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Esperamos
que, do borbulhar das coisas
velhas, novas e caóticas,
surgisse, entre acertos e desacertos,
a eterna verdade, a da transição,
permanentemente acrescentada,
e que é a periódica
vitória do homem sobre
o efêmero das escolas
e das modas.(Ledo Ivo)
Das palavras que tomamos de
empréstimo do poeta Ledo
Ivo vêm objetivo e intenção
de seguir trabalhando no sentido
de divulgar ainda mais a poesia,
trabalho que não cessa
e sempre aumenta, haja vista
a ampliação do
jornal, que abre uma banda hispânica
desde a edição
anterior, começando com
o chileno Francisco Véjar
e contemplando nesta a poetisa
argentina Graciela Cros. Estamos
abertos para a integração
da poesia, e por meio dela,
dos países, e temos a
certeza de que é a poesia,
antes de tudo, que fará
com que isso aconteça.
leia
o editorial |
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| GOLPE
DE ESTADO E VOTO NULO
uma crônica de Dona
Leonor
Sábado
passado, o vizinho Anescar chegou de pijama
até a varanda que dá pra rua
e comentou com a esposa “querida,
como estão lindas as samambaias!”.
Ela fez que não ouviu e, bacia na
cabeça, seguiu emburrada até
o varal, onde pendurou as roupas dele sem
gosto nem zelo, apenas por obrigação
de esposa. Depois, meteu-se na cozinha a
remexer o ensopado.
Ele percebeu
que a dita estava de ovo virado, mas ignorou
porque, pelo visto, pretendia salvar o fim-de-semana.
Na casa seguinte, Zenóbia botava
na vitrola o disco do Roberto, aquele que
diz “o importante é que emoções
eu vivi”. E Anescar não perdeu
o mote: “Ouve, querida, que música
linda! Vem, vamos dançar aqui na
varanda mesmo, vem”.
mais

Campo
de pouso
Joana Maria Neves Guimarães
Editora da Palavra
103 págs.
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A última epígrafe
do livro de poemas Campo de pouso,
de Joana Maria Neves Guimarães, parece
reunir, em síntese, toda a problemática
que perpassa a obra da poeta piauiense,
em seu primeiro livro solo: “Havia
um vôo abandonado no chão/
à espera das asas de um pássaro”.
Os versos, de Joaquim Cardozo, poeta-engenheiro,
transmitem sentidos múltiplos, não
se restringindo apenas ao fazer poético.
O aporte da metalinguagem é viés
possível, por meio do qual poderia
revelar-se o “chão” como
a folha em branco; o “vôo abandonado”,
as palavras ainda não pronunciadas;
as “asas de um pássaro”,
o sopro dado pelo poeta para que as coisas
nasçam, se não do branco da
página, pelo menos de qualquer região
onde habita o vazio, ou a rotina, que, para
Joana, pode ser transmutada “em uma
clareira/ aberta com palavras/ recolhidas
devagar”. Mas logo após vivenciar
o momento epifânico, retorna à
lide diária, que nem por isso deixa,
agora, de ser sagrada: “volto às
panelas/ às vassouras/ ao sono: iluminada”;
versos do poema “Em rota”.
Leonardo Vieira de Almeida
crítica
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FOTOGRAFIA
DE UM SOL SOB A PALAVRA
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o que fotografei em olho-de- peixe
dessa vida
ficou guardado em ouro
entre corais
Helena Ortiz
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Aos ouvidos entediados
com o mais do mesmo, soa, atualmente, quase
como um clichê afirmar que a marca
da contemporaneidade é o ecletismo
de vozes e estilos – fato que inviabilizaria
a definição de escolas ou
correntes dominantes no contexto artístico-literário
atual. Sabemos, no entanto, que, em boa
parte da poesia brasileira produzida a partir
da década de 1990, mantém-se
clara certa tendência a uma escrita
substantiva, enxuta, cotidiana, em contraposição
a vertentes neo-simbolistas cujo maior expoente
seria o poeta Alexei Bueno. Nesse cenário
de linhas estéticas simplificado
ao dicotômico, a gaúcha Helena
Ortiz chega a seu quinto livro de poemas,
Sol sobre o dilúvio (Editora da Palavra,
2005), fiel à proposta estilística
que a tornou grande entre seus pares e na
qual hoje alcança o auge da maturidade:
economia verbal, densidade nas sínteses,
silêncios explosivos.
