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Tentativa
Paulo
Rogério Diniz
Quatro
narrativas atrás ou adiante perceberam e se tornaram
inúteis, acompanharam e ficaram sórdidos, uma
estupidez.
E
assim, no meio desta coisa toda e, parcialmente estranhos, olharam
aquele relógio parado, há trinta anos naquela
parede azul ao lado da cortina escura de veludo grená, oito
horas, manhã gelada, ano passado, por aqui mesmo.
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Assim ficou melhor pra todo mundo
Wander
Pirolli
Um mulato
enxuto fazia a linha de ônibus aqui do bairro. Tinha o cabelo
de brilhantina, bigodinho, um dente de ouro e os lábios
rasgados. Simpatizava com ele. Sentava sempre na frente. Volta e meia
virava e sorria pra mim com seu bigodinho e aquela boca. Logo a gente
começou a conversar. Ele falava e ria com seu dente de ouro.
Às vezes eu ia até o ponto final. Comprava pra
mim laranja na bitaca, me deu um pacote de bala, me contou que era
casado, tinha três filhos. A menina mais velha combinava com
minha idade. Um dia ele largou o serviço mais cedo, tava
quase escurecendo, e foi andando na frente e eu atrás. A
gente não tinha combinado nada. Só falou a hora
que ia sair da garagem. E eu tava lá esperando. Olhou pra
mim com aquela boca rasgada e o bigodinho fino e foi andando. Vi o
jornal dobrado no bolso dele e sabia para o que era. Sabia, sim. Quando
chegamos no campo de futebol, ficou parado. Acho que ele tava com um
pouco de receio por causa dos meus catorze anos, ou talvez por causa de
pai, que era conhecido dele. Aí eu entrei na frente, segui a
trilha e deitei na grama e falei "vem logo". Ele se chamava Davidson,
um nome engraçado, me fazia rir.
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| Afonso
Felix de Sousa: um poeta
aos pés de Deus
(1925-2002)
"Aqui estou, um
pássaro exilado’
é o primeiro verso
do primeiro poema do primeiro
livro de Afonso Felix
de Sousa e já sinaliza,
de certa forma, as três
grandes direções
que sua poesia iria perseguir.
De um lado o ‘estar
aqui’ sublinha o
pertencimento a um espaço;
de outro o ‘pássaro’
é símbolo
e repositório imemorial
do lirismo; finalmente
o ‘exílio’
aponta a perda ou a fratura
de uma unidade primordial,
que apenas a fé
na transcendência
promete recompor. Telúrica,
lírica e mística
? assim é a poesia
de Afonso Felix de Sousa.
A terra, a mulher e o
divino formam o eixo em
torno do qual gira a criação
de Afonso.”
(Antonio
Carlos Secchin.
“A poesia de Afonso
Felix de Sousa”.
In: Antonio Carlos
Secchin. Escritos sobre
poesia & alguma ficção.
Rio de Janeiro: EdUERJ,
2003)
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poesia
sempre |
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poemas de
Lúcia
Fonseca
Alphonsus
de Guimaraens . Augusto Sérgio Bastos
Mário Quintana
. Vania Azamor
Bruno Serrano . Jorge
Montealegre . Sergio Rodríguez Saavedra
Mario García . Sergio Ojeda
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poesia |
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PELOS MAIS SIMPLES GESTOS, AGRADEÇO A DEUS
uma
crônica de Dona Leonor
Acordo,
às vezes, com vontades que nem te conto. Se o sol ainda
não raiou, tenho ímpetos de tomar uma chuveirada de
água fria. É ótimo para reorganizar o esqueleto.
Aí, dou umas sacudidelas, solto uns guinchos e desando a rir
sozinha de pura satisfação de mim com a boba que eu sou.
Depois, comadre,
abro a porta dos fundos e o primeiro espectro de luz adentra pelos
azulejos da cozinha com a solenidade de uma noiva. As rolinhas
já estão esperando lá fora e lhes atiro a rapa de
arroz que sobrou da janta. Expeditas, ligeirinhas, amontoam-se umas
sobre as outras na disputa pelos grãos.
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mais crônica
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A SUPOSTA INFERIORIDADE
Joaquim
Branco
CAMUS,
Albert. O avesso e o direito.
Trad.Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro.
Editora Record.
“Eu
vivia na adversidade, mas, também, numa espécie
de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas,
encontrar
seu ponto de aplicação. Não era a
miséria que colocava barreiras a essas forças: na
África, o mar e o sol nada custam. A barreira
está mais nos preconceitos ou na burrice”.
Há certos artigos, poemas e trechos de livros que
gostaríamos que todo mundo lesse, e nessa vontade
às vezes os levamos aos amigos mais interessados.
Um desses textos que sempre me vêm à mente
intitula-se “Sobre o óbvio”, e foi
escrito por Darcy Ribeiro na revista Civilização
Brasileira no final dos 70. Nele, Darcy dá uma aula de
inteligência e massacra a velha tirania dominante que coloca
a nós, sul-americanos, mestiços e descendentes de
portugueses, como supostamente inferiores aos nobres habitantes do
hemisfério norte. Nosso antropólogo comenta e
desmoraliza a balela de que, se tivéssemos sido colonizados
por ingleses, alemães ou outra raça
“superior”, estaríamos hoje em
pé de igualdade com os norte-americanos.
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crítica
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A POESIA DE LUIS BACELLAR
"Se o Brasil não fosse um
arquipélago cultural, todos certamente conheceriam a poesia
do amazonense Luis Bacellar.
Nascido
em 1928, Luiz Bacellar cresceu na Manaus da decadência, da
vida
provinciana acanhada e retrógrada, da falta de perspectivas
para
a juventude. A inexistência de uma universidade (
contava-se apenas com faculdade de agronomia e de
direito)
levava ao êxodo grande número de jovens cujas
vocações não se coadunavam
com a oferta
restrita e que muitas vezes acabavam se radicando em outras paragens ao
concluir a formação profissional. Por
sorte, Luis
Bacellar, ainda adolescente (dos 11 aos 17 anos) cursou o
Colégio São Bento em São
Paulo,
além de mais tarde permanecer quatro anos no Rio
de
Janeiro como bolsista do Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia. Tais temporadas certamente
contribuíram
para suprir a falta de contato com a literatura que se produzia nos
grandes centros. Outro fator relevante na
promoção
do necessário intercâmbio com a vida
cultural
do resto da nação, foram as
duas caravanas de
jovens escritores amazonenses, viajando ao Sul do país em
1951
e ao Norte e Nordeste em 53. Valendo-se de todos os
tipos
de transporte e abertos à aventura e aos conhecimentos, o
grupo
travou contatos fecundos e decisivos com a juventude de
outros
estados. As conseqüências não tardaram."
Astrid
Cabral
“Três
séculos se passaram desde a partida de Bashô, e o
desafio
do reencontro e conciliação do ser humano com sua
essência e o eterno persistem. Luiz Bacellar faz parte dessa
linhagem de poetas comprometidos com a revelação
dos
mistérios do mundo, com a essencialidade das coisas e dos
seres.
Tendo na musicalidade uma de suas marcas definidoras, sua poesia
é prenhe de imagens, de ressonâncias
filosóficas e
espirituais. A acuidade no tratamento dos temas e apuro da
linguagem são expressivos da excelência
do seu fazer
poético.”
(Tenório
Telles.
Professor de literatura brasileira e ensaísta)
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