Israel seqüestra vice palestino
em tempo de trégua

Kofi Annan reclama
reclamar não custa nada

o que resta de amor à vida
periclita

Hitler redivivo
Bush pontifica

Há quem diga que o Estado judeu não é
o povo judeu.

Não é.

Mas o Estado brasileiro é
o povo brasileiro.

E seguimos sujando as mãos.

Só tu, Poesia
és lenitivo na guerra

 

Lançamento de

POR UMA GÊNESE DO HORIZONTE
de Igor Fagundes

LIVRO VENCEDOR
DO IV PRÊMIO LITERÁRIO LIVRARIA ASABEÇA - 2OO5

Clique aqui para saber mais sobre o livro

DIA 22 DE AGOSTO, DAS 18h30 às 22h
com apresentação de atores performers e músicos de jazz e MPB
Local: Espaço Cultural Maurice Valansi
Rua Martins Ferreira, 48, Botafogo

Veja crítica e poemas nesta edição

A Editora da Palavra convida
para o lançamento do livro

JAULA

de Astrid Cabral


Dia 26 de setembro de 2006
a partir das 18h30min.

Museu da República
Rua do Catete

A Editora da Palavra convida
para o lançamento do livro

A DUNA INTACTA
de Maria Dolores Wanderley

Dia 5 de setembro de 2006

Armazem Digital do Leblon
a partir das 19h
com leitura de poemas

   

 

 

A ENGENHARIA POÉTICA DE IGOR FAGUNDES

Tanussi Cardoso*

"Igor Fagundes consegue, já em seu terceiro livro, incorporar, a sua maneira, um corpus próprio, numa casa habitada por muitas vozes. Quase obsessivo com o tema da arquitetura, dos limites, da harmonia, do fazer, que remete diretamente ao rigor da elaboração de sua poesia, Igor é um engenheiro das palavras, mas, diferentemente da estrutura cabralina (uma das suas muitas vozes), de onde se originam seus tijolos e argamassas, o poeta dela se distancia pela habilidade da linguagem emotiva. O rigor de seus versos não o aprisiona em rédeas curtas, mas o faz viajar, tantas vezes lírico, permitindo-o verdejar além de suas paredes.

Num dos primeiros poemas do livro, o poeta já indica o seu jeito de ver a poesia – nem seca nem inundada, mas em equilíbrio e harmonia: não te quero, poema, pantaneiro / folha inundada pelo que não preenche / palavra vazada em desperdício / afogada no excesso de sempre / não te quero, poema, caatinga / rasgar teu cacto na hora da seca / se no ardor do cansaço / parto em êxodo à procura da vida (“geografia”)."

* poeta, crítico literário, jornalista e presidente do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro

“Em por uma gênese do horizonte, o jovem poeta Igor Fagundes urde jogos de linguagem de natureza poética, enredando signos e leitores numa trama misteriosa. Porque, realmente, de mistérios se trata. Mistérios, há-os na liturgia católica que os denomina “mistérios dolorosos, mistérios gozosos, mistérios gloriosos”. Também na liturgia poética deste livro (...), os mistérios nutrem-se de dor, gozo e glória em torno do signo verbal."

Latuf Isaias Mucci.

 

crítica

SONHOS(?) DE KAFKA

Joaquim Branco

“Envolve a criança nas dobras do teu manto, sonho sublime.”

Este é o último fragmento do livro Sonhos, de Franz Kafka, traduzido por Ricardo F. Henrique (Editora Iluminuras). Poucas palavras, verdadeiros touchestones onde o leitor pode se fartar de beleza e, ao mesmo tempo, se perder em suas variadas formas significativas.

Para conhecedores da obra deste grande escritor tcheco, que viveu na confluência do século XIX com o XX e assombrou o seu tempo (e por que não dizer o nosso?) com sua prodigiosa literatura, fica um pouco difícil pensar num título desses.

A obra de Kafka, considerada um autêntico pesadelo da e na modernidade, tornou-se a emblemática tradução de nossas perplexidades ante o mundo que se nos apresentava como indecifrável e absurdo pelas guerras e outras aberrações do ser humano.

