Eis o panorama da palavra 56, apresentando aos leitores a poesia contemporânea, ao lado daquela que o tempo já consagrou, perseguindo uma utopia que é a convivência entre poetas, mesmo que pertençam a patamares diferentes de uma hierarquia que não se sabe quem estabeleceu.

Nas páginas do jornal, e atualmente no espaço livre da tela em que existe o panorama da palavra não há lugar para vaidades literárias. Aqui todos são iguais. Importa a criação literária, o resultado final de um trabalho quase sempre exaustivo, que mostre o melhor de cada autor. Todos somos militantes numa atividade cuja divulgação é tão difícil, e pós globocolonização, marginalizada até mesmo pelo mercado que existe para divulgá-la. Mas talvez seja isso que precisemos. Talvez precisássemos até que a poesia fosse proibida, e quem sabe aí fosse novamente levada a sério.

Leia aqui os textos de Angélica García Santa Olaya e Tanussi Cardoso sobre o 2º Festival de Poesia Latino-Americano "Ser al fin una palabra" realizado em março na Cidade do México.

leia o editorial

Cor-de-rosa

de ADELICE SOUZA

Estou, estou. Estou aqui num banheiro fétido de um pequeno shopping de bairro. Lá fora e também aqui dentro são duas horas da tarde (que sol!) e as pessoas compram muito porque é véspera de Natal. Eu não usaria este banheiro em condições normais, é um saco ter que forrar todo o vaso sanitário com papel higiênico, mas estou com aids e a diarréia que o remédio provoca me faz... É, faz. É preciso avisar, é preciso avisar para as pessoas que o remédio mais avançado que o médico nos traz também tem os seus inconvenientes: minha boca é um vulcão, caverna aberta com estalactites de bolhas brancas e vermelhas e que fecham as crateras da minha garganta. Comida? Só bebida. E o príncipe louro adolescente do apartamento ao lado do meu, já me olha piedade. Olhava desejo, olhava curiosidade, olhava surpresa, olhava medo, olhava compaixão. Durante este último olhar eu ainda achava que ia, mas olhou piedade e se foi. Príncipe menino variado, diversificado, olhava de tudo quanto era jeito, hoje piedade.

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Campo de pouso

Joana Maria Neves Guimarães

Editora da Palavra

103 págs.

A última epígrafe do livro de poemas Campo de pouso, de Joana Maria Neves Guimarães, parece reunir, em síntese, toda a problemática que perpassa a obra da poeta piauiense, em seu primeiro livro solo: “Havia um vôo abandonado no chão/ à espera das asas de um pássaro”. Os versos, de Joaquim Cardozo, poeta-engenheiro, transmitem sentidos múltiplos, não se restringindo apenas ao fazer poético. O aporte da metalinguagem é viés possível, por meio do qual poderia revelar-se o “chão” como a folha em branco; o “vôo abandonado”, as palavras ainda não pronunciadas; as “asas de um pássaro”, o sopro dado pelo poeta para que as coisas nasçam, se não do branco da página, pelo menos de qualquer região onde habita o vazio, ou a rotina, que, para Joana, pode ser transmutada “em uma clareira/ aberta com palavras/ recolhidas devagar”. Mas logo após vivenciar o momento epifânico, retorna à lide diária, que nem por isso deixa, agora, de ser sagrada: “volto às panelas/ às vassouras/ ao sono: iluminada”; versos do poema “Em rota”.

Leonardo Vieira de Almeida

crítica

 

As rugas de uma rua antiga..

uma crônica de Dona Leonor

Dia desses, folheava o dicionário de latim e me deparei com uma preciosa descoberta: pela etimologia, a palavra rua deriva de ruga. E por quê? Ora, porque a rua corta a paisagem urbana, da mesma forma que a ruga abre sulcos na superfície da pele. Achei tão interessante!

Interessante, porque a relação entre as duas palavras explica muita coisa. Por exemplo, o meu permanente interesse em fiscalizar da sacada o que vai pelo passeio. Rua, ruga. Quem diria! Não é à toa que em toda janela há sempre um idoso de plantão a bisbilhotar o cotidiano.

E aprende-se muito nesse exercício de bisbilhotice – hábito demais característico do nosso povinho. Aprende-se, por exemplo, a conhecer uma vizinhança que, do contrário, cumprimentaríamos apenas de passagem e, assim mesmo, sem certeza de serem nossos vizinhos.

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poeta da vez - LUIZA VIANA

Luiza Viana, mestranda de Ciência da Literatura. Publicou O céu do lençol pela Editora 7 Letras (1996). Participou de várias antologias. Poema citado em artigo de Gustavo Bernanrdo, in Atualizações da Idade Média; comentários no livro de Jomard Muniz de Brito, Atentados Poéticos.

 

poeta da vez

 

Ferreira Gullar

Ferreira Gullar é o nome literário de José de Ribamar Ferreira. Nasceu no dia 10 de setembro de 1930, em São Luís do Maranhão.

Foi lá, em 1945, que tomou a decisão de ser escritor e então começou a freqüentar o Centro Cultural Gonçalves Dias, que promovia, aos domingos, recitais de poesia.
Em 1951, veio para o Rio de Janeiro. Estava insatisfeito com a vida cultural de sua cidade, mas motivado por ter sido vencedor do Concurso Nacional de Poesia promovido pelo Jornal de Letras, aqui do Rio.

Sua obra, ao longo desses anos, se alçou a um patamar de excelência raras vezes alcançado na língua portuguesa. Reunida em um só livro Toda poesia,, editada em 1980, já atingiu a 14ª edição. Em 2003, com o título de Obra poética, foi publicada em Portugal, num volume de 541 páginas. Confirma essa consagração uma pesquisa realizada junto a cerca de 100 intelectuais em fins da década de 1990, onde Gullar foi apontado como o mais importante poeta vivo do país, com 70% de indicações.

Augusto Sérgio Bastos

poesia sempre

poemas de

Vanessa Buffone

Hilda Hilst . Antonio Naud Júnior
Ana Cristina César . Luís Carlos Oliveira

João Guimarães Rosa . Fadwa Tuqan .
Rita Moutinho

Bernardo Linhares
Murilo Mendes . Alexandre Guarnieri

Eduardo Llanos Melussa (Tradução: Cristiane Grando)

 

VIDA BANDIDA

helena ortiz

Eu sempre dizia pra Ana. Quando for assim, se joga no chão. Ouviu o estampido, se joga. Não tem nada de querer ver de onde veio o tiro, quem atirou. Não interessa. 30 segundos de curiosidade dura a vida. Eu sempre dizia pra Ana.

Sei disso desde garoto. Sempre gostei muito de calcular. E aí vi que desde a pressão que se imprime ao gatilho até o tiro atingir alguma coisa são 30 segundos. Porque o tiro não tem a mesma velocidade do som. Se você se jogar no chão, você escapa.

Tive o impulso na primeira vez que ouvi um. Eu era moleque. A gente ia para casa pelo beco. Quando ouvi me joguei no chão, mais Ana e Carlinhos. Tava vindo um crente, com a família. Carlinhos ainda gritou: Se abaixa aí. O crente falou: Tô com Deus. Levou no peito.A família arregalada. A Bíblia no chão.

 

 
 
 
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editora da palavra