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| Para celebrar
a 60ª edição,
o panorama da palavra dedica
aos seus leitores, antigos e
sempre novos; novos, e desde
sempre amigos, um poema do grande
poeta brasileiro Jorge de Lima.
Dirá
muito mais do que se falássemos
sobre o contexto histórico,
a histeria mundial, as eleições,
as ilusões – o
que aliás é o
que a poesia sempre faz quando
se deixa revelar.
Parabéns para você,
leitor, que está aí
– que nunca deixou de
estar – e para nós,
que estamos desde já
pensando na 61ª edição.
E o brinde
que o momento requer.
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Nado
livre
João
Gilberto Noll
Vivi tanto aquele dia que de mim escorreu
sangue ao deitar. Tinha tomado champanhe,
uma garrafa inteira de vodca, me arranhara
fundo pelos espinhos de umas plantas
que poderiam ser de um jardim, praça,
parque, sei lá! E, de repente,
estava sem bebida em casa. Então,
feito fosse uma garrafa de vinho,
acabei bebendo em pesadelo o que sobrara
de mim própria em meio a cólicas
-, sim, desidratando-me inteira, a
cabeça ruiva sobre os travesseiros,
os mesmos sobre os quais eu beijara
pouco antes uns lábios carnudos
que se
abriram passando uns goles de champanhe
para os meus, ávidos de sal.
Meu filho, um homem adolescente, me
acordou de manhã pedindo que
eu fizesse o lanche que ele já
estava atrasado pro colégio.
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SOBRE O
QUE ACONTECEU A UM DECANO DE SANTIAGO COM
DON ILLÁN, O GRANDE MAGO QUE VIVIA
EM TOLEDO
Infante Don Juan
Manuel
Outro dia o conde Lucanor
conversava com Patronio, seu conselheiro,
e contava-lhe uma coisa que lhe havia ocorrido
desta maneira:
"Patronio, veio um
homem me solicitar que o ajudasse em um
assunto e prometeu-me que faria por mim
tudo o que fosse em meu proveito e em minha
honra. E eu comecei a ajudá-lo da
melhor maneira que pude naquele assunto.
E antes que aquele negócio houvesse
realmente terminado, acreditando ele que
estivesse resolvido, chegou um momento em
que correspondia que ele fizesse uma coisa
por mim e eu lhe pedi que o fizesse, e ele
se recusou. E depois surgiu outra coisa
que ele podia fazer por mim, e novamente
ele se recusou; e assim o fez com tudo o
que lhe pedi que fizesse por mim. E aquele
assunto para o qual ele me pediu ajuda ainda
não está resolvido nem se
resolverá enquanto eu assim não
o quiser. Devido à confiança
que tenho no senhor e em seu entendimento,
peço-lhe que me aconselhe sobre o
que fazer neste caso.
“Senhor conde, disse
Patronio, para que faça a este respeito
o que deve, gostaria muito que soubesse
o que aconteceu a um decano de Santiago
com Don Illán, o grande mago que
vivia em Toledo.”
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Os botos
da Candelária
Diogo Henriques
Eu ando possuindo o dom
de permanecer imóvel e invisível
a maior parte do tempo. Amanheço
pedindo café e cigarros na porta
da lagarta que carrega os homens intrigantes
e inoculados do tal sistema que nunca entendi.
Conseguido o intento pelas quantas, cubro-me
novamente com minhas três capas-mantas
e bato asas para o bar de quinta mais próximo
onde bebo umas pingas e posso entornar alguns
mantras. No parapeito de qualquer rua fico
a lembrar lembranças sem deixar de
esquecer o que some na minha frente, como
você, que acabou de passar por aqui.
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Aqui estou
eu
Pedro Silva
Aqui estou eu.
Se me perguntassem, há
meia dúzia de meses atrás,
se estaria nesta situação,
ter-me-ia rido a bom rir e jogado na face
de outrem que era uma piada de muito mau
gosto.
É incrível
como era tão jovem há pouco
tempo atrás. Tinha vida, força,
sentia-me o maior. O maior, acreditam? Invencível.
imbatível. imortal!
Que vontade de sorrir,
no meio das lágrimas.
Imortal. Quão néscio
era.
Ninguém é
imortal. Até há quem diga
que Deus está a morrer.
Deus.
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O
QUE AZEDOU QUE VÁ PRO LIXO
uma crônica
de Dona Leonor
De vez em quando,
eu me pego com os padres da carismática.
Sempre fui temente a Deus, mas acontece
que Deus não tampa a boca de
ninguém nem acha que pensar
significa pecado, ofensa, coisa feia.
