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Em tempos
de guerra é ainda mais
difícil lutar pelo que
nos parece maior e mais belo.
Temos que
fazer frente às investidas
das hordas bárbaras que
se formaram em nosso meio e
no mundo inteiro, e que se mesclam,
em táticas e objetivos.
O crime organizado isto é,
forças institucionais
de segurança e bandidos
propriamente ditos são
nossos inimigos. Estamos sós
e desgovernados. Sós
e perplexos. Sós e temerosos.
Principalmente sós.
leia
o editorial
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Lançamento:
O Terceiro Jardim
– poemas de Márcia
Cavendish Wanderley
Dia 25 de maio a
partir das 19h
Livraria Argumento do Leblon
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Carpintaria
de Sonhos
de Adriana Vieira
Dia 31 de maio
Livraria Argumento
a partir das 20h
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A Prefeitura Municipal de
Campos dos Goytacazes, através da
Fundação Cultural Jornalista
Oswaldo Lima, está abrindo inscrições
para os interessados em participar do VIII
FestCampos de Poesia Falada. Os trabalhos
devem ser enviados à Fundação
Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Praça
da Bandeira, s/nº, Campos dos Goytacazes-RJ,
CEP 28035-119, de 1º de junho a 31
de julho de 2006. O regulamento e a ficha
de inscrição podem ser encontrados
no site www.fcultural.com.br.

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| A
ARTE DA POESIA
por Antonio
Naud Júnior (*)
Embora haja quem diga o
contrário, a mais antiga profissão
do Mundo deve ser realmente a de poeta.
Como guardiões da história
oral da sua cultura, os poetas gozavam,
nos tempos antigos, de uma posição
particularmente elevada. Tal como a própria
poesia, considerada patrimônio de
monges e filósofos, reis e profetas.
Durante a era imperial do Japão,
versejar fazia parte integrante da vida
da corte. A reputação de um
nobre entre os seus pares podia subir de
modo espetacular ou cair precipitadamente
devido a um simples improviso poético
– e até a própria forma
de um cortesão desenhar os caracteres
de sua poética era considerada um
índice da sua índole e do
seu valor. É muito natural que o
poeta use frequentemente as formas utilizadas
pelos que escrevem em prosa: o enredo e
a cronologia. Mas enquanto o prosador se
confina geralmente a frases, parágrafos
e capítulos, o poeta utiliza muitas
outras combinações de sons
e sentidos, sempre com o objetivo de relacionar
e intensificar o material de que dispõe.
Para Samuel Taylor Coleridge, grande poeta
romântico, nessa capacidade residia
a glória do poder poético.
(*) Autor de “O
Aprendiz do Amor” (1993) e “Suave
é Coração Enamorado”
(2006).
crítica |
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A DERROTA
Mayrant Gallo
1
O menino acabara de tomar café e
fugira de casa, antes que sua mãe
o convocasse para alguma tarefa naquela
manhã. Ela costumava escravizá-lo,
sobretudo aos sábados. Por entre
os bambus, viu que o sol arrancava luz da
superfície da água, como se
tirasse música de velhas panelas.
Então correu, admirado. Chegou ao
fim do caminho de terra, atravessou aos
pulos o breve ajuntamento de pedras e afinal
parou, na areia. Embora ainda fria, obrigaria
mais tarde a todos saltar como doidos.
Era um sábado alegre,
com promessas de grandes brincadeiras, como
eram todos os sábados de verão
na ilha. Muitos turistas tinham chegado
dias antes, com suas crianças. Na
véspera ele estivera na casa de Robin,
que era filho de um casal americano, mas
falava português. Aliás, toda
a família falava. Nenhum problema
de comunicação, portanto.
E era para ali que estava voltando. Além
do fato de ser bem tratado por eles, que
desde o verão anterior, quando fez
amizade com o garoto, cumulavam-no de atenções
e gentilezas, pretendia pegar uma coisa,
um brinquedo. Um lancha em miniatura como
ele jamais vira igual. Linda, em azul e
branco, motor de centro. De invejar mesmo,
sem dúvida. Seu plano era pegá-la
às escondidas e sair. Preferia agir
assim a pedir para si o brinquedo. Não
conseguiria explicar o motivo, mas sentia
que pedir era uma humilhação.
Uma derrota.
mais |

FESTEJOS
DE VÉSPERA
uma crônica
de Dona Leonor
É como sempre
digo: ainda temos a nós mesmos.
Por mais que a política deboche
das nossas boas intenções,
por mais que a economia se concentre
longe de nossos bolsos, o olhar de
um brasileiro sempre se estende a
outro brasileiro e formam-se, aí,
sintonias que ninguém dissolve.
Ou falo demais?
