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Caros leitores
Há muito pouco tempo
Cazuza pedia uma ideologia para
viver. E morreu. Rollings Stones
U2 Caetano e Gil vivem.
John Lennon Bob Marley e Cacaso
estão mortos.
O carnaval, finalmente, passou.
Enfrentamos a bandidagem a polícia
las malas letras a Skol e estamos
vivos. Alguma coisa há
de mais podre ainda no reino
do carnaval além dos
banheiros químicos. A
lama se espalha e sobe pelas
pernas das cadeiras da sala.
leia
o editorial |
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| Seguranca
Publica/A liquidacao do Opio - Trad. Cláudio
Willer
Antonin Artaud
Tenho a intenção
declarada de encerrar o assunto de uma vez
por todas, para que não venham mais
nos encher a paciência com os assim
chamados perigos da droga.
Meu ponto de vista é
nitidamente anti-social.
Só há uma
razão para atacar o ópio.
Aquela do perigo que seu uso acarreta ao
conjunto da sociedade.
Acontece que este perigo
é falso.
Nascemos podres de corpo
e alma, somos congenitamente inadaptados,
suprimam o ópio: não suprimirão
a necessidade do crime, os cânceres
do corpo e da alma, a inclinação
para o desespero, o cretinismo inato, a
sífilis hereditária, a fragilidade
dos instintos; não impedirão
que haja almas destinadas a seja qual for
o veneno, veneno da morfina, veneno da leitura,
veneno do isolamento, veneno do onanismo,
veneno dos coitos repetidos, veneno da arraigada
fraqueza da alma, veneno do álcool,
veneno do tabaco, veneno da anti-sociabilidade.
Há almas incuráveis e perdidas
para o restante da sociedade. Suprimam-lhes
um dos meios para chegar à loucura:
inventarão dez mil outros. Criarão
meios mais sutis, mais selvagens; meios
absolutamente desesperados. A própria
natureza é anti-social na sua essência
– só por uma usurpação
de poderes que o corpo da sociedade consegue
reagir contra a tendência natural
da humanidade.
mais

Campo
de pouso
Joana Maria Neves Guimarães
Editora da Palavra
103 págs.
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A última epígrafe
do livro de poemas Campo de pouso,
de Joana Maria Neves Guimarães, parece
reunir, em síntese, toda a problemática
que perpassa a obra da poeta piauiense,
em seu primeiro livro solo: “Havia
um vôo abandonado no chão/
à espera das asas de um pássaro”.
Os versos, de Joaquim Cardozo, poeta-engenheiro,
transmitem sentidos múltiplos, não
se restringindo apenas ao fazer poético.
O aporte da metalinguagem é viés
possível, por meio do qual poderia
revelar-se o “chão” como
a folha em branco; o “vôo abandonado”,
as palavras ainda não pronunciadas;
as “asas de um pássaro”,
o sopro dado pelo poeta para que as coisas
nasçam, se não do branco da
página, pelo menos de qualquer região
onde habita o vazio, ou a rotina, que, para
Joana, pode ser transmutada “em uma
clareira/ aberta com palavras/ recolhidas
devagar”. Mas logo após vivenciar
o momento epifânico, retorna à
lide diária, que nem por isso deixa,
agora, de ser sagrada: “volto às
panelas/ às vassouras/ ao sono: iluminada”;
versos do poema “Em rota”.
Leonardo Vieira de Almeida
crítica
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Sangue
e Areia.
Mariel Reis
Toda vez ele mandava
ajoelhar no chão de cascalho.
Doía. Apontava as traves. As
linhas de cal cercando o campo. Ali,
dizia, eu costumava jogar ali. Zagueiro,
e cuspia enquanto falava. O trezoitão
enfiado no cinto, por dentro da calça.
Toda vez ele mandava percorrer a quadra
de joelhos, como uma penitência.
Pensando que é mole, meu irmão.
Corria isso aí, cinco, dez
vezes. Minha perna igual à
de um cavalo. E enquanto ele dizia,
um rastro vermelho lambuzava todo
a extensão da primeira parte
lateral do campo. As janelas dos barracos
entreabertas. Nos ônibus ninguém
se atrevia a descer e acabar com aquela
desgraça. Lembro de um jogo,
tinha um cara chamado Bodão,
o cara era foda. Ninguém parava
o filha-da-puta. Aí falaram
para mim assim “Cobrinha, pára
o cara, custe o que custar”.
Eu sorri meio banguela, satisfeito.
Porque não tinha outro para
o serviço.
mais
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poeta
da vez - IGOR FAGUNDES
Carioca, 24 anos.