Não!
Por isso, penso.
Se ainda tenho neurônios, por
que não usá-los? Vai
daí que discordo de muitas
coisas. Por exemplo, essa idéia
de que os casais têm de permanecer
juntos o resto da vida. Isso só
pode ser coisa do capeta.
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| mais
crônica |
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José
Inácio Vieira de Melo
"Então,
temos um poeta apaixonado, de trinta
e cinco anos, que às vezes escreve
como um velho profeta e outras vezes
como um amante fornicador, um bode cobrindo
as suas cabras. Que se esbalda na generosidade,
sai dedicando o livro à metade
do mundo e os poemas à outra
metade pra que não se sinta órfã.
Um poeta que busca o equilíbrio
entre a linguagem popular e arcaica,
que ouviu e falou bom tempo da existência,
e que ainda é viva num Brasil
chamado inculto, e a linguagem chamada
culta, a dos poetas que leu nos livros,
com admiração e respeito.
Um poeta de economia perfeita em “Bênção”
e de abuso de metáforas em “Presépio”.
Que arranca de não sei que inconsciente
a lembrança das leiterias das
deusas mãe da Mesopotâmia,
no poema “Ave”, “longa
é a fila aos peitos dessa santa”.
Erótico em “Pastora”;
prosaico em “Espera”, “Então
vem, sol-girassol baiano, que este meu
canto alagoano é só teu”.
Belos poemas muitos, “A Sagração
do Pecado”, “Anjo da Guarda”,
“Decifração de Abismos”,
e quase todos. Um poeta que pulsa, que
já bebeu muito álcool,
morou no meio do mato, num quarto sem
banheiro e sem luz elétrica,
mas teimou em acertar a rota da vida
pelas estrelas."
Ronaldo Correia de
Brito
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| poeta
da vez |
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GONÇALVES
DIAS: o poeta nacional
(1823-1864)
Antônio
Gonçalves Dias nasceu em 10
de agosto de 1823, no sítio
Boa Vista, próximo à
vila de Caxias, no Maranhão.
Filho do comerciante João Manuel
Gonçalves Dias, natural de
Trás-os-Montes, e de Vicência
Mendes Ferreira, cafuza maranhense,
que viviam juntos sem serem casados.
Em 1829,
João Manuel casou-se com Adelaide
Ramos d’Almeida e levou Gonçalves
Dias para ser criado pela madrasta,
separando-o da mãe. Aos seis
anos foi matriculado na aula de primeiras
letras. Aos 10, começou a trabalhar
na loja do pai como caixeiro e encarregado
de escrituração. Antes
de completar doze anos, já
estudava Latim, Francês e Filosofia.
Augusto Sérgio
Bastos
“Gonçalves
Dias é o poeta nacional por
excelência; ninguém lhe
disputa na opulência da imaginação,
no fino lavor do verso, no conhecimento
da natureza brasileira e dos costumes
selvagens. Em suas ‘Poesias
americanas’ aproveitou muitas
das mais lindas tradições
dos indígenas; e em seu poema
não concluído dos
Timbiras, propôs-se a descrever
a epopéia brasileira.”
(José
de Alencar. Carta ao Dr.
Jaguaribe.
In: Iracema – Lenda
do Ceará)
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poemas de
Rosane Ramos Barcellos
. Adele Weber .
Maria Carpi . Lara de Lemos
Gilberto Mendonça
Teles . Dirce de Assis Cavalcanti
Lígia Dabul . Adília
Lopes
Sandro Ornellas . Regina Célia
Colônia
Carlos Machado
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SONHOS(?)
DE KAFKA
Joaquim Branco
“Envolve
a criança nas dobras
do teu manto, sonho sublime.”
Este é
o último fragmento do
livro Sonhos, de Franz
Kafka, traduzido por Ricardo
F. Henrique (Editora Iluminuras).
Poucas palavras, verdadeiros
touchestones onde o leitor
pode se fartar de beleza e,
ao mesmo tempo, se perder em
suas variadas formas significativas.
Para conhecedores
da obra deste grande escritor
tcheco, que viveu na confluência
do século XIX com o XX
e assombrou o seu tempo (e por
que não dizer o nosso?)
com sua prodigiosa literatura,
fica um pouco difícil
pensar num título desses.
A obra de
Kafka, considerada um autêntico
pesadelo da e na modernidade,
tornou-se a emblemática
tradução de nossas
perplexidades ante o mundo que
se nos apresentava como indecifrável
e absurdo pelas guerras e outras
aberrações do
ser humano. |
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