma sombra
flutuante e sinistra,
um borrão nas paredes,
um ziguezague rápido
como o relâmpago
passou sobre a sua cabeça,
desaparecendo depois em
direção
à cortina que tapava
o lavatório. Ouviu-se
de súbito um grito
estridente.
– Um morcego! –
berrava ela torcendo-se
de horror. – Que
espécie de hotel
é este para onde
você me trouxe?
Põe esse animal
lá fora, põe
fora!
Berrava debaixo dos lençóis,
com medo de ser tocada
por aquele vôo imundo.
As suas palavras eram
surdas e convulsas; sugeria
que se lhe desse caça
com um pau, com uma sombrinha,
tendo a janela aberta
e a lâmpada apagada.
Talvez a atração
da luz exterior, quem
sabe...
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| Qorpo-Santo:
um precursor do modernismo
- (1829-1883)
José
Joaquim de Campos Leão,
auto-apelidado Qorpo-Santo,
nasceu em 19 de abril
de 1829, na Vila do Triunfo,
Rio Grande do Sul. Escolheu
o pseudônimo aos
34 anos, quando acreditava
estar imbuído de
missão divina,
passando a viver afastado
das mulheres. Filho de
Miguel José de
Campos e Joaquina Maria
do Nascimento. Com dez
anos ficou órfão
de pai, vítima
de emboscada em razão
de episódios que
marcaram a Guerra dos
Farrapos. A seguir, o
jovem foi para Porto Alegre
estudar e trabalhar no
comércio.
Em 1850,
habilitou-se pela primeira
vez para o magistério
público, passando
a exercer o cargo de professor
de primeiras letras. Logo
adquiriu o grau de mestre.
Fundou um grupo de teatro
amador. Começou
a escrever para jornais
da província.
Augusto
Sérgio Bastos
23/04/2007
“Se
nos fosse dado conhecer
o sentido de algumas obras
que nasceram do descompasso
entre o autor e seu tempo,
obras que, remando contra
a maré, afastaram-se
das diretrizes predominantes
do ambiente literário
a que pertenciam, provavelmente
os textos do gaúcho
Qorpo-Santo mereceriam
destaque em uma vertente
“fora do esquadro”,
que desde a poesia picaresca
de Gregório de
Matos fornece dados para
a formação
de uma tradição
caracterizada pelas vias
da negatividade e da desconstrução,
ganhando registro em alguns
autores responsáveis
pela renovação
da escrita literária
brasileira em momentos
distintos da sua formação.
"
(Denise
Espírito Santo.
“A poesia nonsense
de Qorpo-Santo”.
In: Qorpo-Santo. Poemas.
Organização
de Denise Espírito
Santo. Rio de Janeiro:
Contra Capa Livraria,
2000)
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poesia
sempre |
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| poemas
de
Elisabeth Veiga .
Paula Padilha
Astrid Cabral . Luis
Antonio Cajazeira Ramos
José Inácio
Vieira de Melo .
Adelmo Oliveira
Anibal Beça . Enzo
Potel
Héctor
Rosales . Saúl
Ibargoyen
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poesia |
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| FLAMBA
NA AURORA ESSA QUE DORME
COM O REI
Dona
Leonor
Era manhã
ainda menina e despertei
subitamente fulva como
uma dessas dissolutas
que aguardam no catre
a visita do amante.
Mas,
qual! As mechas ruivas
que me desciam pela testa
vinham de reflexos do
quintal, da rua, de onde
alguém parecia
me espreitar.
Tornei-me
arisca como a corça
na premonição
do próprio abate,
mas sem medo. E esse simples
detalhe não me
fazia caça, mas
devassa.
Por
isso, não houve
sobressalto quando vi
um grande vulto forçando
a vidraça do quarto.
Quando ela se quebrou,
afinal, e antes mesmo
de divisar quem avançava
absoluto, soltei os cabelos
e empinei o busto com
uma audácia que
desconhecia em mim.
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| mais
crônica |
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 |
| A
SUPOSTA INFERIORIDADE
Joaquim
Branco
CAMUS,
Albert. O avesso e o direito.
Trad.Valerie Rumjanek.
Rio de Janeiro.
Editora Record.
“Eu
vivia na adversidade,
mas, também,
numa espécie
de gozo. Sentia em mim
forças infinitas:
bastava, apenas, encontrar
seu ponto de aplicação.
Não era a miséria
que colocava barreiras
a essas forças:
na África, o
mar e o sol nada custam.
A barreira está
mais nos preconceitos
ou na burrice”.
Há certos artigos,
poemas e trechos de livros
que gostaríamos
que todo mundo lesse,
e nessa vontade às
vezes os levamos aos amigos
mais interessados.
Um desses textos que sempre
me vêm à
mente intitula-se “Sobre
o óbvio”,
e foi escrito por Darcy
Ribeiro na revista Civilização
Brasileira no final dos
70. Nele, Darcy dá
uma aula de inteligência
e massacra a velha tirania
dominante que coloca a
nós, sul-americanos,
mestiços e descendentes
de portugueses, como supostamente
inferiores aos nobres
habitantes do hemisfério
norte. Nosso antropólogo
comenta e desmoraliza
a balela de que, se tivéssemos
sido colonizados por ingleses,
alemães ou outra
raça “superior”,
estaríamos hoje
em pé de igualdade
com os norte-americanos.
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|
crítica
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| Lígia
Dabul
Lígia
Dabul nasceu
e vive no Rio. Publicou
o livro de poemas Som
(Editora Bem-Te-Vi, 2005).
Tem poemas em revistas,
jornais, folhetos e zines
impressos e virtuais.
É antropóloga
e faz pesquisas em Antropologia
da Arte. Publicou o livro
Um percurso da pintura,
etnografia sobre a constituição
de carreiras artísticas
em um ambiente de arte
contemporânea. Trabalha
na Universidade Federal
Fluminense, no Gragoatá,
em Niterói, Rio
de Janeiro.
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| COCA
GELADA
Helena
Ortiz
A
imprensa noticiou
que pegaram cocaína
dentro de pedaços
de carne congelada.
Há três
anos lia todos
os jornais pensando
que um dia ia
aparecer. Há
três anos
espero por isso
sem saber no quê
vai dar. Mas espero
bem longe de tudo,
numa praiazinha
pequena com padaria,
restaurante barato
e gente calma;
pescadores, pequenos
comerciantes poucos
carros e bêbados
conhecidos.
Comprei um terreno
e construí
uma casa como
nunca pensei que
teria, embora
sonhasse com ela:
embaixo sala grande,
cozinha nos fundos,
janela para a
lagoa; em cima
um quarto enorme,
janelas para todos
os lados. O banheiro
é envidraçado
e dá pro
mato. Tenho aqui
uma horta, um
pé de manga
e outro de maracujá
.
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| mais
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