Ou, por um daltonismo ainda à
espera de diagnóstico, cismo
de ver o verde da esperança
no lugar do vermelho da ruína
social? – uma ruína que
não nego, mas a entendo como
ponto de partida para recuperarmos
o que perdemos ou o que de nós
subtraíram.
mais |
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poeta
da vez - Márcia Cavendish Wanderley
A
Carne e o Sonho da Memória
"Em O Terceiro
Jardim de Márcia
Cavendish Wanderley, há
senderos luminosos da carne e sonho
da memória que tecem seus caminhos
delicados com passos de lobo (ou loba?);
ficamos com a segunda hipótese.
Como no poema que dá título
ao livro:
"O Recife já
morto e sufocado/ na leveza desta
areia e desta aragem,/ na promessa
da volta a esta praia./ Da Boa Viagem".
Ou como em Sexo
em Pernambuco:
"O Caule ereto tenta varar o
infinito,/ a natureza é fálica,
desde a Grécia/ até
porto do Recife".
Freud nos ensinou
que se buscássemos fazer uma
arqueologia do sonho poderíamos
saber o que sonhava o Homem primevo,
o urmensch (ou a urfrau); aqui ainda,
ficamos com a segunda hipótese.
Ao percorrermos este caminho é
que começamos a entrar no Terceiro
Jardim. Ao contrário de
Dante, é preciso levar consigo
toda a esperança, para quando
entrarmos estarmos preparados para
a oferenda-maior da ternura de sabermos
que a Mulher é a mãe
do Homem. Rousseau e os românticos
sabiam disso e buscaram, antes de
Freud, nos ensinar sobre os sonhos,
e fizeram os ventos dos sonhos adormecer
a realidade."
Carlos Lima
poeta
da vez |
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Lucia
Aizim: a poesia da Errância
(1915-2006)
Lucia Aizim nasceu
em Kryzhopol, na Rússia (Ucrânia),
em 4 de julho de 1915. Era filha de
Boruch Vatnick e de Esther Averbuch
Vatnick. Em 1919, seu pai foi assassinado
em um pogrom. No ano seguinte,
Esther emigrou para o Brasil acompanhada
apenas das duas filhas, Lucia e Luba.
Veio para a cidade do Rio de Janeiro,
onde já viviam seus pais.
Os primeiros estudos
foram feitos na Escola Benjamin Constant.
Após a formatura pela Academia
de Comércio Cândido Mendes,
voltou-se para a leitura e reflexão
literária, ingressando na Escola
Dramática, de onde só
saiu quando os horários de
trabalho e estudo se tornaram inconciliáveis.
Trabalhou primeiro em companhia de
seguros e depois em escritório
comercial durante três anos,
quando então se casou, passando
a dedicar-se à família
em tempo integral.
Augusto Sérgio
Bastos
“Densa, despojada,
grave e liricamente sentenciosa é
a poesia de Lucia Aizim, cujos itinerários
se entrelaçam, em meio a signos,
cantigas de amigo e iluminuras, ao
longo das trilhas de sua Errância,
um dos mais belos livros já
produzidos nestes últimos anos
pela poesia brasileira. "
(Ivan Junqueira.
A presença poética feminina.
In: À sombra de Orfeu:
ensaios. Rio de Janeiro: Editorial
Nórdica; [Brasília]:
INL, 1984)
poesia
sempre |
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| poemas
de
Rosane Barcelos Ramos . Federico
Corral Vallejo
Wislawa Szymborsk (Tradução
de Carlito Azevedo)
Castro Alves . Carlos Machado
Lia Galdo . Marize Castro
Arriete Vilela . Charles Baudelaire
(Tradução de Maria Dolores
Wanderley)
João de Moraes Filho . Antonio
Carlos de Oliveira Barreto
Lina Tâmega Peixoto
. Mário de Sá-Carneiro
Marly de Oliveira . Dora
Ferreira da Silva . Soares Feitosa
Darío Canton (Tradução:
Cristiane Grando. Crítica:
Eustáquio Gomes)
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| ONDE ESTIVEMOS
ENQUANTO ERA NOITE
Alexandre Brandão
É tudo silêncio.
Nos embrenhamos pela estrada deserta
e de oásis em oásis
chegamos ao rio. Cedo ou tarde pescaremos
as traíras. Por enquanto, avistamos
as luzes piscando bem longe. Faço
um comentário sobre qualquer
coisa sem muita importância.
Você acusa de fria, a brisa.
Emendo: o frio exige um trago. Você
reclama de que não trouxemos
bebida. Eu lhe faço a surpresa.
De meu embornal, saco o licor de jabuticaba.
Quem vai fazer a surpresa agora é
você: beber o líquido
direto do bico da garrafa, sem tomar
fôlego. Rio. O rio passa. Os
peixes ainda não morderam a
isca. Quero saber se conheço
você. Você se despe e
pula nas águas geladas. Eu
brinco: o peixe caiu na minha rede,
e mergulho nas mesmas águas
e abraço o seu corpo arrepiado.
Eles ficaram para trás, você
cochicha no pé do meu ouvido.
Outros virão, respondo certo
de que, para você, eles são
os peixes. Explicito a minha fome
do momento. Você abre as pernas.
Nos encostamos no barranco e acontece.
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