É poeta, contista, ensaísta,
dramaturgo, jornalista e ator. Mestrando
em Poética no Programa de Pós-graduação
em Ciência da Literatura na
Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) e graduado em Comunicação
Social pela Universidade Federal Fluminense
(UFF).
Autor dos livros
de poemas Transversais (Primeiro Lugar
no Concurso Literário Estudantes
do Brasil, 2000), sete mil tijolos
e uma parede inacabada (2004) e por
uma gênese do horizonte (Vencedor
do IV Prêmio Literária
Livraria Asabeça - 2005, no
prelo). Possui cerca de 60 premiações
em concursos literários e trabalhos
traduzidos para o inglês, francês
e espanhol.
No meio artístico,
participou de 14 espetáculos
teatrais como ator. Produziu e escreveu
duas peças. Dirigiu uma delas.
Possui prêmios em teatro infantil.
É jornalista do Grupo Folha
Dirigida.
poeta
da vez |
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SOU
MAIS JAMELÃO DO QUE JAGGER
uma
crônica de Dona Leonor
Noite dessas, louça
da janta já lavada, bebia café
na mesa da cozinha bem devagar pra
fazer render o bom. E ainda estalava
a língua de puro prazer por
estar ali comigo mesma, inteira, sem
prazos, sonhadora, numa quietude mais
que benta, de invejar aos serafins.
Depois fui até
a janela, acendi a luz lá dos
fundos e fiquei espiando as plantas
sob o sereno prazenteiro. Dava gosto
ver como crescia a muda de beijo que
a vizinha Idalina me ofertou por cima
do muro com uma gratuidade sem qualquer
interesse: queria apenas me agradar.
mais
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João
Cabral de Melo Neto - (1920 - 1999)
João Cabral
de Melo Neto nasceu em Recife, em
9 de janeiro de 1920. Família
de pernambucanos, primo do poeta Manuel
Bandeira e do escritor Gilberto Freyre,
passou a infância no interior
de Pernambuco e estudou no Colégio
dos Irmãos Maristas, na capital,
onde concluiu o secundário,
aos quinze anos. Nessa época
era um entusiasta do futebol, atuando
com a camisa número cinco,
na posição de center
half, foi campeão juvenil
pelo Santa Cruz Futebol Clube.
Augusto Sérgio
Bastos
“Não
apenas descobridor. Nosso Cabral é
um inventor de mundos. E nada acontece
por acaso (como dizem que foi o caso
de Pedro Álvares).
Arquiteto de palavras
_ que recria numa linguagem tão
propriamente dele _ João Cabral
sempre acrescenta alguma coisa de
não-visto, de não-lido
antes, em cada produção
com que enriquece a literatura."
(COUTINHO,
Edilberto. Cabral, o poeta descobridor.
In: João Cabral de Melo Neto.
Auto do Frade. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1984)
poesia
sempre |
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| poemas
de
Izacyl Guimarães Ferreira
Lúcia Aizim . Kátia
Maccés
Luis Antonio Cajazeira Ramos
. Rodrigo Petronio
Sílvio Ribeiro de Castro .
Luiza Viana . Augusto Sérgio
Bastos
José Virgílio Maciel
. Tchello d´ Barros . Rodolfo
Alonso
Cesário Verde . Augusto
dos Anjos
Eunice Arruda
Maria da Conceição
Paranhos . Celso Brito
Paulo Henriques Britto
Carlos Alberto Trujillo
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| cinema pipoca barriga
cheia cabeça oca
helena ortiz
Há um certo
tipo de comportamento pedindo estudos:
por que pipocas dentro das salas de
cinema?
Mais um: por que
é que as pessoas precisam comer
em horários em que não
estão acostumadas a comer?
O leitor, mais viajado
que eu, há de conhecer casos,
mas conto o que sei: em Porto Alegre,
no cinema Guion há um cartaz
que diz “tantos anos sem pipocas”.
No mesmo cinema, ao comprar um pacote
de chocolates numa embalagem de papel
laminado fui inquirida pelo vendedor
do café se pretendia comê-los
dentro da sala. Respondi sim e então,
educadamente, ele me pediu de volta
a embalagem, e com uma tesoura tirada
da gaveta, cortou-a, colocando os
chocolates dentro de outro saco, de
material silencioso. Não me
perguntou se eu costumava chupar enquanto
comia, nem se o chocolate era crocante,
ou se eu ia comer os chocolates antes
ou depois de iniciar o filme, mas
isso já é outra história.
De qualquer forma, fez o possível
para evitar que eu, com o irritante
matraquear de papel laminado, incomodasse
outros usuários do cinema.
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