Destacar que Helena Ortiz
se fez grande entre os que optaram pela
poesia breve na atualidade implica uma crítica
que, no lugar de evocar elementos formais
que a enquadrem na escola da contenção,
aponte os que a singularizem; aqueles que
nos permitam sentir-pensar “o que
a palavra diz”, o que a sua –
e apenas a sua – palavra traz a um
leitor atento ao tom e ao timbre, à
particularidade da voz.
Igor Fagundes é
poeta, jornalista, Mestrando em Poética
no Programa de Pós-Graduação
em Ciência da Literatura da UFRJ.
crítica

PRESENÇA
TELÚRUCA - José Inácio
Vieira de Melo
Astrid Cabral
Querido amigo, poeta Zé Inácio:
Finalmente
pude me entregar ao deleite da leitura
e percorrer contigo A Terceira Romaria.
Que prazer, amigo, andar pelas
terras do teu sertão exterior
e interior! Encontrar ao lado das
areias secas e do sol inclemente os
jardins dos totêmicos mandacarus
e das frondosas, sempre verdes algarobeiras!
Vi em poesia culta um sertão
que só costuma aparecer no
mundo dos cantadores de cordel (Deixo de fora
Rosa, Euclides e Zé Lins, pois,
em que pese a carga poética
deles, lavraram mesmo foi o campo
da prosa). Talvez fale assim por ignorância
minha, conheço mal a poesia
do Nordeste, mas me surpreendeu tanta
presença telúrica.
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crítica
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poeta
da vez - IRACEMA MACEDO
Iracema Macedo nasceu
em Natal em 27 de junho de 1970. É
autora de dois livros de poesia: Lance
de dardos, publicado em abril
de 2000, pelo Estúdio 53 (RJ)
e Invenção de
Eurídice, publicado
pela Editora da Palavra em 2004. Defendeu
tese de doutorado em filosofia na
Unicamp com o tema “Nietzsche,
Wagner e a época trágica
dos gregos”.
Atualmente é
pesquisadora da CAPES junto ao Departamento
de Filosofia da Universidade Federal
de Minas Gerais.
poeta
da vez |
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Vicente
de Carvalho: o poeta do mar (1866-1924)
Vicente Augusto de
Carvalho, advogado, jornalista, político,
magistrado, poeta e contista, nasceu
em 5 de abril de 1866, na cidade de
Santos (SP). Era filho do major Higino
José Botelho de Carvalho e
de Augusta Bueno Botelho de Carvalho.
Desde cedo revelou
raros dotes de inteligência
e sensibilidade, pois aos oito anos
de idade começou a escrever
os primeiros versos. Fez o curso primário
na cidade natal, seguindo depois para
São Paulo com o objetivo de
terminar os estudos. Com 16 anos matriculou-se
na Faculdade de Direito. Aos 20, em
1886, era bacharel.
Augusto Sérgio
Bastos
“Entre outras
virtudes, o fino ouvido de Vicente
de Carvalho para as entonações
do cotidiano soube amenizar a rigidez
do verso parnasiano adotado por Alberto
de Oliveira. E pelo tratamento despojado
dado aos temas universais, como o
amor, a morte e o mar, conseguiu ele
aproximar-se de um público
mais amplo, mostrando-se menos elitista
do que Olavo Bilac e Raimundo Correia.
"
(Cláudio
Murilo Leal. Melhores poemas/Vicente
de Carvalho.
São Paulo: Global Editora,
2005)
poesia
sempre |
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| poemas
de
Camilo Pessanha . Abgar Renault
Ledusha B. A. Spinardi .
Paulo Leminski . Jorge Tufic
Igor Fagundes . Rosane Ramos
Anderson Braga Horta . Astrid
Cabral
Afonso Henriques Neto . Joca
de Oliveira
Márcia Cavendish Wanderley
Graciela Cros
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| comandos em alta
helena ortiz
Síndica olhos
azuis. Porteiro olhos negros. Síndica
cabelos escova progressiva. Porteiro
perde dentes em progresso. Alta, a
voz da síndica. Porteiro olhos
baixos. Voz aguda dita ordens por
favor. Soa sagaz por favor soa falso
soa sádico. Cuidado: a lei.
Cuidado: o racismo.
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