Processos de Aculturação e Alteridade em Miltom Hatoum

Fernanda Massebeuf

"Relato de um Certo Oriente, de Miltom Hatoum (1989), é o relato da volta de uma mulher a Manaus, após longos anos de ausência, e seu diálogo com o irmão distante. É a história de um regresso à vida em família e ao mais íntimo, nos quais o destino do indivíduo se enlaça ao do grupo familiar, na busca de si mesmo e do outro.

Por vir ao encontro da ótica dos processos de aculturação e alteridade, destacaremos o segundo capítulo da obra, iniciado com a evocação do acidente de Samara Délia, através de um processo analéptico. A digressão discursiva utilizada, estratégia narrativa utilizada pelo autor, também nos confronta à anedota em torno do papagaio, símbolo dos processos de assimilação e aculturação, a partir das circunstâncias da aquisição da Parisiense, passando pela evocação da relação entre Emilie e o relógio, e entre este e Samara Délia."

 

TICE

Guaracy Micceli

Andava silenciosa quase roçando pelas paredes. Desapercebida. Tinha um rosto lindo. Olhos amendoados. Pele morena. Lembrando um impossível ancestral inca de encantadora nobreza. Seus gestos eram muito delicados e harmônicos. Sua voz sussurrante.

A mãe era uma doméstica que vivia sempre falando ou cantando. Rindo às gargalhadas por pouca coisa. Difícil entender que fosse ela a mãe de Tice. O diminutivo de Beatriz lhe tinha sido dado desde novinha num gesto de carinho. Contudo, traduzia fielmente, a maneira como era vista, diminuta, silenciosa sempre olhando para além das paredes, além das pessoas. Sua aparência era muito limpa, os compridos cabelos sempre bem penteados. Aos nove anos, freqüentava a escola e era sempre elogiada por seu comportamento. As notas variavam muito para a mesma matéria. Evidenciando às vezes sua profunda atenção às aulas, com uma grande capacidade de memória. Outras, ficava quase incapaz de responder às questões, como se estivesse distante, em outro ambiente.


 

quatro minicontos de Carlos Barbosa


Titânico

 

Assim: faz-se uma incisão e depois descola-se a gengiva, expondo-se o osso. Em seguida abre-se um buraco com uma broca. O passo seguinte é introduzir ali um pino de titânio como quem enfia um plano no bestunto de um obtuso. Chega-se até a usar uma chaveta para apertar no limite máximo. Então completa-se com a sutura da gengiva. E abre-se outro e mais outro, pois quem nasce na roça sempre perde uns quatro dentes, no mínimo, até a adolescência - os que ainda têm dentes, é claro. E o sujeito fica então com a boca repleta de pontos a espetar a língua, e com pensamentos mórbidos. Quatro dias tomando sucos e sorvete, quatro dias. Engole-se mais saliva nesse período que se diante de Giselle nua por todo um fim de semana. Pior de tudo é o desgosto que se pega de sorvete. É assim, titânico.


 

POR QUE GOSTO DE POESIA?

jomard muniz de britto


Entre a agonia da página em branco ou da tela do computador, é sempre bom lembrar: “há uma gota de sangue em cada poema”, como dizia Mário de Andrade. Essa gota de sangue, na condição de metáfora, significa a urgência de não separar a arte da existência, o poema da vida e da convivência. Isso que não se aprende nos dicionários nem se apreende das gramáticas, retóricas e poéticas. Nosso desamparo fundamental. Nossa perplexidade diante e dentro da “máquina do mundo”.

Agonia em saber que gosto se discute. E que fazer poesia é talvez a mais fácil das artes. Agonia de suportar e transcender nossas ingenuidades, teimosias, vaidades e até mesmo desinformações. Agonia para enfrentar a necessidade de LER poemas: ler interpretando, ler discutindo e sobretudo reler nossos poetas fundamentais. Isto não é fácil.


O QUE FAZER SEM HORMÔNIOS NEM ILUSÕES?

uma crônica de Dona Leonor

Não sei se estou perdendo a arrogância do critério ou se “seu” Mateus, grosseiro desde sempre, civilizou-se. Fato é que nos entendemos melhor, agora. Nada às mil maravilhas, mas ... Vá lá: estou gostando!


Porque noutro dia ele cá esteve em caráter de visita e ... Bem, na verdade, fui eu quem convidou aquele vascaíno de peito peludo para um lanche no final da tarde. Mas não foi um convite desinteressado.

 

mais

poeta da vez - Rolando Revagliatti

IRMÃOS

"Marcelo nasceu quinze minutos antes de Dana. Mais bem recebidos pelo pai do pela mãe. No entanto, Marcelo se apegou à mãe linfática, à tolerante e até indolente mãe, enquanto Dana se sentia muito respaldada pelo pai. A suave Dana terminava suas brincadeiras vespertinas ouvindo fitas de música em inglês. Marcelo preferia rádio ou televisão. E também gostava mais de ler do que Dana, embora esta conseguisse se concentrar com mais facilidade. Participava dos atos patrióticos da escola, recitando poemas de Baldomero Fernández Moreno ou Conrado Nalé Roxlo que Marcelo seleci­onara, ou cantando canções de Piero, ao som de sua guitarra."

(Tradução de Nilto Maciel)

 

poeta da vez

JORGE WANDERLEY: um agente infiltrado (1938-1999)

Jorge Eduardo Figueiredo de Oliveira Wanderley nasceu no Recife (PE), em 21 de janeiro de 1938, onde se formou em Medicina (1962), seguindo a carreira do pai e do avô, e também em Letras (1975). Veio para o Rio em 1976, concluindo mestrado e doutorado em Letras na PUC. Nesta universidade e na UFF foi professor de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura nos anos 1980.

Escreveu poesia desde os 16 anos e, embora durante um largo período de sua vida tenha exercido a profissão de médico, como neurocirurgião, nunca abandonou aquele primeiro chamamento. Seu livro inaugural, Gesta e poemas anteriores, foi publicado pelo Gráfico Amador do Recife, em 1960, e só 13 anos depois publicou o segundo, Adiamentos – poemas, e em 1974, uma pequena seleta: Microantologia, também em Recife. Já no Rio de Janeiro, lançou Coração à parte (1979), poemas escritos após um enfarte, aos 41 anos. Seguiram-se A foto fatal (1986); Anjo novo (1987); Homenagem. Dez sonetos (1992); Manias de agora (1995); O agente infiltrado (1999), o último livro publicado em vida.

Augusto Sérgio Bastos

“Pessoalidade – Mas, na verdade, apesar da variedade, há em seus poemas um ar de intensa pessoalidade nesse conjunto [O agente infiltrado], que não nos lembra propriamente a dispersão temática. Há, por exemplo, uma recorrência freqüente, que nos dá nessa poética uma tônica fundamental que é, nela, um jogo inter-referencial. Pois naquilo que Jorge identificava muitas vezes, externando tantas vezes as suas opiniões, a presença da influência crítica do que chamava o pós-moderno na arte e na poesia, poderíamos denominar de transpoético na sua dicção, que provocava, dentro desse jogo intensamente subjetivo, de teor aparentemente ultra-emocional, um curioso distanciamento crítico no conjunto de sua poética."

(Sebastião Uchoa Leite. “Um réquiem em forma de antologia”.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 jan. 2002. Caderno Idéias.)

 

poemas de

Alcides Buss . Kátia Bento . Maria Dolores Wanderley
Ascendino Leite . Almandrade

Afonso Félix de Souza . José Paulo Paes
André Luiz Pinto . Iracema Macedo

Carlos Drummond de Andrade . Gilka Machado

Na praia com celular

Helena Ortiz

Na praia, esticada. Toca o celular. Atende sem levantar: Oi pai.
Tudo bem e com você? (Levanta um pouco a cabeça)
Você está nervoso? (A barriga dura se comprime, vai levantar, não levanta)
O que foi que você fez? (senta-se de um salto encolhe as pernas.
Eleva o tom da voz) Por que você contou, papai?
Era um negócio meu, por que você se mete nas minhas coisas pai?
Como não consegue se controlar? Quando? Quando? Não importa. Eu iria contar quando eu tivesse condições. Amanhã. Depois, depois de amanhã. No meu tempo, papai. V. atrapalhou tudo, papai. Por que v. fez isso? (Gesticula e repara nas pessoas que olham. Baixa o tom da voz mas em seguida o eleva de novo já sem se importar).

 

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poeta da vez
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